Casa e decoração

Mulheres assumem ferramentas, fazem consertos e dão dicas sobre reparos

Getty Images
Mulheres podem fazer qualquer serviço de reparo, basta disposição para começar Imagem: Getty Images

Juliana Nakamura

Colaboração para o UOL, de São Paulo

02/02/2016 07h02

Determinação, ousadia e uma certa indignação com a desigualdade entre gêneros fazem parte da personalidade de duas jovens que decidiram largar suas carreiras para empreender no mundo da manutenção e dos reparos domésticos. Com ferramentas em punho e disposição para sujar suas unhas, elas trabalham com agenda cheia e se sustentam atendendo clientes que buscam soluções para problemas hidráulicos, elétricos, montagem de móveis, pintura de paredes, instalação de tv, etc..

Em São Paulo, a cineasta e editora de vídeos Ana Luisa Monteiro Correard abriu, no segundo semestre de 2015, a M´Ana – Mulher Conserta para Mulher. Como o nome deixa claro, trata-se de uma empresa de manutenção residencial feita por mulheres e voltada exclusivamente para o atendimento de outras mulheres.

Embora Ana Luisa já cuidasse sozinha de muitos consertos em sua própria casa, a ideia de apostar nesse segmento só surgiu quando ela foi assediada por um instalador de gás. “Conversei com amigas sobre o episódio e todas me disseram que também se sentiam desconfortáveis com homens estranhos em casa. Daí comecei a me questionar se fazia sentido trabalhar com algo que gosto e ainda ajudar outras mulheres”, conta.

Divulgação
Ana Luisa Monteiro criou um serviço de reparos residenciais só para mulheres Imagem: Divulgação
Os passos seguintes foram investir em um kit de ferramentas mais profissional e fazer um curso prático intensivo com seu avô, que sabe tudo de reparos domésticos, e com um primo, que estuda engenharia e é técnico em elétrica.

Em apenas cinco dias de divulgação nas redes sociais, a agenda ficou lotada. A procura foi tanta que o plano inicial de administrar a nova empresa junto com o emprego em uma produtora de vídeos teve de ser abandonado. “Muitas meninas passaram a me procurar, seja porque foram indicadas por outras clientes, seja porque querem apoiar o trabalho feminino”, diz Ana Luisa, que agora tem uma sócia e planeja contratar uma equipe só de mulheres para dar conta da demanda.

Pereirão da vida real

Em Porto Alegre (RS), a técnica em informática Karla Sajdak também largou o emprego para dedicar-se à empresa que criou para realizar serviço de manutenção em casas e em empresas. “Eu estava insatisfeita com o meu trabalho, tinha afinidade com reparos domésticos e, na época, estava no ar a novela ‘Fina Estampa’, cuja protagonista era uma mulher que ganhava a vida consertando de tudo um pouco. Tudo isso me impulsionou”, conta Karla.

Arquivo Pessoal
Karla Sajdak montou uma empresa de reparos domésticos em Porto Alegre (RS) Imagem: Arquivo Pessoal
A decisão que, em um primeiro momento parecia arriscada, mostrou-se mais do que acertada. A procura pelo serviço foi tamanha que, desde então, ela conseguiu comprar um carro e dar entrada em um apartamento, algo que seria impossível com o salário anterior.

Embora seja procurada por mulheres em grande parte, a ‘Marida de Aluguel’ também atende o público masculino. É justamente com esse grupo que Karla tem mais dificuldades. Ela conta que já passou pelo desprazer de ser assediada por um cliente e que teve que superar a saias justas causadas por homens que, talvez em função do orgulho ferido, querem ensiná-la como se faz o serviço. “Para escapar dessas situações, o jeito é se impor e mostrar profissionalismo”, diz Karla.

Pedras no caminho

Preconceito recorrente e alguma hostilidade são enfrentados com serenidade pelas duas empreendedoras. “Quando fiz a camiseta com o logo da 'Marida de Aluguel', me perguntaram se eu não tinha vergonha de vesti-la e ser tachada como sapatão”, revela Karla. Ana também já enfrentou comentários maldosos e agressivos via redes sociais. “A lógica que parece não entrar na cabeça de muitos homens é que quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”, desabafa.

Entre o público feminino a receptividade ao serviço é bem diferente. “Percebo que muitas garotas gostariam de botar mais a mão na massa, mas se sentem incapazes ou foram oprimidas com questionamentos sobre suas habilidades ou força física”, diz a criadora da M´Ana.

Ferramentas em punho

Para as meninas que querem romper esses paradigmas e se aventurar no mundo das ferramentas, as duas profissionais dão algumas dicas:

  • Primeiro: não tenha medo de errar.
  • Para adquirir confiança, comece por tarefas mais simples, como a montagem de uma prateleira.
  • Monte um bom kit básico de ferramentas em casa: trena (com o mínimo de três metros); martelo; chave de fenda (pelo menos em dois tamanhos); chave philips (uma pequena e uma grande, para começar); três alicates (universal, de bico e de corte); chave inglesa; estilete e fitas isolante e veda rosca. 
  • Está com dúvidas? Busque tutoriais na internet para ajudar ou faça um curso.

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