Vida saudável

Estudo contesta alegações de produtos para melhorar o desempenho físico

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Os autores examinaram a publicidade de bebidas esportivas, suplementos orais, calçados, roupas e aparelhos como pulseiras e meias de compressão anunciados no Reino Unido e nos Estados Unidos imagem: Getty Images

Nicholas Bakalar

The New York Times

Numa pesquisa recente sobre as alegações de melhoria do desempenho feitas por dezenas de produtos de condicionamento físico, pesquisadores não encontraram uma única sequer que pudesse ser apoiada por uma pesquisa científica rigorosa. Além disso, os poucos artigos que foram avaliados completamente parecem não ter efeito sobre a força, resistência e velocidade, nem reduziram a fadiga muscular.

"Todas as empresas dizem ter base científica para esses produtos", afirma o principal autor, Matthew Thompson, cientista clínico sênior da Universidade de Oxford. "A coisa parece boa até ser examinada por um ponto de vista científico objetivo."

Thompson e colegas examinaram a publicidade de bebidas esportivas, suplementos orais, calçados, roupas e aparelhos como pulseiras e meias de compressão em 100 revistas de interesse geral e nas dez principais revistas de esportes e ginástica do Reino Unido e dos Estados Unidos. Os pesquisadores excluíram revistas de fisiculturismo e anúncios para perda de peso, produtos para pele ou de beleza e equipamentos como bicicletas e máquinas de exercício.

Os pesquisadores também examinaram sites atrás de qualquer produto que afirmasse aprimorar o desempenho ou a recuperação, coletando todas as referências feitas pelos fabricantes a estudos referendando as afirmativas. A seguir, eles avaliaram os estudos, dando a nota mais alta a resenhas sistemáticas de experimentos aleatórios, depois para testes aleatórios individuais, para estudos não aleatórios e, a nota mais baixa, para a opinião de um especialista e estudos com animais.

Os pesquisadores examinaram 615 anúncios esportivos em revistas. Desses, 54 continham alegações de que o produto melhorava o desempenho, mas somente três traziam referências. Os 53 sites examinados continham 141 referências.

Eles escreveram às empresas solicitando referências a qualquer pesquisa que eles ou terceiros tivessem realizado que não fosse citada nos anúncios ou sites. Das 42 empresas contatadas, 27 responderam e nove forneceram material adicional. Excluindo duplicatas, livros sem estudos clínicos, estudos não realizados com humanos e levantamentos e artigos sem data, os fabricantes forneceram 74 estudos que puderam ser analisados em busca do valor científico.

Quase metade dos participantes nos 74 estudos foi classificada como "pessoas comuns" que se exercitam, cerca de 40% eram atletas de resistência e 11% eram atletas profissionais. Num dos estudos não ficou claro quem eram os participantes.

A análise, publicada online quinta-feira pelo "BMJ Open", constatou que somente três estudos oferecidos pelos fabricantes foram julgados como tendo alta qualidade e baixo risco de parcialidade, mas nenhum deles testou um produto determinado como intervenção. Dois eram estudos do efeito da suplementação do ácido linoleico; o outro era um experimento controlado de citrato de magnésio no tratamento das câimbras nas pernas. Os três apresentaram resultados negativos.

De acordo com os pesquisadores, um fabricante de bebidas de proteínas  e pílulas referendava as alegações publicitárias com um estudo comparativo de dietas diferentes no metabolismo de ratos publicado em 1930.

Bebidas esportivas

Segundo Thompson, a Coca-Cola, que fabrica o Powerade, forneceu dez estudos. Um foi pago por uma subvenção irrestrita da fabricante; outro foi escrito pelo diretor do Instituto de Ciência Esportiva Gatorade.

De acordo com Thompson, "as empresas de bebidas abriram um mercado criando uma doença chamada 'desidratação', a qual precisa ser tratada ou prevenida com essas bebidas caras – caras não apenas em termos de custos, mas também na quantidade de açúcar e ingestão de calorias".

Por e-mail, uma porta-voz da Powerade afirmou: "Nós sempre nos baseamos em ciência segura, baseada em fatos, para garantir que nossos produtos cumpram o que prometem aos consumidores. Powerade foi desenvolvido em conjunto com especialistas em ciência esportiva".

A American Beverage Association disse por e-mail que o estudo "exibe uma parcialidade clara ao ignorar pesquisas amplamente aceitas em bebidas esportivas". A correspondência não citou exemplos específicos de tal pesquisa.

Uma especialista não envolvida no estudo, Kay Dickersin, professora de epidemiologia da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, tinha dúvidas quanto aos métodos dos autores.

"Para saber se essas afirmações são corretas, seria necessário efetuar uma revisão sistemática de cada tópico. Enquanto eles se atêm a esses métodos, tudo bem, mas as alegações são fortes demais para os dados. Talvez existam provas por aí referendando as empresas."

Todavia, ainda segundo Dickersin, "meu palpite é de que as afirmações das empresas são mais fortes do que deveriam ser e que não existem muitos dados a sustentá-las".

Claire Wang, professora assistente de gestão e políticas de saúde da Escola de Saúde Pública Mailman, da Universidade Columbia, ficou impressionada com a diligência dos autores. "Eles foram até o fim tentando localizar os fatos e merecem crédito."

Os autores reconhecem que, embora tenham tentado empregar uma amostra representativa das alegações dos fabricantes, é possível que os produtos analisados estivem "no pior segmento do espectro" e admitem que, com mais tempo, algumas das empresas poderiam ter fornecido mais referências.

"É um estudo interessante e não me surpreende em nada não existirem provas para referenciar as alegações", disse Eric B. Bass, professor de medicina da Johns Hopkins que não participou do estudo. "Como atleta amador, eu reconheço o poder do impulso de querer tomar alguma coisa que prometa ajudar a melhorar seu desempenho sem ter de treinar com maior empenho. Porém, sempre me impressiono com a quantidade de produtos disponíveis e, como alguém que pratica medicina baseada em fatos, eu sempre fico um pouco com o pé atrás em relação aos benefícios fornecidos."

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