Boa forma

Criador da Zumba credita sucesso às coreografias simples e divertidas

Thamires Andrade

Do UOL, em São Paulo

Criada acidentalmente há 13 anos, a Zumba, aula que reúne diversos ritmos com coreografias divertidas e fáceis de seguir, tornou-se um sucesso mundial. A modalidade conta com 15 milhões de adeptos no mundo inteiro e está presente em 200 mil pontos espalhados por mais de 180 países. Seu inventor, o colombiano Beto Perez, comemora a boa fase e é categórico ao afirmar que a Zumba não sairá de moda.

Perez veio ao Brasil na semana passada para ensinar novas variações de Zumba aos instrutores brasileiros: Acqua Zumba (dança na água), Zumba Gold (para a Terceira Idade), Zumba Kids (para crianças), Zumba Sentao (aula para tonificar o corpo com a ajuda da cadeira) e Zumba Step (com o uso do acessório).

Ainda que a empresa não divulgue o faturamento com os cursos e treinamentos, o módulo básico no Brasil para se tornar um professor de Zumba não sai por menos de R$ 450 reais. A marca também aposta em roupas, calçados e pulseiras estilizadas para os instrutores e adeptos da modalidade. Uma calça cargo (larga e com tecido confortável) custa R$ 140 reais, enquanto o preço médio de um tênis é R$ 300 reais.

Nesta entrevista ao UOL Dieta e Boa Forma, Perez conta como a Zumba foi desenvolvida e descreve as novas variações que chegam ao país. Além disso, revela algumas curiosidades, como o hábito de participar de aulas nos países que visita sem se identificar, até ser flagrado pelos instrutores.

UOL - Como surgiu a ideia de criar a Zumba?

Beto Perez – A Zumba nasceu por acidente, quando eu tinha uns 16, 17 anos e dava aulas de aeróbico e de step. Certo dia esqueci minhas músicas de aeróbica em casa e a única fita que eu tinha na mochila era de músicas que havia gravado das rádios. Expliquei para os alunos que íamos fazer uma aula diferente e comecei a improvisar por uma hora. Ao fim da aula, as pessoas estavam felizes, sorridentes e suando, e o mais importante era que eu estava muito contente. Uma hora de aula passou como se fossem 20 minutos. Nesse momento eu pensei: “É isto que eu quero fazer pro resto da minha vida: dançar e ser pago por isso”.

UOL – Quais foram os passos seguintes para aperfeiçoar a modalidade?

Perez – Terminei de estudar dança na minha cidade, Cáli, na Colômbia, e depois estudei fitness para combinar o mundo da dança com o aeróbico. Creio que fui pioneiro nisso. A primeira etapa do processo de criação das aulas de Zumba começou no meu país. Eu dava aulas que na época eram chamadas de rumba, que significa “Let’s party” ("Vamos festejar", em tradução livre). Lá fiz escola, fiquei famoso na cidade e me mudei para Bogotá, capital da Colômbia, para dar mais aulas e ser coreógrafo de alguns artistas, como a Shakira.

UOL – O que aconteceu depois?

Perez – Eu me mudei para Miami, nos Estados Unidos, em 2001. Fui com o sonho americano e cheguei sem dinheiro, dormi noites na rua até uma academia me dar oportunidade de dar aulas. As classes começaram a ficar cheias e eu comecei a ficar famoso na cidade. E foi nesse período que eu conheci meus sócios Alberto Perlman e Alberto Aghion, pois as mães deles tinham aulas comigo. A gente se reuniu e viu potencial em fazer algo, mas ainda não sabíamos o quê, exatamente.

UOL – O que vocês resolveram fazer para popularizar a dança?

Perez – Começamos a gravar vídeos com o apoio de uma produtora e criar DVDs de Zumba. Aos poucos, muitos professores começaram a escrever para a gente dizendo que tinham vontade de ensinar a modalidade. Então criamos um departamento de educação. Com o crescimento do número de instrutores, começaram a chegar outras demandas e criamos mais coisas. As pessoas viam como eu me vestia e queriam roupas parecidas, o que fez com a gente lançasse a nossa linha de roupas. A mesma coisa aconteceu com os games e as novas aulas de Zumba para crianças, idosos, na água, com a cadeira e para tonificar o corpo.  A Zumba virou um "lifestyle". Hoje as pessoas tatuam o nome e me veem como um idealizador de tudo isso. Nunca esperei, mas aconteceu...

UOL – A que você credita o sucesso da Zumba?

Perez – Creio que o êxito foi ocuparmos um espaço que não estava preenchido. O mundo das aulas fitness de grupo ficou 15 anos sem nenhum lançamento ou modalidade nova. E ai apareceu a Zumba, que é uma aula que gera diversão e tem coreografias simples, que qualquer um pode fazer. Mas o sucesso também se deu muito por eu estar no momento ideal, na cidade certa e com as pessoas certas. As estrelas se alinharam.

UOL – Durante a criação da Zumba, foi realizada alguma pesquisa ou você era o responsável por testar as coreografias?

