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Filantropo tem vida marcada pela Grand Central e casa que lembra a estação

Eric Striffler/ The New York Times
Casa em Bay Shore, NY, possui estruturas abobadadas e cerâmicas como as da Grand Central Imagem: Eric Striffler/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Nova York (EUA)

31/12/2013 08h01

Tudo o que mais importou para George McDonald aconteceu no Terminal Grand Central, em Nova York. Foi lá, em 1985, que este ex-executivo da indústria do vestuário, hoje com 69 anos, alimentou os sem-teto por 700 noites e, então, criou o Fundo Doe. 

O Fundo, um programa de aconselhamento sobre carreira e habilidades, recebeu o nome de Mama Doe, uma mulher sem-teto que morreu de pneumonia na véspera de Natal no Vanderbilt Hall, a antiga sala de espera da estação onde os sem-teto se reuniam e que era carinhosamente chamada de "sala de estar". McDonald, aliás, ainda lidera um culto à luz de velas para Mama Doe no salão principal da Grand Central, todos os anos, no dia 24 de dezembro.
Foi lá também que o empresário conheceu sua esposa, Harriet Karr-McDonald, atualmente com 62 anos. Harriet era roteirista e atriz em 1987, época em que passou uma semana no terminal, junto com uma adolescente fugitiva chamada April Savino. As duas coletavam dados para um roteiro sobre a vida de Savino.
 
Convenientemente, quando McDonald anunciou recentemente sua candidatura a prefeito, ele o fez na Grand Central, na Passagem Graybar. Assim, as peculiaridades e ornamentos do terminal, como os arcos com azulejos espinha de peixe do Oyster Bar e a Galeria Whispering, que fica do lado de fora, são tão familiares a McDonald quanto um lar.
 
Porém, foi quase por acaso que ele se viu, no final de 2010, vagando por uma casa enfeitada com ornamentos inspirados na movimentada estação. A Casa de Ladrilho (ou de Azulejos), como foi apelidada, é uma excentricidade de tijolos em estilo mourisco na costa sul de Long Island, construída por Rafael Guastavino Jr., filho do arquiteto Rafael Guastavino, que desenvolveu o sistema de azulejos abobadados usados no Oyster Bar e na Galeria Whispering – ambos na Grand Central - e em centenas de outros espaços públicos e privados, incluindo o Carnegie Hall e a catedral de St. John, the Divine.
 
Pequena joia
 
Iniciada em 1912, a casa é uma profusão de elementos ornamentais: seus próprios arcos espinha de peixe, instantaneamente reconhecíveis, estão ao lado de azulejos europeus que Rafael Guastavino Jr. trouxe de sua viagem de lua de mel. Quando ele morreu, em 1950, deixou o lugar para sua filha, Louise, que faleceu em 2004. Em 2005, a casa foi para a Liga de Preservação do estado de Nova York na lista dos "Sete a Salvar". Um médico a comprou, mas nunca se mudou. "Ouvi dizer que a esposa não queria viver em Bay Shore", afirma McDonald, "ali não são os Hamptons ou East End".
 
Em 2010 a casa estava novamente no mercado e a enteada de McDonald, Abigail Mann, viu que ela estava à venda. "Eu estava preocupado com o fato de que ela pudesse ser parecida demais com a Grand Central Station", explica McDonald, que em uma reviravolta do destino comprou a casa por US$ 1,2 milhão em dezembro daquele ano, salvando-a da demolição.
 
Apesar da abundância de azulejos, a casa é surpreendentemente doméstica e acusticamente gentil. John Ochsendorf, professor de arquitetura e engenharia no MIT e diretor do Projeto Guastavino, explica que o Guastavino mais jovem "estava muito preocupado com a acústica e trabalhou com um físico em Harvard para desenvolver materiais acústicos".
 
Autor do livro “Guastavino Vaulting: The Art of Structural Tile”, Ochsendorf é um apologista obstinado do legado que Rafael Guastavino Jr. - "um Guastafarian", diz, explicando como pai e filho eram constantemente confundidos em registros históricos como um só Guastavino, “ou às vezes até Gustavino", Ochsendorf acrescenta e estremece.
 
No início da década em que a Casa de Azulejos foi feita, Ochsendorf afirma, Guastavino (o filho) estava trabalhando em mais de 100 construções por todo o país e, de modo geral, seu trabalho pode ser encontrado em mais de 500 construções americanas importantes.
 
Julia Lewis, estudante da faculdade de Arquitetura, Planejamento e Preservação de  Columbia, aponta que o sistema que os Guastavinos desenvolveram - ou o trabalho deles - pode ser encontrado em mais de mil construções, distribuídas em cerca de quarenta estados e nove países: “233 dos quais em Manhattan”, precisa Lewis, que escreveu o relatório para designação de "marco" para a Casa dos Azulejos. 
Detalhes de um mosaico
 
McDonald conduz uma visita à sua casa, apontando como, no amplo corredor da escada, o meio do chão azulejado nas laterais é de concreto e sem adornos. "Você percebe o quanto ele [Guastavino Jr.] era controlador?” questiona McDonald. "Ele queria ter certeza de que um tapete seria colocado aqui.”
 
Ainda assim, diz Karr-McDonald, tem sido difícil de decorar: “Você não quer competir com os azulejos”. Em uma das varandas estão os móveis extravagantes, tramados em vime rosa e branco, que McDonald encontrou na internet. Eles parecem vagamente russos e combinam com o ambiente.
 
No andar de cima há uma sala isolada que é o escritório de McDonald. Sobre a lareira há uma pilha de amostras de esmalte, deslizes luminescentes em pequenos retângulos. (Na casa de barcos, do lado de fora, Guastavino tinha um pequeno forno, que ainda está lá, para que ele pudesse fazer experimentos com esmaltes em seus raros dias de folga.) Em uma escrivaninha, numa moldura, estão as algemas usadas em McDonald quando ele estava alimentando os sem-teto, junto com os crachás dos policiais que o prenderam.
 
No hall de entrada há uma audaciosa pintura abstrata. McDonald é o artista e é uma primeira tentativa plausível. "Eu tive um surto criativo", argumenta ele. "Eis o que aconteceu: quando terminamos o trabalho, começamos novos projetos. Sandy (o furacão) cuida de demolir e nós, de construir novamente. Finalmente nos mudamos, mas é muito tranquilo, o oposto de tudo que eu conheci ao longo de 45 anos em Nova York.” 
 

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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