Virada Sustentável

Sensação de conquista é motivação para quem se arrisca em esportes radicais

Willie Davis/The New York Times
Joan Geraldo durante a prática de pump biking no parque de bicicletas do Brooklyn, em Nova York imagem: Willie Davis/The New York Times

Jane E. Brody

Do The New York Times

Andar de mountain bike, esquiar com helicóptero, surfar no rio, fazer BASE jumping, andar de caiaque em cachoeiras, escalar geleiras e outros esportes radicais que levam os participantes a correr risco de se machucar gravemente ou mesmo de morrer se tornam mais populares a cada ano.

Eu sei o que você está pensando e já adianto que também pensava assim: por que alguém se envolveria em atividades tão perigosas a ponto de ser obrigado a assinar documentos que absolvem os organizadores de todas as responsabilidades no caso de uma eventualidade catastrófica? Um escorregão, uma pequena falta de atenção e você já era.

Em geral, o público costuma crer que "a participação em esportes radicais é pouco saudável, uma necessidade patológica de incerteza, emoções fortes e excitação", afirmou Eric Brymer, especialista em exercícios, em 2010, quando estava na Universidade de Tecnologia de Queensland.

Mas será que tudo se resume à busca por um pico de adrenalina? E será que esses esportes são tão perigosos para os participantes dedicados quanto imaginamos ao ver na TV ou em vídeos no YouTube?

Depois de assistir às imagens assustadoras do ginasta olímpico francês Samir Ait Said, que quebrou a perna no Rio ao terminar uma sequência, podemos imaginar se é aconselhável praticar até mesmo esportes mais "mansos", como a ginástica olímpica.

A bravura dos atletas olímpicos e a morte da esquiadora sueca, Matilda Rapaport, após uma avalanche ocorrida em julho deste ano enquanto era filmada nos Andes, me levaram a analisar mais de perto porque tantas pessoas começam a praticar esses esportes, além de avaliar se são realmente tão perigosos e até que ponto esses perigos podem ser minimizados.

Brett Wilhelm/The New York Times
Chance Leingang pratica esportes no Valmont Bike Park, em Boulder imagem: Brett Wilhelm/The New York Times

Não existem estatísticas confiáveis para informar um potencial participante sobre os riscos de qualquer esporte, mesmo atividades corriqueiras realizadas por crianças em idade escolar, atletas amadores e profissionais, como futebol, skate, basquete e futebol. Embora acidentes graves e mortes sejam bastante divulgados, não existem dados sobre a probabilidade de que ocorram.

Além disso, Jamie F. Burr da Universidade da Prince Edward Island e seus colegas escreveram na Canadian Family Physician que a percepção de risco do público é distorcida: "Correr riscos é algo intrinsecamente humano e pode ser um fator muito importante no desenvolvimento pessoal. Lesões ocorridas durante a prática de atividades físicas mais tradicionais são vistas como “acidentes infelizes", ao passo que lesões que resultam da participação em esportes de risco são vistas como ‘previsíveis e ousadas”.

Em segundo lugar, as motivações oferecidas por praticantes de esportes radicais para explicar porque estão tão dispostos a correr riscos geralmente não são as que esperamos. Os esportes de aventura não são "uma válvula de escape para pessoas ‘malucas’ com uma relação pouco saudável com o medo, que são patológicas em sua busca pelo risco ou que vivem um desejo latente de morrer", afirmou Brymer e seu colega da Universidade de Queensland, Robert Schweitzer.

Sim, sobreviver depois da primeira ou segunda tentativa pode ser de tirar o fôlego e o barato emocional (que, na verdade, tem origem na dopamina liberada no cérebro, não da adrenalina) é o que leva as pessoas a continuar a praticar esses esportes.

Um estudo realizado por John H. Kerr, cinesiologista da Universidade da Columbia Britânica, e por Susan Houge Mackenzie, especialista em movimentos que na época trabalhava na Universidade de Idaho, citaram uma surfista de rios de 26 anos de idade identificada apenas como Jody que disse: "A gente fica viciado". Em seguida, a atleta acrescentou: "Não se trata apenas da adrenalina. É a sensação de conquista. Você se predispõe a fazer algo, vai lá e faz - tem a ver com tudo que leva até aquilo, as habilidades que você possui, o trabalho duro ao qual se dedicou".

