Casa e decoração

Arquiteto da Berrini, Bratke teve planta livre e experimentação como marcas

Leonardo Colosso/Folhapress
O arquiteto Carlos Bratke construiu mais de 60 edifícios na região da avenida Berrini Imagem: Leonardo Colosso/Folhapress

Thamires Andrade

Do UOL

10/01/2017 17h55

O arquiteto Carlos Bratke morreu, aos 74 anos, nesta segunda-feira (9) e deixou 60 edifícios, totalizando cerca de 650 mil metros quadrados de área construída, só na avenida Luiz Carlos Berrini, na região sul da capital paulista. Se Niemeyer é relembrado pelos concretos e curvas, o legado de Bratke, na opinião dos arquitetos ouvidos pelo UOL, foi romper com a arquitetura paulista e apostar na experimentação.

Segundo Gilberto Belleza, presidente do CAU/SP (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Estado de São Paulo), na década de 70, quando Bratke começou a atuar, a arquitetura de São Paulo era caracterizada pelo uso do concreto aparente. "Ele contestou esse uso e apostou na expressividade dos revestimentos. O Plaza Centenário, conhecido como Robocop, por exemplo, é todo revestido", explica.

Para Ruth Verde Zein, professora de arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não é possível definir o legado de Bratke de uma só maneira, já que o trabalho dele era muito experimental. "Ele não criava uma fórmula e estabilizava isso. Ele gostava de variar, de experimentar, por isso, a obra dele é ampla e variada. O que fez com que cada um apreciasse as construções a sua maneira", explica.

Novas centralizações da cidade

Ruth, que morou na região do Brooklin quando mais nova, conta que a região não era um pântano, como diziam, mas tinha muitos problemas de alagamento. E foi na década de 70 que um grupo de jovens arquitetos, dentre eles Bratke, tive a ideia de criar um empreendimento no local. "Foi feito um dreno na região e os arquitetos e engenheiros, que na época não tinham o dinheiro de uma construtora, resolveram criar um prédio no local. Na época, o empreendimento foi considerado 'alternativo'", relembra.

Hoje em dia, a região passa longe da alternatividade, já que ela se transformou em um grande centro empresarial. Tanto a professora de arquitetura do Mackenzie quanto o presidente do CAU/SP concordam que o legado do Bratke na região foi a criação de um novo polo de desenvolvimento, que deixou São Paulo menos centralizada.

“Antigamente, tudo estava na região central de São Paulo. Na época que Bratke começou a atuar, a avenida Paulista já tinha virado o segundo ponto de ‘centralidade’ e hoje há múltiplas centralidades e a Berrini foi um marco para que isso acontecesse. A construção dos prédios na avenida mostrou a possibilidade de expansão da cidade por meio de novas centralidades, que depois se espalhou pela cidade toda. Hoje, não há um centro mais importante que o outro”, destaca Ruth.

Planta livre

Uma das marcas dos edifícios comerciais construídos por Bratke foi a planta livre, que, segundo Ruth, é um ensinamento do arquiteto americano Louis Kahn. “Ao deixar a laje inteira, ou planta aberta, você oferece uma flexibilidade de uso muito grande, pois não há nenhum pilar central que possa atrapalhar o uso. Você pode fazer o layout que quiser no escritório, deixar o corredor de um lado ou de outro, fazer salas maiores ou menores, sem qualquer problema”, explica Belleza.

Para ter essa planta livre, Bratke separava os espaços úteis e de sociabilização de outros espaços conhecidos como “servidores”. “O prédio precisa ter banheiros, escadas, elevadores e tubulações de incêndio e esses espaços são conhecidos como servidores, portanto, invés de deixá-los ‘dentro’ do prédio, ele colocava esses aparatos para o lado de fora, até para criar sombra nos edifícios”, explica Ruth.

Ou seja, ao entrar em um prédio construído por Bratke, você não encontrará o elevador no meio do prédio, mas sim em regiões periféricas. “Ao deixar esses espaços ‘de lado’, nada atrapalha a planta e se cria torres para abrigar esses espaços de circulação, como elevadores e escadas”, explica o presidente do CAU/SP.

Outra forma de expressividade de Bratke são as marcações de verticalidade dos edifícios. Belleza explica que é fácil identificar isso: basta ver que os edifícios construídos pelo arquiteto têm uma série de linhas que vão do chão até o topo, além de vários recortes e, cada linha deles, também marca essa verticalidade.

A própria casa de Bratke, segundo Belleza, tinha uma estrutura ousada, não só por deixar partes da estrutura aparente, mas também por elas serem expressivas. “Como a casa era muito próxima da rua, Bratke resolveu inverter aquela ideia tradicional de que a sala de estar fica na planta de baixo e os quartos em cima. Ele usou o declive do terreno para construir os quartos abaixo do nível da rua para diminuir os ruídos”, explica.

Papel cultural da arquitetura

Filho do arquiteto modernista Osvaldo Bratke, Carlos se afirmou na carreira desde cedo e nunca precisou ficar na sombra do pai. Além de arquiteto, ele foi professor por muitos anos e também fez parte de várias diretorias do IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil) e também foi diretor do Museu da Casa Brasileira e presidente da Fundação Bienal de São Paulo.

“Bratke não foi só arquiteto, mas assumiu um papel de transmitir a divulgação da arquitetura para a comunidade em um sentido mais amplo. Inclusive, assumiu bienais de arquitetura e teve um papel muito forte com os eventos que coordenou para abrir espaço de diálogo sobre o tema em SP”, acredita Ruth.

Para Belleza, essa valorização da produção de arquitetura e cultural dos arquitetos é um viés importante de sua carreira profissional. “Ele foi responsável pela existência da bienal e trouxe muitas exposições ligadas a arquitetura, inclusive, vários profissionais estrangeiros vieram participar. Ele foi um profissional que soube defender muito a profissão do arquiteto”, diz.

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