Casa e decoração

A arquitetura do século 21: veja algumas das obras que marcaram a década e as cidades

MAURÍCIO HORTA

Colaboração para o UOL

30/12/2010 10h00

Em termos de arquitetura, a primeira década do século 21 começou em 1997, com a inauguração do museu Guggenheim de Bilbao, projeto do norte-americano Frank Gehry. Ele condensou a expectativa de uma nova arquitetura em cidades do Ocidente que sofriam com a desindustrialização e que buscavam uma nova vocação na indústria da criatividade.

Depois de Bilbao, que virou sinônimo do ato de revitalizar áreas degradadas e/ou decadentes com a implantação de prédios espetaculares, o efeito tomou as mentes de prefeitos e administradores públicos pelo mundo afora, inflacionando egos e valores do “star system” da arquitetura.

  • Rafa Rivas / AFP

    O Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, de Frank Gehry concluída em 1997, estabeleceu a cultura da implantação de obras espetaculares para recuperação de cidades

Basta ver as estruturas esculturais de Santiago Calatrava na Cidade das Artes e da Ciência, em Valência, também na Espanha, ou a do Museu Judaico em Berlim, de Daniel Libeskind, e as criadas pela iraquiana estabelecida em Londres Zaha Hadid.

As obras ditas “espetaculares” não se restringem a museus e edifícios institucionais. Prédios de escritórios também figuram nessa categoria abominada por muitos críticos de arquitetura. Um desses prédios é o St. Mary Axe, o famoso “pepino” (gherkin, em inglês) do britânico Norman Foster, construído no centro de Londres, e sua correlata Torre Agbar, de Jean Nouvel, em Barcelona, muito criticada por, com seus mais de 140 m de altura, ter rompido o gabarito baixo da cidade catalã.

  • Jim Ruyman / Reuters

    Frank Gehy, autor de algumas das obras mais "espetaculares" dos séculos 20 e 21

O fenômeno da busca por autoafirmação de cidades globais emergentes, como Xangai e Dubai, deu espaço para mais espetáculos, goste-se deles ou não.

Novas tecnologias projetuais também contribuíram para a espetacularização da arquitetura, especialmente a adoção de programas paramétricos. Esse tipo de software projeta não a partir de traços passados pelo arquiteto, mas sim por regras (parâmetros). Conforme o arquiteto altera um dessas regras (por exemplo, o tamanho de janelas), os valores de todos os outros parâmetros são atualizados em segundos.

Assim, alterações que demorariam uma semana são feitas em minutos; depois, basta imprimir o projeto em uma impressora 3D. Morrem, assim, a prancheta e a maquete. É o que aconteceu em novos escritórios como o nova-iorquino Asymptote e o holandês UN Studio.

Mas não demoraria para que o espetáculo trouxesse sua antítese. Já em 2000 a Bienal de Veneza de alertou: a arquitetura precisa de mais ética e menos estética. Para Massimiliano Fuksas, arquiteto italiano que dirigiu o evento, a arquitetura estava perdida em elementos gratuitos, preocupada demais com o insólito e seu impacto visual, mas pouco com as necessidades reais de quem usaria o edifício.

Outro arquitetos seguiram, então, na busca por elementos essenciais da arquitetura, pela economia de meios e pela simplicidade das formas. Não se trata de ser minimalista, mas de ser fiel ao que for fundamental em um projeto - como nas obras de Renzo Piano e nas do escritório japonês Sanaa.

  • Sean Gallup / Getty Images

    Sir Norman Foster, o arquiteto britânico é um dos mais influentes da primeira década do século 21

Nesse ponto, a arquitetura latino-americana é um capítulo à parte. Com poucas exceções como as formas e cores tropicais de Ruy Ohtake, o subcontinente não viu uma ruptura tão marcante do projeto modernista, mas, sim, sua uma transformação, com menos utopia e menos dogmas. Depois de um interstício pós-moderno dos anos 80 (que não marcou tanto, tão afundados estávamos na estagnação econômica) e a lenta retomada criativa da década de 90, quando a arquitetura se viu privada de projetos públicos graças à guinada neoliberal por todo o subcontinente, a retomada econômica dos anos 2000 permitiu novamente que arquitetos usassem sua força expressiva e rigor.

O inevitável diálogo com o cliente privado começou a se estabelecer. Por outro lado, surgiram projetos muito significativos com o renascente setor público – mais especificamente em projetos de revitalização urbanística, escolas e universidades públicas e moradias de interesse social, graças à melhoria dos indicadores sociais e econômicos na região. É o caso da forte arquitetura chilena, da qual é exemplo mais visível o trabalho do escritório Elemental, liderado pelo jovem arquiteto Alejandro Aravena.

  • Paulo Mendes da Rocha, premiado com o Pritzker em 2006, é uma das principais influências
    de toda uma nova geração de arquitetos brasileiros

No Brasil, a arquitetura recebeu nos anos 2000 sua geração mais criativa desde os tempos dos mestres modernos, formada durante o novo período de democracia.  Esse grupo de arquitetos que, em sua maior parte, mal chegou aos 40 anos, reconhece a herança do movimento moderno e da Escola Paulista – afinal, muitos foram alunos de Paulo Mendes da Rocha dentro do prédio de João Batista Vilanova Artigas na FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Mas não se prende a seus tabus. As preocupações mais claras são a solução de necessidades específicas de cada projeto e não a busca de uma plasticidade primária, assim como a recuperação da relação do edifício com a cidade.

  • Mario Cesar Carvalho / Folhapress

    Alejandro Aravena, do grupo chileno Elemental

A discussão sobre a cidade também ganhou corpo nesta década, em que a população urbana mundial ultrapassou a rural, segundo dados da ONU divulgados em abril de 2007. Um dos principais pensadores dessa transformação é Rem Koolhaas, que, em vez de especular sobre aquilo que a cidade deveria ser, tal como as utopias modernistas defendiam, ou sobre como ela foi, tal como os pós-modernistas fizeram, ocupa-se em estudar como ela é. E nisso sua atenção ultrapassa os grandes centros internacionais e atinge o que realmente importa: a maior urbanização da história da humanidade pela qual passam países da África e da Ásia.

Como professor em Harvard, Koolhaas organizou o “Project on the City”, em que seus alunos discutem a urbanização de centros como o delta do rio das Pérolas, o coração industrial da China que inclui as cidades de Hong Kong e Macau, e Lagos que, segundo previsão recente da ONU, deverá ser a maior cidade africana em 2015, com 12,4 milhões de habitantes.

  • Divulgação

    Perspectiva artística da proposta de urbanização feita pelo grupo chileno de arquitetos Elemental para a favela de Paraisópolis, em São Paulo. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento

Esse debate é particularmente visível no Brasil, como reação seja às escolhas urbanísticas feitas nas décadas anteriores, que privilegiaram carros e a descentralização da cidade, seja à marginalização da população pobre. Não é por pouco que um bom número de arquitetos da nova geração escolheu o centro degradado da cidade para instalar seus escritórios. Enfim, se a primeira década do século 21 foi a da retomada da arquitetura – ao menos nos países menos atingidos pela crise econômica – resta esperar os frutos da década seguinte.

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