Estilo de vida

Sarahah, o app do feedback honesto, prova que perdemos noção de franqueza

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Matheus Pichoneli

Opiniões

O UOL Estilo abre espaço para pessoas de diferentes áreas de atuação escreverem sobre comportamento, questões de relacionamento, sexo e outros pontos da vida cotidiana. Os textos de cada um dos autores não refletem, necessariamente, a opinião do UOL.

Colaboração para o UOL

01/08/2017 15h35

Depois de tanto ouvir falar, resolvi entrar na onda e criar uma conta no Sarahah, aplicativo que permite receber mensagens com toques supostamente honestos de pessoas supostamente francas – e anônimas. Para minha surpresa, passei o dia lendo e me divertindo com recados a princípio simpáticos de gente que nem desconfio quem seja (alguns eu desconfio, na verdade).

A certa altura, o aplicativo travou – segundo os administradores, em razão do excesso de “pessoas honestas” conectadas ao mesmo tempo no sistema.

Sarahah, em árabe, significa “franqueza”. Chamem como quiserem, mas não deve ter nada mais sintomático do nosso delírio de aproximação e sensação de intimidade.

O programa, como uma tendência da vida em rede, permite dizer, sem o ônus da identidade, o que não teríamos coragem de expressar no tête-à-tête. Podemos elogiar, xingar, flertar. Estamos livres, no fim das contas, para dizer o que deve e o que NÃO deve ser dito, sem a menor chance de produzir qualquer mudança no receptor.

Eu não sei vocês, mas costumo avaliar as opiniões não requisitadas com variações de perguntas do tipo “quem é você?”, “quem você pensa que é?”, “Qual seu interesse em me dizer isso?” (No tête-à-tête podemos desconfiar, pelas reações corporais, quando aquele conselho camarada tem como objetivo confundir, minar a autoestima, eliminar um concorrente ou simplesmente nos vender algo que não precisamos).

Como atuam no campo do anonimato, o Sarahah e seus congêneres não me respondem a estas perguntas, o que já é uma contradição quando buscamos, ali, uma velha noção de honestidade. Pode não parecer, mas isso diz muito sobre o mundo em que vivemos (ou pensamos viver).

Não faz muito tempo, era ainda possível definir de maneira mais ou menos clara o que era o mundo real e o que era o mundo virtual. A fronteira era um computador, com monitor, HD e teclados separados, conectado por uma rede de acesso dial-up. Aquele ruído prolongado da discagem era uma espécie de portal entre nosso quarto e o mundo digital.

Hoje em dia nada pode ser mais acusatório da nossa idade do que perguntar a quem cresceu em meio aos smartphones se a pessoa namora ou conheceu alguém pela internet. Estamos, afinal, todos conectados e não precisamos carregar o computador para o banheiro, para o ponto de ônibus ou para a esteira da academia para fazer compras, conversar, produzir ou consumir informações ou serviços o tempo todo.

O impacto da tecnologia em nossas vidas ainda não foi devidamente dimensionado, mas uma coisa é certa: a mudança na forma como nos comunicamos mudou também as nossas vivências, hoje (talvez excessivamente) orientadas pela preponderância do visual em uma realidade na qual todo mundo observa todo mundo.

Podemos conhecer a pessoa em seu ângulo mais íntimo quando, por exemplo, trocamos nudes com alguém, mas corremos o risco de morrer sem saber como ela acorda no dia seguinte, numa impossibilidade de encontro que não leva em conta o tato, o olfato e outras descobertas.

Costumo dizer que, além de janelas, a internet nos oferece também muitos atalhos, e eles nem sempre nos levam aos lugares almejados da vida real. Por incrível que pareça, a atual geração de jovens faz menos sexo do que as gerações dos pais e avós, apesar da ampla disponibilidade de aplicativos e sites de namoro, segundo um estudo recente da Universidade Atlântica, da Flórida, publicado na revista científica “Archives of Sexual Behavior”. Ao menos nos EUA, apenas na Grande Depressão dos anos 1920 as pessoas eram menos sexualmente ativas.

A mesma internet que encorajou pessoas de timidez extrema a se manifestarem a distância também potencializou a covardia de quem se protege pelo anonimato. Lemos mais, conhecemos mais, compartilhamos mais, mas também ficamos mais expostos a ataques e manifestações de ódio.

Nesse mundo de superexposição, em que ter uma vida invejável é mais importante do que simplesmente viver e é preferível gravar o lance no estádio do que assistir e eventualmente comemorar o gol, vira e mexe vemos amigos passando vergonha na timeline. Ou porque não sabem sobre o que estão opinando, ou porque erraram a dose entre a vaidade e a arrogância ou porque demonstraram demais o grau de carência.

Muitas vezes pensamos que, de repente, quem sabe, valeria dar um toque - e geralmente nos censuramos porque 1-) cada um faz e posta o que quer da vida; 2-) já não temos intimidade suficiente para dar um simples toque.

Não deixa de ser contraditória a perda de intimidade com quem observamos o tempo todo em sua suposta privacidade. Na fronteira hoje confusa entre o real e o virtual, já não temos amigos, mas contatos e seguidores.

Intimidade, tanto no campo afetivo como nas relações de amizade, requer tempo de convívio, disposição e coragem. A internet, de certa forma, produziu uma redoma confortável dos conflitos e do contraditório. Postamos e saímos correndo. Deletamos. Bloqueamos. E preferimos andar entre iguais, cuidadosamente selecionados pelos algoritmos. Trocamos o contato real pela foto de nosso melhor ângulo. Ou pelo simples prazer do anonimato.

Um dos clichês mais sintomáticos da nossa falta de solidariedade, e isso desde a era pré-zuckerberguiana, é que se conselho fosse bom ninguém dava, vendia. Isso diz menos sobre nossa capacidade de nos intrometer na vida alheia do que sobre uma sociedade que aplica valores de mercado a tudo, inclusive ao tempo como investimento.

Pois, até conhecer o Sarahah, eram gratuitos os melhores conselhos que já recebi na vida, ora como bronca, ora como toque camarada, graças a um aplicativo quase obsoleto nos dias atuais: os amigos, contem-se nos dedos ou não.

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