Também está errado dizer que os praticantes de esportes radicais não sintam medo. "O medo é um elemento essencial para a sobrevivência dos atletas", afirmam Brymer e Schweitzer. Em entrevistas com atletas praticantes de esportes radicais, eles e outros pesquisadores descobriram que os atletas consideram o medo "uma experiência saudável e produtiva", o que os leva a adotar as precauções necessárias para aumentar as chances de sobreviver sem ferimentos.

Bess Greenberg/The New York Times
Mario Richard faz base jumping em Moab, no estado norte-americano de Utah imagem: Bess Greenberg/The New York Times

Conforme um alpinista solo sem cordas afirmou aos pesquisadores, "Se eu entrar em pânico, estou perdido, morto". Ele aprendeu a evitar o pânico e, ao invés disso, fica relaxado e concentrado, mantendo a clareza de ideias e a capacidade de tomar decisões, para poder se proteger.

Um base-jumper de 30 anos identificado como "TB" afirmou a Brymer que também é importante "aprender o máximo possível sobre o esporte; aprender sobre condições climáticas, sobre o vento, sobre como os ventos reagem dentro e em torno dos edifícios, estruturas e desfiladeiros, para que você saiba o que pode e o que não pode fazer ao saltar desses lugares".

Por meio de entrevistas com muitos praticantes regulares de exportes radicais, os pesquisadores revelaram que o barato emocional se tornava cada vez menos relevante ao longo do tempo. À medida que os praticantes continuam a participar dessas atividades, outros motivos e supostos benefícios à saúde e ao bem estar se tornam mais importantes.

Kerr e Susan relatam que os praticantes se sentem mais fortes, saudáveis e em boa forma; conectados com a natureza e com o ambiente que os cerca; mais autoconfiantes e mais autossuficientes.

Superar o medo é um objetivo praticamente universal para todos os praticantes, de acordo com os pesquisadores australianos. Uma jovem base-jumper entrevistada por eles afirmou que o medo é um caminho para a transcendência, afirmando que seu esporte é "a metáfora máxima de quem deseja mergulhar de cabeça na vida, ao invés de ficar na beira do abismo tremendo de medo".

Os praticantes mais devotados de esportes radicais acreditam que a segurança é sua maior prioridade. Eles aprendem as habilidades necessárias para seus esportes, treinam até se tornarem suficientemente especializados e têm condições de reconhecer seu próprio nível de habilidade, afirmou a Dra. Vani Sabesan, cirurgiã ortopédica na Faculdade de Medicina da Universidade de Western Michigan.

Leah Nash/The New York Times
Passeio de mountain bikers na trilha de Greenhorn Gulch em Ketchum, no estado norte-americano de Idaho imagem: Leah Nash/The New York Times

"Alguma pessoa com conhecimentos de medicina deve estar presente para garantir que você esteja utilizando os equipamentos de proteção corretos e para resgatá-lo caso algo saia de controle", afirmou.

Susan McGowen, treinadora de atletismo da Faculdade de Educação da Universidade do Novo México, que atuou como supervisora durante mais de dez anos no X-Games, afirmou: "Só porque você assistiu a isso na TV ou no YouTube, não quer dizer que qualquer pessoa é capaz de tentar imitar os feitos dos atletas radicais. São necessários anos e anos de prática e progresso para chegar ao nível deles".

Susan enfatiza a importância da presença de um treinador em todas as atividades organizadas - escolas e ligas juvenis, bem como jogos amadores e profissionais - de forma a aumentar a segurança por meio da nutrição apropriada, de equipamentos em bom estado de manutenção e de um acompanhamento especializado, sem falar nos tratamentos mais apropriados, caso um atleta se machuque.

Esse tipo de orientação é especialmente importante para quem planeja praticar um esporte radical. "As pessoas não são capazes de avaliar o risco de forma apropriada. Elas não entendem os termos contidos nos contratos que assinam abrindo mão de quaisquer direitos caso algo dê errado. Os organizadores de eventos não precisam descrever todos os perigos envolvidos para que o contrato seja válido", afirmou David O. Horton, professor de Direito da Universidade da Califórnia, em Davis.

Seu conselho: "Tenha o máximo de clareza sobre tudo que pode dar errado - faça perguntas, pesquise os riscos potenciais e não tente fazer algo que você seja incapaz ou não tenha o equipamento apropriado para fazer".

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