Casamento

Ideais de casamento burguês são metas inalcançáveis, diz filósofo

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Kate Middleton e Príncipe William se beijam após casamento Imagem: Getty Images

Alain de Botton

02/08/2011 12h17

Esperar do casamento amor, desejo e uma família feliz é praticamente pedir o impossível.

Eu odiaria lançar calúnias sobre o casamento no mesmo ano de um encantador casamento real e quando o primeiro-ministro desperdiça poucas oportunidades para se pronunciar a favor desta nobre e antiga instituição. No entanto, vale a pena pensarmos sobre o que esperamos que o casamento nos propicie nos dias de hoje.

Nenhuma das emoções que esperamos encontrar em um bom casamento moderno é incomum por si só. Nós as encontramos na arte e na literatura em todas as culturas e épocas. O que faz do casamento moderno extraordinário em suas ambições é a expectativa de que essas emoções sejam mantidas ao longo de toda uma vida com a mesma pessoa.

Os trovadores da Provença do século 12 tinham uma apreciação complexa do amor romântico: a dor gerada pela visão da figura graciosa, a insônia provocada pela perspectiva do encontro, o poder de algumas poucas palavras ou olhares para determinar o estado de espírito de alguém. Mas estes cortesãos não expressavam qualquer desejo de mesclar suas valorizadas emoções com intenções paralelas de criar uma família ou mesmo de dormir com aquelas a quem eles amavam ardentemente.

Emoção subversiva
Os libertinos da Paris do século 18 estavam, em temos comparativos, bem familiarizados com o repertório emocional do sexo: o prazer de desabotoar a peça de roupa de alguém pela primeira vez, a excitação de explorar um ao outro à luz de velas, a emoção subversiva de seduzir alguém secretamente durante a missa. Mas estas aventuras eróticas também compreendiam que seus prazeres tinham muito pouco a ver com preparar a cena para a amizade de companheirismo ou a criação de um berçário cheio de crianças.

Quanto ao impulso em se agrupar em pequenos grupos familiares dentro dos quais a próxima geração pode se propagar com segurança, esse projeto é do conhecimento da maior parte da humanidade desde os dias em que começamos a andar eretos no Vale do Rift, no Leste da África. E no entanto este impulso raramente induziu pessoas a acreditar que ele pode estar incompleto sem um desejo sexual ardente ou frequentes sensações de desejo diante da visão da companheira.

A crença na incompatibilidade, ou ao menos na independência, dos aspectos romântico, sexual e familiar da vida eram tomadas como sendo aspectos universais e pouco relevantes da vida adulta até meados do século 18, nos países mais prósperos da Europa, um incrível novo ideal começou a se formar em uma área em especial da socieade.

Este ideal propôs que as pessoas casadas daí para a frente deveriam não apenas tolerar um ao outro para o bem das crianças, como extraordinariamente deveriam também se esforçar para amar e desejar um ao outro profundamente ao mesmo tempo.

Elas deveriam manifestar nos seus relacionamentos o mesmo tipo de energia romântica que os trovadores mostravam em relação às damas que cortejavam e o mesmo entusiasmo sexual que havia sido explorado pelos entusiastas do erotismo da França aristocrática.

O novo ideal propagou pelo mundo a convincente noção de que uma pessoa poderia suprir suas necessidades mais prementes de uma só vez com a ajuda de apenas uma outra pessoa.

Não foi coincidência que o novo ideal de casamento tenha sido criado e apoiado fortemente por uma classe econômica específica, a burguesia, cujo equilíbrio de liberdade e repressão ela sinistramente espelhava.

Trabalho = escravidão
Em uma economia expandindo rapidamente graças aos desenvolvimentos técnicos e comercias, esta nova classe ascendente não precisava mais aceitar as expectativas restritivas das camadas inferiores. Com um pouco de dinheiro sobrando para propiciar distração, advogados burgueses e comerciantes podiam elevar suas expectativas e esperar mais de uma parceira do que meramente alguém ao lado, com quem se poderia enfrentar a passagem do próximo inverno.

Ao mesmo tempo, os recursos deles não eram ilimitados. Eles não tinham o tempo ocioso ilimitado dos trovadores, cuja riqueza herdada significava que eles poderiam passar três semanas sem maiores dificuldades exaltando a testa da mulher amada. Havia negócios para administrar e armazéns para fiscalizar.

A burguesia tampouco poderia se permitir a arrogância social dos aristocráticos libertinos, cujo poder e status havia lhes concedido uma confiança em relação a partir o coração alheio e destruir suas famílias - bem como os meios de ocultar quaisquer consequências desagradáveis de suas travessuras.

