Beleza

As mulheres que popularizaram mundialmente a 'Brazilian wax', a depilação íntima brasileira

BBC
Enquanto alguns querem exterminar pelos pubianos, outros veem neles arma de "resistência" imagem: BBC

Vibeke Venema BBC World Service

A depilação com cera dos pelos pubianos é uma prática cada vez mais comum no mundo. Curiosamente, um estilo específico de depilação acabou conhecido como "Brazilian Wax" (depilação brasileira, em tradução livre do inglês) --às vezes abreviado para simplesmente "Brazilian".

Mas como essa moda começou?

"A Brazilian bikini wax nasceu aqui em Nova York, não no Brasil", explicou à BBC Jonice Padilha, do salão J Sisters, em Manhattan.

O estabelecimento, reza a lenda, teria sido pioneiro, no início da década de 1990, na popularização desse tipo de depilação no exterior.

O estilo envolve a remoção de todos os pelos da vagina e do ânus. Para efeito decorativo, uma certa quantidade de pelo é deixada no púbis --a região triangular abaixo do abdômen-- em formatos opcionais: um triângulo, uma faixa estreita (a chamada pista de aterrissagem) ou até um coração, falou Jonice.

Ela é a mais nova de sete irmãs cujos nomes começam com a letra "J". As outras são Jocely, Janea, Joyce, Juracy, Jussara e Judseia. Acabaram conhecidas como J Sisters (Irmãs J) porque os americanos não conseguiam pronunciar seus nomes.

Hoje, o salão é popular entre ricos e famosos, e as irmãs dizem ganhar até US$ 6 milhões (R$ 19,2 milhões) por ano, com depilação e tratamentos para cabelos e unhas.

A trajetória das irmãs será contada no livro "Wax and the City", da escritora brasileira Laura Malin, ainda sem data certa para publicação. Também há planos de se levar a história para as telas de cinema..

"É uma história inspiradora, de mulheres que venceram por conta própria, que vieram do nada, imigrantes ilegais que alcançaram o sucesso nos Estados Unidos", conta Malin.

De Vitória para Nova York

As irmãs nasceram na capixaba Vitória em uma família grande --eram sete irmãs e sete irmãos. O pai, tradicional, não deixava as filhas saírem sozinhas e tinha medo de que trabalhassem para outras pessoas, contou Jocely.

Divulgação
As irmãs nasceram em Vitória e começaram com tratamento de unhas imagem: Divulgação


Um dia, no entanto, o negócio do pai faliu. Para complementar a renda familiar, as irmãs abriram um pequeno salão de beleza nos fundos da casa. Logo tornaram-se a principal fonte de renda da família e eram proprietárias de três salões na cidade.

Com uma criação tão tradicional, o futuro das irmãs parecia estar traçado. Sair de casa só depois do casamento. Mas Jocely, a quarta irmã, sonhava conhecer o mundo. Ela economizou dinheiro e, em 1982, foi visitar uma antiga vizinha que havia se mudado para Nova York.

O plano era ficar um mês, mas Jocely gastou todos os seus dólares já nos primeiros dias. Para não ter de voltar para casa antes da hora, decidiu fazer um bico como manicure no salão de uma portuguesa.

Padrinho influente

Naquela época, unhas falsas estavam em voga. Feitas de acrílico, tinham de ser removidas semanalmente, deixando as unhas dos clientes em péssimo estado.

Jocely não falava inglês, explicou Malin, mas, aos poucos, tornou-se uma especialista na restauração das unhas danificadas. Sua reputação cresceu e ela acabou atraindo um freguês poderoso: o magnata comerciante de armas Adnan Khashoggi.

Khashoggi contratava Jocely durante um dia inteiro por semana, pagando US$ 100 por hora, para que ela cuidasse de suas unhas entre uma reunião e outra.

Por intermédio dele, Jocely conheceu pessoas influentes, como Brooke Shields, Rod Stewart e editores de revistas de moda como "Elle" e "Marie Claire".

E agora ganhava bem. Uma a uma, as irmãs vieram trabalhar com ela.

Em 1987, as irmãs abriram seu primeiro salão de manicure. Na época, a localização, na 57th St, entre a 5th e a 6th Avenue, não oferecia muitos atrativos. E a atividade tão pouco.

No entanto, não havia exigência de licença especial para o trabalho de manicure, então, esse era um bom jeito de começar um negócio, explicou Jonice.

Poucos anos depois, as capixabas começaram a oferecer um estilo diferente --e até então sem nome-- de depilação com cera. Em vez de retirar apenas os pelos da virilha, a nova técnica removia tudo, deixando apenas um pouco de pelo, como decoração, na região frontal.

Mais tarde batizada de "Brazilian Wax", a técnica tinha surgido a partir de uma ideia de uma das irmãs, Janea.

"É uma história engraçada", adiantou Malin.

Fabulosa

Na década de 1970, em férias na Bahia, Janea tinha ficado chocada ao ver pelos pubianos saindo pela parte de trás do biquini de uma jovem na praia.

"Quer dizer que temos pelos ali?", pensou Janea.

