Estilo de vida

Por que Rodrigo Hilbert causa tanto encanto e terror?

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Matheus Pichonelli

Opiniões

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Colaboração para o UOL

20/07/2017 14h45

Nos últimos dias, e a essa altura já não dá para saber exatamente como e onde tudo começou, o tribunal do Facebook decidiu julgar se Rodrigo Hilbert deve ou não levar o selo de sujeito legal, farsa, homão da porra ou coisa assim. Inconclusiva, a discussão levou uma amiga a pedir, em caixa alta, uma ferramenta capaz de bloquear problematizações sobre o assunto na timeline. Faz sentido.

Como tudo nesta seara, a questão diz mais sobre quem debate do que sobre o “problema” em si. Aparentemente, o companheiro da Fernanda Lima provoca os instintos mais primitivos entre homens e mulheres por, aparentemente, fazer a lição de casa – o que significa fazer em casa o que grande parte dos homens se recusa a fazer, como cuidar dos filhos, lavar a pia ou cozinhar.

Ninguém, a não ser o casal ou os filhos, pode falar da dor ou da delícia de ser o que é além (ou atrás) das câmeras ou da eficiência dos empregados, e prometo fugir do porém lançado à discussão: a de que Rodrigo Hilbert representa um padrão de beleza e só por isso merece biscoito.

Como lembrou um internauta, se é para lembrar de personalidades que também cuidam dos filhos, que aparentemente mantém relacionamentos saudáveis com a companheira, a quem exaltam quase sempre, que são engajados e têm programa de TV podemos falar também do Lázaro Ramos, que além do mais ainda ajuda a visibilizar na TV pessoas historicamente discriminadas, escreve livros, dirige filmes, atua, colabora com projetos sociais (o cara é embaixador da Unicef), etc.

Temos, então, dois modelos do que a contemporaneidade ousou designar “homões da porra”. Se isso ainda provoca arrepio é porque o próprio corte da contemporaneidade rasgou o pé de quem segue preso em algum outro período histórico, mais precisamente quando as mulheres mal ou parcialmente ocupavam o mercado de trabalho.

Tanto num caso como no outro, o que parece produzir encanto (ou terror) é o fato de ambos fazerem, ou aparentarem fazer, o que deveria ser obrigação. Ou seja: dividir as tarefas de casa num momento em que relações igualitárias são discutidas, exigidas, viabilizadas no ambiente profissional (podemos chamar de vida pública, esta ao qual apenas homens tinham direito a circular, até pouco tempo, sem correr levar alguma pecha pejorativa para casa; sim, porque até pouco tempo, lembra a historiadora Margareth Rago, mulher pública era sinônimo de prostituta).

Eu não sei vocês, mas se puxar pela memória, o que mais tenho visto no meu círculo de relacionamento são casais cujo acesso integral à vida pública é ainda privilégio masculino. Nesses espaços, piadas com cartões de crédito, menções a fetiche por sapatos ou pouco caso com as opiniões femininas ainda são frequentes e naturalizados. E o tom de voz deles é quase sempre infantil, como se falassem como filhos sob cuidados e atenção permanentes.

Casa e filhos são projetos construídos em parceria, mas muitas vezes só um dos parceiros é indagado se vai dar conta de conciliar tudo – casa, trabalho, crianças, etc.

Desde que meu filho nasceu, há quatro anos, sabe quantas vezes ouvi que deveria, de repente, levar o trabalho menos a sério, ou mesmo abandonar o emprego, em nome dele? Nenhuma. A recíproca não só não é verdadeira como é a mãe quem costuma ouvir de parentes, vizinhos ou sabichões de redes sociais que tudo o que der errado, a partir de agora, é culpa dela, inclusive a gripe ou eventual “mal criação” (expressão autoexplicativa, inclusive). Isso sem contar a pressão sobre o corpo, o que vale uma outra crônica ou tratado (dia desses me deparei com um produto de beleza que prometia corrigir as “imperfeições” do corpo e o corpo eram duas pernas de mulheres, o que diz muito também sobre tudo isso).

Muita gente opta por focar na vida privada. Ou resolve adiar os planos para a vida pública. E acaba funcionando como uma espécie de suporte doméstico da parte do casal educada e acostumada a buscar o protagonismo fora do lar. Essa desistência não acontece porque faltou coragem ou talento, mas porque as responsabilidades com a casa ou com os filhos são pesadas, embora pouco valorizadas, e se desenvolvem muitas vezes a partir de uma intensa pressão psicológica. Tão pesadas que muitas vezes inviabilizam a chamada jornada dupla.

Que me desculpem os meus amigos que cresceram ouvindo histórias e propagandas de que a função do homem é sair à caça e trazer as presas para as crianças dirigindo o carrão do ano, como mostra a propaganda, mas é completamente compreensível que alguém tenha suspiros com o sujeito aparentemente disposto a dividir não só as tarefas de casa, mas a dar suporte para que o outro lado da parceria também brilhe – sem a preocupação de voltar do trabalho e, como numa propaganda infeliz de uma TV francesa, ver tudo a casa em chamas, os filhos famintos, sujos ou mal vestidos.

“Eu tenho uma 'mulher da porra' em casa, que trabalha pra caramba. E se eu não estiver em casa ajudando, se ela não estiver em casa ajudando, se a gente não fizer essa divisão de tarefas, a gente não consegue educar nossos filhos de uma forma correta”, disse Hilbert certa vez.

Resumindo: o “homão da porra”, ao que parece, não é o loirinho bonitão com dotes culinários e barriga tanquinho, mas uma ideia de parceria, alguém que (de novo: aparentemente) se nega a morrer abraçado ao direito divino ao privilégio de ser servido com o jantar, a cerveja ou o copo d’água; que não opine sobre os afetos que desconhece; que não referende uma hierarquia histórica com piadas depreciativas ou alusões a uma suposta incapacidade de sobreviver longe dos cuidados de quem paga as contas.

Isso, de alguma forma, quebra com o ideal romântico no qual apenas uma parte vai à guerra, toca o violão, faz poemas e vira presidente, enquanto a outra parte se reveza entre a plateia e os afazeres domésticos.

O que parece produzir admiração não é só o bonitão da Fernanda Lima ou da Taís Araújo, mas a impressão de que elas não devem ouvir o tempo todo, todo santo dia, que deveriam abandonar a carreira, se dedicar mais a ele e aos filhos, que a certa altura se tornam a mesma figura carente de atenção, controle e papinha. Em vez disso, há uma ideia implícita de parceria ali. “Vai lá, meu amor. Eu seguro as pontas. Eu tomo conta de tudo até você voltar. Sucesso, você merece”.

É algo mais do que abrir a porta de passageiro do carro que só um dirige, e isso mostra como a régua do casal ideal (não apenas padrão) mudou, ou ainda precisa mudar, para se ajustar às demandas do mundo contemporâneo, de relações igualitárias e decisões compartilhadas.

Admitam, amigos homens: todos temos muito ainda a aprender. Parar de espernear pode ser um bom começo.

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