O casamento burguês

           "O novo ideal propagou pelo mundo a convincente noção de que uma pessoa poderia suprir suas necessidades mais prementes de uma só vez com a ajuda de apenas uma outra pessoa." Alain de Botton


A burguesia, portanto, não estava nem tão pressionada a ponto de não acreditar no amor romântico e nem tão libertada da necessidade de buscar envolvimentos eróticos sem limite. O desejo de encontrar a realização por meio do investimento em um única pessoa com a qual se firmou um contrato legal e eterno representava uma solução frágil para o equilíbrio específico de necessidades emocionais e restrições de ordem prática.

Não pode ser coincidência que uma união muito semelhante ente a necessidade e a liberdade tenha se tornado aparente na mesma época em relação àquele segundo pilar da felicidade moderna - o trabalho.

Durante séculos, a ideia de que o trabalho não seria outra coisa que não sofrimento pareceria totalmente implausível. Aristóteles havia dito que todo o trabalho remunerado era escravidão, uma avaliação sombria à qual o cristianismo acrescentou a crença de que os esforços do trabalho foram uma penitência ditada pelos pecados de Adão.

Mas ao mesmo tempo que o casamento estava sendo repensado, muitos começaram a argumentar que o trabalho poderia ser mais do que um vale de lágrimas em que se entrava para sobreviver - ele poderia ser um caminho para a auto-realização e a criatividade. Poderia ser tão divertido como algo que alguém fazia sem referências a dinheiro.

As virtudes que a aristocracia havia associado anteriormente a ocupações não-remuneradas passaram a estar disponíveis em certos tipos de empregos remunerados também, uma pessoa poderia transformar um hobby em um emprego. Uma pessoa poderia fazer por dinheiro o que ela pretendia fazer de qualquer maneira.

O ideal burguês de trabalho, como sua contrapartida marital, foi a representação de uma posição intermediária. Era necessário trabalhar para ganhar dinheiro, mas o trabalho poderia ser prazeroso - assim como o casamento não poderia fugir aos encargos normalmente associados à criação de filhos - e ainda assim ele não estaria desprovido de alguns dos prazeres de um relacionamento amoroso e de uma obsessão sexual.

A visão romanceada
A visão burguesa do casamento gerou uma série de comportamentos tabu que anteriormente haviam sido tolerados ou ao menos não haviam sido vistos como a causa da destruição de si mesmo ou de uma família - uma mera tórrida amizade com a esposa ou esposo de alguém, um fracasso sexual, adultério ou impotência. A ideia de que uma família poderia ser destruída porque alguém havia feito sexo com outra pessoa seria tão ridícula para um libertino como seria para um burguês a ideia de que ele poderia se casar com alguém que ele não adorava passionalmente.

O progresso da burguesia romântica pode ser traçado na ficção. Os romances de Jane Austen ainda soam modernos porque as aspirações que seus personagens espelham - e ajudaram a moldar - as aspirações mantidas por nós. Assim como Elizabeth Bennett em "Orgulho e Preconceito" ou Fanny Price, em "Mansfield Park", nós também ansiamos em reconciliar nosso desejo em ter uma família segura com sentimentos sinceros por nossos parceiros.

Mas a história do romance também aponta para ideais sombrios do ideal romântico. Os dois maiores romances da Europa do século 19, "Madame Bovary" e "Anna Karenina", nos confrontam com mulheres que, como era típico em suas épocas e em suas posições sociais, almejam uma série de qualidades em seus parceiros. Elas querem que eles sejam maridos, trovadores e libertinos.

Mas tanto no caso de Emma como no de Anna, a vida só lhes oferece o primeiro entre os três. Elas ficam aprisionadas em um casamento economicamente seguro e sem amor, que em eras passadas poderia ser a causa de inveja e celebração - e que agora parece intolerável. Ao mesmo tempo, elas habitam um mundo burguês que não pode permitir suas tentativas de manter relacionamentos amorosos fora do casamento. Seus suicídios ao final ilustram a natureza irreconciliável do novo modelo de amor.

O ideal burguês claramente não é uma ilusão. Existem é claro casamentos que fundem perfeitamente bem os três ideias de ouro da realização - romântico, erótico e familiar.

Nós não podemos dizer, como os cínicos por vezes tentaram, que o casamento feliz é um mito. É infinitamente mais aflitivo que isso. É uma possibilidade - apenas uma possibilidade rara. Não há uma razão metafísica pela qual o casamento não vá honrar nossas expectativas - mas as possibilidades estão contra nós.

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