Estilo de vida

O renascimento do artesanato e a criação de novas identidades

Armário criado por André-Charles Boulle para Luís XIV. Móvel inspirou design contemporâneo imagem: The Trustees of the Wallace Collection; wallacecollection.org

Alice Rawsthorn

27/11/2011 10h00

Londres – Ao longo da história, ambiciosos monarcas, presidentes, déspotas, ditadores, tiranos e quase todos aqueles que devotaram sua vida à aquisição e ao exercício do poder sabem que uma das maneiras mais eficientes de atingir tal objetivo é persuadindo outras pessoas a acreditar que eles são poderosos. Porém, poucos soberanos executaram tal estratégia de maneira tão convincente quanto o rei francês Luís XIV.

Cada elemento de sua vida foi meticulosamente orquestrado pelo próprio Luís e pelo seu Ministro das Finanças, Jean-Baptiste Colbert. Luís então, pareceria tão esplêndido e imponente que os atemorizado franceses achariam que ele não só era o maior monarca vivo do mundo, mas também uma figura histórica de imensa importância.

As roupas de Luís, seus cavalos, penteados, armas e até mesmo seu apelido “Rei Sol” - le Roi Soleil, em francês – foram cuidadosamente escolhidos para criar essa impressão, assim como seus magníficos palácios e os tesouros dentro de cada um deles. Os mais habilidosos artesãos da França eram solicitados para produzir suntuosos móveis, tapeçarias, cristais e porcelanas. O trabalho deles era reconhecido no mundo inteiro, particularmente as tapeçarias criadas pelo artista francês Charles Le Brun e os primorosos armários de marchetaria feitos pelo seu artesão favorito, André-Charles Boulle.

Luís XIV ainda é, obviamente, considerado um dos monarcas mais poderosos da história, mas seu mecenato para com artesãos de talento - como Boulle - lhe dá também o título de, defensavelmente, o maior paladino das artes decorativas e do artesanato. Décadas depois de sua morte, a Revolução Industrial marcou o início do fim da era de ouro das artes decorativas, que vêm lutando para redefinir seu papel desde então.

O revival do Vintage e do artesanal

A briga pode ter acabado. Após os mais de 200 anos em  as artes decorativas e o artesanato lutaram – e geralmente perderam – a batalha para adiar o declínio do ofício, estas duas áreas estão passando por um revival. Até o artesão favorito de Luís XIV está de volta à moda. O ponto alto de uma exibição no Groninger Museum na Holanda, dedicada ao trabalho de dois jovens designers holandeses, Job Smeets e Nynke Tynagel, do Studio Job, é a reinterpretação de um guarda-roupa adornado com bronze e marchetaria, feito por Boulle em 1700. 

O guarda-roupa original de Boulle está em exibição na Wallace Collection, em Londres. As portas retratam cenas da “Metamorfose”, de Ovídio. Nelas, em uma das cenas, Apolo - o deus grego do sol e da música - persegue a ninfa Dafne depois de se apaixonar – profunda, porém inutilmente - por ela. Na imagem seguinte, Apolo assiste Marsyas ser esfolado vivo, depois de ter sido derrotado pelo sátiro em uma disputa musical. 

A resposta do Studio Job, o armário “Robber Baron”, foi criado e produzido em 2006 e 2007. É um guarda-roupa com estrutura de bronze no mesmo formato que o de Boulle. A peça tem aviões de caça, mísseis, bombas, metralhadoras e outros símbolos modernos do poder entalhados nas portas, em substituição às cenas da antiguidade. O toque final é o buraco negro no centro do móvel, que parece o resultado de uma explosão gigante. Como os outros trabalhos do Studio Job na exibição, que acontece até 4 de março de 2012, o armário Robber Baron é tão intrincadamente realizado quanto as peças de arte decorativa da era pré-industrial.

O artesanal se espalha

Outros jovens designers compartilham a paixão do Studio Job pelas artes decorativas e pelo artesanato. As duas áreas já foram consideradas tabus para o design, imerso na cultura racional e tecnocrata do movimento modernista durante a maior parte do século passado. As sementes da rebelião foram plantadas no final dos anos 70, quando designers pós-modernistas, liderados por Alessandro Mendini e Ettore Sottsass, na Itália, introduziram o artesanato em seus trabalhos, em partes para simbolizar a rejeição da ortodoxia modernista.

