Beleza

Vendedores Hinode, que não perdem venda nem no IML, curtem festão em lancha

Por Marcos Candido

Do UOL, em São Paulo

29/11/2017 04h00

Certa vez, a ex-auxiliar administrativa Kelly Ferreira, 26, saiu para vender cosméticos na madrugada de São Paulo. “Dizem que as prostitutas gostam dos nossos perfumes, então fomos até uma região da cidade para ver se elas compravam, mesmo”, explica. Mas, quando chegou lá, a equipe recebeu ordem de parada. “A polícia parou nosso carro para ver o que estávamos vendendo”. Kelly não teve dúvida. Abriu sua bolsa, chamou um dos polícias e perguntou: "Você já conhece um de nossos produtos?"

Há um ano e nove meses, Kelly é vendedora da Hinode. A empresa existe há quase três décadas, mas desde 2012 o grupo tem arrematado cada vez mais pessoas interessadas em ganhar dinheiro com a venda de shampoo, perfume, desodorante, cremes, esfoliantes, shakes para emagrecer e até gel erótico --que vão de R$ 11 a R$ 200. Segundo a empresa, há 750 mil vendedores cadastrados na Hinode e receita na casa dos R$ 2 bilhões.

O que fez a receita do negócio decolar foi a adesão ao marketing multinível, com foco nas classes C e D. Além das vendas, para ganhar mais dinheiro, também é preciso atrair novos revendedores. Esses novos revendedores compram os produtos da marca por metade do preço, e os revendem.

Ao conquistar um novo vendedor, o recrutador recebe uma porcentagem em cima das vendas do novo recruta, valor que é pago pela Hinode. Quanto maior a equipe de vendedores ao seu redor, maiores os ganhos. Para começar, é preciso fazer um investimento inicial de R$ 99 em um kit inicial, que logo pode ser “ativado” por pacotes de produtos que vão de R$ 300 a R$ 2.200. É o mesmo tipo de distribuição adotada por marcas como Herbalife. 

Por ter batido as metas de vendas de seu grupo, na última sexta (24), Kelly e mais 19 pessoas celebraram o feito com o aluguel de duas lanchas, por R$ 2.700, de uma empresa que presta o serviço na represa do Guarapiranga, zona sul de São Paulo. Claro, com churrasco, maionese e pranchas de stand up paddle.

Métodos de venda despertam curiosidade

A líder do grupo, Carina Nogueira, 26, sabe na ponta da língua as bonificações, planos, hierarquias e propósitos Hinode. “Nossa missão é melhorar a vida das pessoas”, explica. Ela começou a vender há três anos e meio --e convenceu parentes e amigos a aderir. 

“Quando disse que deixaria de ser analista contábil para vender perfume, sofri muito bullying. As pessoas comentavam: ‘como assim?’ A gente passa por esse preconceito”, diz. Ela relata já ter ido a dois cruzeiros, oferecidos pela Hinode, como prêmio pelas vendas de sua equipe.

Assim como milhares de consultores, ela frequenta convenções da marca, que reúnem centenas de pessoas, para discutir como “subir” no ranking, ganhar mais com vendas e atrair novos vendedores. Um dos métodos é mostrar como se tornar vendedor Hinode pode render uma grana extra, mais tempo livre e se livrar do chefe. Só neste fim de semana, um congresso desse tipo reuniu 40 mil pessoas em São Paulo.

Carine Wallauer/UOL
A líder Carina no passeio de lancha com a Hinode na represa Guarapiranga Imagem: Carine Wallauer/UOL

Em seu perfil nas redes sociais, Carina publica fotos em viagens, ao lado de jatinhos e BMWs. Ela não é a única orgulhosa: é comum circularem imagens de “antes e depois” do Hinode pelo WhatsApp, e o “depois” é representado por um carro mais luxuoso ou uma foto em um destino paradisíaco. Dentro da hierarquia de revendedores, Carina atingiu o nível “Diamante”, o que representa uma renda mensal de R$ 9 mil, em média, segundo ela.

No começo, ela já se aproveitou de momentos inesperados, como uma parada rápida em um lava rápido, para tentar vender produtos da marca a frentistas. “Hoje eu vejo e… Nunca achei que iria ficar perto de lancha, jato…”, conta. Foi ela a responsável por organizar o passeio nas lanchas às vésperas do fim de semana. Segundo a empresa de locação, não é o único grupo da Hinode a contratar o serviço. 

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Empresa já processou quem brincou com a marca na rede

Nas redes sociais, há relatos sobre os métodos de vendas por vezes curiosos adotados pelos vendedores. “O match do Tinder puxou conversa por dias, mas era só para tentar me tornar vendedora de Hinode”, disse a usuária @ingridhannahs, no Twitter.

Zilda Nogueira, 43, dz ter saído da área de finanças após 20 anos de carreira. Desde 2014, vende Hinode. “Meu filho sofreu um acidente de trânsito, em 2015, e tivemos que fazer corpo de delito no IML”, relembra. “Calma! Ele não morreu… Mas o legista e os enfermeiros elogiaram meu perfume e perguntei se eles queriam conhecer a marca”. Segundo ela, os operários são clientes até hoje. A bordo da lancha, Zilda filma vídeos de motivação a outros vendedores Hinode para publicar nas redes. “Antes eu não me considerava boa, mas agora peguei o jeito na coisa”, avalia.

Carine Wallauer/UOL
Churrascão na lancha Imagem: Carine Wallauer/UOL

O canal Desconfinados, com 1,8 milhão de inscritos no YouTube, publicou em abril um vídeo chamado “testemunha de Hinode”, em uma comparação entre franqueados Hinode e membros da denominação cristã Testemunha de Jeová. Na esquete, duas vendedoras, que vão de porta em porta, se gabam dos ganhos com o negócio e perguntam ao possível cliente: “Você aceita Hinode como seu único salvador?”.

Após a publicação, o dono do canal, Jonathan Nemer, diz ter recebido uma notificação extrajudicial da empresa que, segundo o youtuber, pedia a retirada do vídeo. Posteriormente, Jonathan informou aos seguidores de que a Hinode decidiu por não prosseguir com a ação. Também há relatos no Twitter de notificações extrajudiciais enviadas a quem fez comentários negativos contra a empresa --geralmente, com relação a esquemas de venda em pirâmide. 

A reportagem tentou confirmar as informações, mas a Hinode não respondeu até o fechamento. Caso responda, este link será atualizado.

Pirâmide x Multinível

Segundo um boletim do Ministério da Justiça de 2013, o marketing multinível é lícito, mas é preciso conhecer bem o negócio: “para aqueles que têm interesse, perfil e tempo para trabalhar em vendas diretas, é recomendável buscar empresas que: (1) distribuam produtos ou serviços reais, em que (2) a remuneração seja baseada principalmente nas vendas. Também é importante analisar, como as políticas da empresa tratam questões importantes para qualquer revendedor, tais como: o valor a ser pago inicialmente e a que título, se a companhia compra de volta estoque não vendido”.

Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Quando já dava meio-dia, o som tocava a música “Muleque de Villa”, do rapper Projota, quando o iPhone de um dos revendedores caiu nos quatorze metros de profundidade da represa.O que poderia acabar com uma festa, resultou em uma leve lamentação. A festa seguiu até o fim da tarde.

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