Vida saudável

Exercício diário é antídoto contra gula de fim de ano, mostra estudo

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Um pouquinho de exercício todos os dias pode ajudar a apagar ou a diminuir muitos dos efeitos maléficos, mesmo que você passe o resto do dia deitado no sofá se empanturrando de torta. Ou de panetone imagem: Getty Images

Gretchen Reynolds

The New York Times

A semana marcou o início da época do ano em que comemos demais e nos movimentamos de menos, acompanhada por uma piora na saúde e um aumento drástico nos arrependimentos. Porém, um estudo feito em boa hora sugere que um pouquinho de exercício todos os dias pode ajudar a apagar ou a diminuir muitos dos efeitos maléficos, mesmo que você passe o resto do dia deitado no sofá se empanturrando de torta.

Para realizar esse importante experimento, publicado na internet em outubro pela revista The Journal of Physiology, cientistas da Universidade de Bath, na Inglaterra, reuniram um grupo de 26 jovens saudáveis. Todos se exercitavam regularmente e nenhum deles era obeso. Avaliações básicas de seu estado de saúde, incluindo biópsias do tecido adiposo, confirmaram que todos tinham metabolismos e controles glicêmicos normais, sem sintomas iniciais de diabetes.

Os cientistas pediram em seguida que os voluntários colocassem em risco suas saúdes impecáveis passando bastante tempo sentados e comendo exageradamente.

O excedente de energia é gerado quando uma pessoa consome mais calorias do que é capaz de queimar. Se nada for feito, o excedente de energia contribui, conforme todos sabemos, para vários tipos de problemas de saúde, incluindo resistência à insulina – frequentemente o primeiro passo em direção ao diabetes – e outros problemas metabólicos.

Comer demais e fazer poucos exercícios são duas das causas do excedente de energia. Juntos, seus efeitos negativos são exacerbados, frequentemente em um período extremamente curto de tempo. Estudos iniciais revelaram que até mesmo alguns dias de pouca atividade e alimentação excessiva podem dar início a mudanças negativas na saúde de nossos corpos.

Alguns dos experimentos também revelaram que os exercícios impedem os efeitos negativos desse tipo de comportamento, em grande parte – acredita-se – por meio da redução do excedente de energia, pois ele queima parte dessas calorias excessivas. No entanto, poucos cientistas suspeitavam que os exercícios poderiam fazer ainda mais; eles podem ter efeitos fisiológicos que vão além de eliminar o excesso de energia.

Para testar essa possibilidade, seria necessário manter um excedente de energia, mesmo com exercícios. Portanto, foi isso que os pesquisadores da Universidade de Bath pediram para os voluntários fazerem.

O método foi muito simples. Eles dividiram aleatoriamente os voluntários em dois grupos, um dos quais deveria correr todos os dias a um ritmo moderadamente forte durante 45 minutos. Os outros não deveriam praticar qualquer exercício.

Os membros de ambos os grupos também foram informados de que deveriam deixar de se movimentar tanto, diminuindo o número de passos que davam para não mais de 10.000 e de 4.000 em média, conforme observado por pedômetros. Os exercícios que o outro grupo fazia nas esteiras não entravam para a contagem de passos. A não ser quando corriam, o grupo era tão inativo quanto o outro.

Foi solicitado que ambos os grupos comessem substancialmente mais. Os voluntários que não se exercitavam aumentaram o consumo diário de calorias em 50%, quando comparados aos que se exercitavam, ao passo que o grupo que se exercitava consumiu quase 75% mais calorias, levando-se em conta os 25% adicionais que substituíram a energia queimada durante o treinamento.

No geral, o excedente de energia diário de cada grupo era basicamente o mesmo.

O experimento continuou por sete dias. Então, ambos os grupos retornaram ao laboratório para realizar mais testes, incluindo novas análises de insulina e uma nova biópsia do tecido adiposo.

Os resultados foram impressionantes. Depois de apenas uma semana, os jovens que não se exercitaram exibiram uma queda significativa na qualidade do controle glicêmico do sangue e, de forma igualmente preocupante, as células adiposas que passaram pela biópsia pareciam ter desenvolvido uma cepa prejudicial. Essas células, examinadas por meio de técnicas sofisticadas de testes genéticos, estavam destacando uma série de genes que podem contribuir para mudanças metabólicas pouco saudáveis e suprimindo genes potencialmente importantes para um metabolismo que funcione corretamente.

Malefícios neutralizados

Todavia, os voluntários que se exercitaram uma vez ao dia, apesar de apresentarem excessos de energia similares, não exibiam os mesmos efeitos negativos. Seu controle glicêmico continuou a funcionar corretamente e as células adiposas exibiam muito menos alterações potencialmente indesejadas na expressão de genes, quando comparada às dos jovens sedentários.

"A prática de exercícios pareceu cancelar completamente muitas das mudanças induzidas pelo excesso de alimentação e pela queda nas atividades", afirmou Dylan Thompson, professor de ciências da saúde da Universidade de Bath, além de autor sênior do estudo. E nos casos em que os exercícios não eliminavam os efeitos negativos, acrescentou, eles os "aliviavam", deixando o grupo que se exercitou "em melhor condição que o que não se exercitou".

Do ponto de vista científico, essa descoberta sugere que os efeitos metabólicos da alimentação excessiva e da falta de atividade física são multifacetados, afirmou Thompson, com um excedente de energia que gera mudanças genéticas e outras mudanças fisiológicas. Entretanto, é impossível dizer o quanto os exercícios revertem esses efeitos com base nesse experimento, afirmou Thompson. As diferenças em como o metabolismo de cada grupo utilizou as gorduras e os carboidratos pode ter um papel, assim como a liberação de determinadas moléculas por parte dos músculos que se exercitaram, o que ocorreu apenas entre os jovens que correram.

Contudo, o que é mais interessante para o momento é a mensagem prática do estudo, que diz que "se você está passando por um momento de muito consumo e poucas atividades" – também conhecido como fim de ano – "um pouquinho de exercícios todos os dias pode ajudar a prevenir as mudanças negativas, ao menos no curto período", afirmou Thompson. Naturalmente, seu estudo envolveu homens jovens e em boa forma e um período relativamente prolongado de exercícios. No entanto, as descobertas provavelmente também se aplicam, segundo ele, a outros grupos, como adultos mais velhos, mulheres e talvez até mesmo com um nível mais moderado de exercícios.

Essa é uma possibilidade na qual vale a pena apostar, enquanto os pratos de torta se acumulam.

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