Depois de ter a confirmação, em casa, em frente ao espelho, ela foi a um salão e pediu à depiladora que retirasse os pelos indesejados do seu traseiro. "Você está louca? Não vou tocar você aí", respondeu a esteticista.

Mas Janea estava determinada. Munida de cera quente e um espelho, ela decidiu se depilar sozinha. Depois de algumas tentativas --um tanto quanto dolorosas-- conseguiu alcançar seu objetivo.

"Ela saiu do quarto se sentindo fabulosa", disse Malin.

O próximo passo foi convencer as irmãs a fazerem o mesmo. A reação, disse Malin, foi entusiástica.

"Não fico com vergonha quando estou na cama com um homem, não fico com vergonha do médico, sinto-me mais limpa!", diziam as irmãs.

Grupos feministas questionariam a associação entre pelo pubiano, vergonha e sujeira. A grande maioria dos homens não se depila nem por isso eles se sentem "sujos" ou envergonhados, argumentariam.

Em e-mail para a BBC Brasil, a escritora Laura Malin admite que noções como essas são resultado de uma cultura machista, mas faz uma ressalva:

"Vale lembrar que as sete J. Sisters são filhas das décadas (de 19) 40, 50 e 60, do interior do Brasil. E elas floresceram nos anos 80. Seria injusto vê-las com olhos de 30 anos depois."

Questionamentos à parte, quando a depilação "brasileira" foi apresentada pelas capixabas às nova-iorquinas, a moda pegou rápido.

Patente em disputa

"Nosso único erro foi não batizarmos a técnica de J Sisters Wax", disse Jonice. 

Divulgação
Jonice, Jocely, Janea, Joyce, Juracy, Jussara e Judseia são as proprietárias do salão em NY imagem: Divulgação
Logo, apareceram rivais. Com a explosão da pornografia on-line na década de 1990, era cada vez mais comum ver-se atores com pouco ou nenhum pelo pubiano.

Em revistas como "Playboy" e "Penthouse", modelos também apareciam quase totalmente depiladas.

Segundo Jonice, representantes da "Playboy" chegaram a telefonar para o salão, reivindicando a autoria da invenção.

"(A invenção) é nossa, fazemos isso no nosso site", teriam dito os representantes da marca.

Como defesa, Jonice teria dito que aquele tipo de depilação era comum no Brasil. "Respondi que estávamos apenas apresentando a nossa cultura (aos americanos)", contou.

"Por isso, no mundo inteiro (o estilo) é conhecido como Brazilian. Disse isso para que me deixassem em paz, mas começou aqui, não lá", acrescentou.

Uma coisa é certa: a popularização e a internacionalização do estilo com certeza passa pelo salão das J Sisters.

E para isso, as irmãs contaram com a ajuda das editoras das influentes revistas de moda, clientes de longa data. E de clientes famosas.

Um exemplo: as J Sisters foram consultadas pelos produtores de seriados de TV como "Gossip Girls" e "Sex and the City".

"Sarah Jessica Parker (atriz principal do seriado 'Sex and the City') está sempre por aqui", disse Jocely.

Estudos

Aliás, desde que o seriado da produtora HBO "Sex and the City" abordou o assunto, o que as mulheres fazem com seus pelos pubianos --aparar, tirar com lâmina de barbear, puxar com pinça, depilar com cera ou deixar tudo crescer-- tornou-se tema de muita conversa. E também de estudos científicos.

No início do ano passado, em artigo na revista "JAMA Dermatology", publicada pela Associação Médica Americana de Dermatologia, especialistas disseram que 84% das mulheres americanas que participaram de uma pesquisa sobre o assunto disseram ter removido parte de seus pelos pubianos.

Dessas, 62% disseram ter removido todos os pelos daquela região.

Os resultados também revelaram uma maior propensão, entre mulheres mais jovens, a remover pelos pubianos do que entre mulheres com mais de 40 anos.

Outro estudo, publicado pela revista de saúde sexual "Journal of Sexual Medicine", vinculou o fenômeno da depilação pubiana à disponibilidade de pornografia.

Um pouco mais preocupante, um terceiro estudo relacionou o hábito de depilar a um aumento em índices de doenças transmissíveis sexualmente.

Durante as Olimpíadas no Rio, ciclistas britânicos foram proibidos de se depilar porque os pelos protegem a pele contra assaduras.

E, finalmente, a bíblia da alta sociedade britânica --a "Tatler Magazine"-- anunciou recentemente o retorno do visual "natural".

Ou seja, ao que parece, a depilação Brazilian pode estar saindo da moda.

Não que as J Sisters estejam muito preocupadas. Sempre inovando, as capixabas acabam de reabrir seu salão em um endereço novo.

"Elas foram muito corajosas ao deixar uma cidade pequena no Brasil e seguirem para Nova York sem dinheiro e sem falar inglês", disse Karen Castanho, produtora que trabalha em uma "dramédia" baseada na história das irmãs. "Elas têm tanta energia, nunca vi algo assim."

As filmagens para o longa "J Sisters" (o título é provisório) estão previstas para 2018.

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