Alguns dos primeiros exemplos estão em “Postmodernism”, uma retrospectiva que acontece até 15 de janeiro de 2012, no museu Victoria & Albert, em Londres. Estas experimentações foram seguidas por Hella Jongerius, Jurgen Bey e outros designers holandeses que surgiram em meados dos anos 90 como parte do grupo Droog Design. Mas, recentemente, a onda de jovens designers, vem adotando elementos das artes decorativas em larga escala. 

O designer italiano Martino Gamper tem produzido engenhosas coleções de móveis, a maioria a partir de cadeiras e armários jogados fora, e que culminaram em sua recente exibição na galeria Franco Noero, em Turim. Seus compatriotas, Simone Farresin e Andrea Trimarchi, do Studio Formafantasma, desenvolveram uma série de objetos domésticos inspirados nas tradições do artesanato que eles descobriram na Sicília.

O trabalho dos colegas holandeses Nadine Sterk e Lonny van Ryswyck, do Atelier NL, e de Christien Meindertsma tem influência das culturas rural e agrícola da Holanda, tanto do passado quanto do presente. E o jovem designer britânico Peter Marigold constrói móveis a partir de pedaços de madeira que ele encontra em campos, parques ou estradas.

Luxo feito à mão

Um desenvolvimento paralelo dessa vertente artesanal  tem sido o entusiasmo crescente das empresas que pertencem ao grupo da elite dos produtores de objetos de luxo no design contemporâneo. Entre eles estão: a Royal Tichelaar Makkum, ceramistas holandeses que datam do século 16; a Nymphenburg, que produz porcelana de qualidade, desde o século 18, na Bavária; e a Royal Leerdam Crystal, com 133 anos, na Holanda. Todas estas companhias desenvolveram peças inovadoras, na forma e na técnica, em colaboração com jovens designers como Pieke Bergmans, que criou belíssimos objetos de cristal pela Leerdam.   

Esta onda de interesse termina um período de décadas, no qual, as artes decorativas e o artesanato quase sempre foram rejeitados por serem sentimentais e antiquados quando comparados ao dinamismo da indústria. Hoje em dia, a industrialização tende a ser vista mais como insípida e sem alma, especialmente à medida que a crise ambiental, cada vez mais profunda, torna impossível ignorar seus danos.

O apelo na literatura

Como resultado, as idiossincrasias, fragilidades e a sensualidade das peças feitas à mão tomam um novo apelo, não só para os designers, mas também para o público, como se pode perceber através do sucesso do best-seller “The Hare With Amber Eyes” [“A Lebre com Olhos de Âmbar”, Editora Intrinseca], escrito pelo ceramista britânico Edmund de Waal. No livro, Waal conta a história de um pequeno “netsuke” japonês do século 17 - a réplica de uma lebre esculpida na presa de marfim de um mamute siberiano - que ele herdou de um tio. Com isso, a obra realiza  o papel duplo de traçar a história da família de Waal e de explorar a importância emocional dos objetos feitos à mão, incluindo suas cerâmicas, em nossas vidas. 

Igualmente influente é o impacto do uso crescente da tecnologia digital, não só para a comunicação, como também para termos informação e entretenimento. O sociólogo americano Richard Sennett sustenta em seu livro de 2008, “The Craftsman”, que a experiência de imersão que temos na tecnologia digital e na navegação aleatória pela internet nos torna mais suscetíveis a coisas que parecem igualmente peculiares, instintivas e pessoais ao invés de uniformes e racionais.  

“The Craftsman” também conclama uma redefinição do conceito tradicional da habilidade manual para incluir novos campos e diferentes materiais, inclusive os virtuais, envolvidos na produção de softwares. O resultado desses projetos podem parecer muito distantes do laborioso processo de fazer a mão, digamos, um vaso de cerâmica ou um armário de madeira usando materiais específicos e técnicas particulares, mas o ritual da criação e da produção de softwares é surpreendentemente similar.    

Normalmente, os softwares são criados e produzidos por uma pessoa, que literalmente o escreve com letras, números e símbolos que criam os códigos da computação. Por este ângulo, a experiência de criar um software novinho em folha parece semelhante a de que André-Charles Boulle tinha quando produzia seus magníficos armários de marchetaria para Luís XIV.  

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