Alimentação

"O estômago possuído" relata o drama de quem sofre de compulsão alimentar

Tatiana Pronin

Editora do UOL Ciência e Saúde

Quase todo mundo já se flagrou em um momento de descontrole alimentar. Sabe quando acaba a festa e a gente fica a sós com as sobras da Ceia? Ou depois de um dia estressante, quando parece que só a caixa inteira de bombom é capaz de aplacar a ansiedade. Passar, vez ou outra, por um episódio de comilança pode, no máximo, render alguns gramas a mais na balança, além de muita azia. Mas conviver com isso quase todos os dias pode ser um verdadeiro inferno.

Para quem sofre do Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), colocar para dentro 2.000 ou 3.000 calorias de uma só vez não é uma questão de falta de disciplina ou de vergonha na cara, como muita gente pode pensar. "A pessoa não tem controle voluntário suficiente para impedir um episódio ou interrompê-lo", explica o psiquiatra Adriano Segal, do Ambulatório de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Uma metáfora perfeita para o transtorno virou título do livro que Segal e o endocrinologista Alfredo Halpern, também do ambulatório, acabam de lançar: “O estômago possuído” (Ed. BestSeller). O livro conta a história de Simone, uma personagem fictítica que convive com os sintomas típicos do TCAP: dois ou mais episódios de compulsão por semana, no qual se ingere uma quantidade enorme de comida em um intervalo curto e em situações em que comer assim não é esperado -- encher a pança no rodízio de carnes ou na festa de fim de ano não é algo fora da curva.

De acordo com o psiquiatra, o TCAP ainda não é reconhecido oficialmente como um transtorno alimentar. Ou seja, não está descrito na “bíblia” das doenças mentais, digamos assim. “Deverá ser em muito breve, mas atualmente ainda é uma categoria diagnóstica em pesquisa”, explica.

Histórico de dietas

O transtorno acomete cerca de 2% da população. Em pacientes obesos, a prevalência pode chegar a até 40%. O problema é mais frequente em mulheres, em pessoas que convivem com a obesidade desde a infância, que passaram por todo tipo de dieta e, ainda, que sofrem de quadros psiquiátricos como ansiedade e depressão.

Apesar de ser tão comum, o TCAP ainda não é tão divulgado como a anorexia e a bulimia, outros tipos de transtorno alimentar. Para Segal, isso se explica por sua falta de “glamour” – é um transtorno associado a gente obesa, não a figuras que frequentam passarelas.

A causa da compulsão alimentar periódica ainda não é muito clara. O médico comenta que o entra-e-sai-de-dieta pode ter um papel importante, por desequilibrar o centro de saciedade. Também há a hipótese de o problema ser causado por falhas no fluxo de dopamina e serotonina – dois mensageiros químicos do cérebro ligados à sensação de recompensa e de bem-estar, respectivamente. 

Terapia e medicamentos

  • Divulgação

    Capa do livro recém-lançado por Adriano Segal e Alfredo Halpern, especialistas do Ambulatório de Obesidade do HC-SP

O tratamento do transtorno envolve terapia, orientação nutricional, mudanças de estilo de vida e uso de medicamentos, como certos antidepressivos. “Não há cura, mas muitos pacientes têm excelente evolução”, conta o psiquiatra.

Para quem sofre de episódios frequentes de descontrole alimentar, mas ainda não chegou ao status de Simone, a personagem com “estômago possuído”, a recomendação é procurar um especialista na área. “Não faça dietas estapafúrdias, não acredite em milagres, coma de modo saudável (mas não ‘neuroticamente’ saudável) e faça atividades físicas também de modo saudável”, completa.

"O estômago possuído"

Adriano Segal e Alfredo Halpern

Editora BestSeller

144 páginas

R$ 19,90

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