Perez – Quando fui patentear a Zumba nos Estados Unidos precisei passar por alguns testes, pois lá você não pode simplesmente inventar, é preciso comprovar. Conectaram vários sensores e cabos no meu corpo enquanto eu dançava e depois mostravam gráficos. As curvas da aula são o que garante a queima calórica. É por isso que sempre varia entre canção rápida e outra mais lenta, um samba e depois um "chacha", um rock seguido de um merengue. Essa variação aumenta a queima calórica e deixa a aula mais divertida, como se o aluno estivesse em uma discoteca ou no Carnaval.

UOL – Você veio para o Brasil para fazer o treinamento das novas modalidades de Zumba que chegam ao país. Quais são elas?

Perez – As novas modalidades que estamos lançando aqui são Zumba Gold, Kids, Sentao, Step e Acqua Zumba. Cada um é voltada para um objetivo diferente. Zumba Gold é um programa voltado para as pessoas mais idosas. A música é um pouco mais lenta, tipo uma bossa nova, mas é uma aula que não trata os mais velhos como doentes. A coreografia segue a mesma linha da aula de Zumba tradicional, apenas evitando hiperextensões. Já a Acqua Zumba são os movimentos de dança adaptados à agua. É um programa bem difícil, ótimo para quem não pode correr e fazer atividades com impacto, e também ajuda a trabalhar a tonificação dos músculos. O Zumba Step é a ressureição do step, que acabou perdendo força depois de tantas coreografias complicadas. A aula ajuda a tonificar os glúteos e as pernas com o aparelho, o que dá um certo grau de dificuldade, mas sem deixar de ser divertida. A Zumba Sentao é realizada com uma cadeira e é uma aula que ajuda a trabalhar tríceps e abdominais, além de melhorar a coordenação durante a dança. E também tem a Zumba Kids, que é uma aula para as crianças com coreografias mais simples e músicas pop. A ideia é criar o hábito do esporte e das músicas nas crianças, que cada vez passam mais tempo em frente a televisão e do computador.

UOL – Tem alguma modalidade nova da Zumba que ainda não chegou ao Brasil?

Perez – Sim. Tem o Zumba Toning, que é uma aula feita com maracas, que fazem barulho para trabalhar os membros superiores, e o Zumbini, para as mães fazerem com os bebês. Esse último é muito delicado, pois é difícil fazer músicas para essa faixa etária. As mães fazem um círculo e deixam os bebês no meio; elas dançam e eles acompanham, correm e brincam entre si. É uma modalidade muito linda, pois aumenta a conexão entre as mães e os bebês.

UOL – Qual a principal diferença das novas modalidades para a Zumba tradicional, se é que posso chamar assim?

Perez – Zumba não tem gênero, ela é a matriz, e a partir daí surgiram as ramificações - uma modalidade preparada para crianças, outra para idosos, outra para quem gosta de atividade na água e para as que têm como foco tonificar o corpo. Criamos até um programa para as mães fazerem as aulas com os bebês, portanto a Zumba alcança toda faixa etária.  Mas todas as aulas, independente do programa, têm como foco sempre a dança, coreografias fáceis e muita diversão. Acho que nosso papel é diversificar o mercado e ter um bom marketing no mundo fitness, pois tudo já está inventado, só estamos tratando de reinventar e dar mais opções para as pessoas.

UOL – Além do emagrecimento, quais são as outras vantagens das aulas de Zumba?

Perez – Para mim é mais importante que as pessoas se divirtam durante a aula. Acho que ser feliz é uma das consequências de quem dança Zumba. Não inventei a modalidade para que as pessoas emagreçam. Quero que elas sorriam e fiquem bem, pois, assim, acionam as endorfinas e aceleram metabolismo. A única vantagem do emagrecimento estar atrelado ao programa é que uma das consequência de baixar o peso é aumentar a autoestima e sair de um possível quadro de depressão. O intercâmbio cultural das aulas também é uma das consequências, pois as pessoas escutam músicas do mundo inteiro. É como uma aula que viaja o mundo em uma hora.

UOL – E como que funciona o processo de seleção das músicas tocadas nas aulas de Zumba?

Perez – Sou encarregado da seleção das músicas, mas também oriento os instrutores a escolher suas próprias músicas. Zumba não é um programa que eles precisam fazer como eu. Não estou de acordo com isso, pois não somos máquinas. Eu digo às pessoas: "Isso é o que eu faço; dou as ferramentas, mas quero que você faça do seu jeito". Então, por exemplo, um instrutor do Brasil colocará músicas de Claudia Leitte e Ivete Sangalo, mas no Japão elas não são famosas. Então os instrutores japoneses colocam as músicas famosas lá. Claro, sempre seguindo a mesma filosofia e sequência. A base da aula é latina, portanto 60 a 70% das músicas são desse tipo, por haver muita variedade, como salsa, merengue, samba, reggaeton, cumbia. O restante fica a cargo do que o instrutor deseja colocar na aula.

UOL – A Zumba tem parceiras com vários cantores, como que funciona esse processo?

Perez – Sou encarregado do departamento de música e tudo passa pelo meu filtro. Cerca de 40% das músicas dos DVDs e CDs são originais da Zumba. Tenho 12 produtores que criam essas canções sob minha direção. As outras músicas escolhidas são as mais famosas ou as que são realizadas por meio de parceiras. Como a que temos com Claudia Leitte, Pittbull, Wicleff, Victoria Justice e Sean Paul. Eles gravam canções para a gente que vão para o DVD que é dado aos instrutores de mais de 180 países. Ou seja, essas músicas não passam por rádio ou televisão e, ainda assim, tem um alcance enorme. A Zumba virou uma plataforma musical para os artistas. Eu estava no Japão e eles estavam dançando Largadinho, da Claudia. Isso é impressionante para os artistas.

UOL – Como foi para você ver que a Zumba virou um fenômeno mundial? Qual foi a sua reação?

Perez – Não fiquei surpreso. Foi o que eu sempre quis na minha vida, meu sonho. Não me surpreende. Me foquei desde jovem  a conquistar o mundo, tipo aquele desenho Pink e Cérebro (risos). Não quero soar como egocêntrico por causa do meu sonho, mas quero que todo mundo passe bem e sorria, como eu faço numa aula. O que me surpreende são as consequências no dia a dia das pessoas, as histórias de inspiração. Isso, sim, me surpreende. Tem gente que me vê e chora. Pessoas que emagreceram, outras que estavam doentes e até gente que estava a ponto de considerar o suicídio e saiu da depressão depois que descobriu a Zumba. Tem histórias também de pessoas que estavam em dificuldades financeiras e melhoraram depois que começaram a dar aulas. Mas ter parceria com artistas, dar aula para 8.000 pessoas e viajar pelo mundo não me surpreende porque sempre foi algo que eu queria e com que sonhava.

UOL – Muita gente questiona se um dia a Zumba sairá de moda. Qual a sua opinião a respeito?

Perez – As pessoas perguntam o que vai acontecer quando a Zumba sair de moda, mas eu garanto que não sairá. Me encarrego pessoalmente de que não passe, não pode e nem deve sair das academias. No início, as pessoas pensavam que a Zumba era um fenômeno que duraria dois anos, mas já completamos 13 anos e só crescemos. Foram lançadas novas modalidades e, atualmente, nós temos 15 milhões de adeptos, em 200 mil locais, em mais de 180 países.

UOL – Como que funcionam os treinamentos para os instrutores de Zumba?

Perez – Atualmente eu quase não faço treinamentos. Depois de três anos sem realizar nenhum, vim fazer esse no Brasil e estou muito ansioso. Existem vários tipos, mas o primeiro é um básico, com introdução à Zumba. Os outros treinamentos ensinam mais ritmos e mais informações para melhorar as aulas. Para ser sincero, ninguém aprende Zumba em um dia, durante um treinamento. Por isso depois nós damos ferramentas e educação continuada com DVDs, músicas e mais informações. Anualmente fazemos uma convenção só para 8.000 instrutores e ensinamos a fórmula Zumba, que é como fazer coreografias fáceis, como ser um bom instrutor, pois essa é a nossa missão.

UOL – Durante as viagens internacionais, você costuma fazer aulas de Zumba?

Perez – Tenho o costume de visitar uma aula de Zumba de surpresa. Os instrutores ficam muito surpresos quando me reconhecem. Eu gosto de fazer isso, pois tenho curiosidade em saber como que eles dão aula. Eu gosto de participar como aluno, pois eu necessito aprender mais coisas também. Sempre entro como um aluno normal, coloco um boné para disfarçar e também trato de não dançar bem. É engraçado que até os alunos me ajudam quando eu faço um passo errado propositalmente. Uma vez que fiz isso numa aula de Nova York a professora soltou um grito. Na Espanha houve um episódio engraçado, porque a recepcionista da academia não me deixou entrar, pois eu não era aluno.

UOL – E como é o processo de criação da linha de roupas e tênis?

Perez – A linha cresceu bastante, portanto desenvolvemos um departamento de desenho que sempre faz as apresentações das coleções. Eu também sempre que viajo busco tendências e criamos tendências com a nossa equipe de estilistas. A ideia é fazer uma roupa que todo mundo possa usar, sem nenhum tipo de discriminação. Seria ótimo se todos tivessem os corpos das modelos, mas isso não é real. A maioria da população não é assim. Portanto optamos por usar muitas calças cargos, para ficarem mais soltas, mesmo. Também criamos muita coisa com o logo da Zumba, que é algo que as pessoas gostam e sempre pedem.

UOL – Vocês têm planos de lançar mais modalidades, além das novas que estão para chegar ao Brasil?

Perez - Sempre, sempre, gosto de inventar coisas novas e me criar problemas (risos). Mas eu não posso contar, só posso afirmar que tem coisas novas para vir e não são poucas.

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