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Homossexuais e fé: histórias de agressão, preconceito e reencontro com Deus

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oração, sofrimento, religião, igreja Imagem: Getty Images
Flávio Voight*

Opiniões

O UOL Estilo abre espaço para pessoas de diferentes áreas de atuação escreverem sobre comportamento, questões de relacionamento, sexo e outros pontos da vida cotidiana. Os textos de cada um dos autores não refletem, necessariamente, a opinião do UOL.

Colaboração para o UOL

17/08/2017 04h00

“Foi Jeová que te fez ver isso!”, eu falei, chorando. “Eu estava vendo essas coisas, mas vou apagar tudo, prometo.”

Meu irmão havia encontrado fotos de pornografia masculina no meu computador. Eu me sentia um lixo. Aos 14 anos e em uma família de Testemunhas de Jeová, eu tinha certeza de que Deus me salvaria. Bastava eu me esforçar um pouco.

Para algo que se propõe a ser um oásis de alegria e sentido num mundo atribulado, as religiões carregam uma carga de dificuldades bem grande para quem está sob o guarda-chuva LGBT. Afinal, não é fácil transar com Deus olhando.

Como eu não consegui entrevistar Deus para dar sua opinião sobre o assunto, entrevistei algumas pessoas para tentar entender como elas conciliavam a própria homossexualidade com sua fé. O primeiro foi João Carlos que, aos 28 anos, ainda está no armário e frequenta a igreja Batista. Perguntei se isso não o incomodava:

"Minha família não quer ficar sabendo"

“Eu estou bem com Deus, entende? Todo mundo tem pecado. Eu tenho esse. Preciso acreditar que Jesus não vai se importar com isso se eu for uma pessoa boa, sabe?”

“Mas você pensa em assumir um dia?”, perguntei. “Não tenho por quê. Não quero ser pedra de tropeço para ninguém”, respondeu. Eu insisti: “E se a sua família ficar sabendo?”, mas ele respondeu na lata: “Eles não querem ficar sabendo.”

João Carlos fez um voto de silêncio sobre sua sexualidade. Todos desconfiam, ninguém quer ter certeza.

"Minha fé me faz ver minha sexualidade como algo lindo"

Pai Thiago de Ogum tem 31 anos. Diz ter encontrado a paz espiritual na Umbanda. Criado numa família católica, sua frustração com a fé lhe fez procurar outros caminhos: "Minha fé me faz ver minha sexualidade como algo lindo, que emana amor e quer amor. Depois de me libertar da culpa católica, a vida ficou mais leve e isso não me atormenta já tem muitos anos.”

Mesmo trocando de religião, ele diz não julgar quem permanece numa mesma igreja mesmo sendo homossexual: “Assim como qualquer caminho que leva a Deus é digno de respeito, toda e qualquer forma de amor também o é.”

"Eu morava dentro da igreja e fui expulsa, na chuva"

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A história de amor de Aline começou e terminou na igreja. “Nós nos conhecemos em uma missão evangélica, trabalhávamos juntas na evangelização. A amizade foi aumentando até que, quando percebi, estava apaixonada por ela.”

Apesar da culpa, Aline insistiu no relacionamento. E foram descobertas: “Eu morava dentro da igreja e fui expulsa. Fizeram uma intercessão no quarto onde eu morava. Tive que ficar do lado de fora, na chuva, enquanto faziam um rito de oração lá dentro, até poder entrar e pegar minhas coisas.”

Pouco tempo depois de perder a casa, Aline também perdeu a namorada. “Eu não posso continuar assim”, disse sua companheira. “Não é o que Deus quer. Eu amo você, mas preciso voltar para a igreja.”

Perguntei a ela como isso afetou sua fé. “As pessoas na igreja me aceitavam como lésbica, enquanto isso fosse algo que eu estivesse decidida a mudar. Mas bastava eu ‘cair’, como se diz lá, para todo mundo se afastar novamente. É isso que cansa”, ela respondeu.

Mesmo com a fé balançada e vivendo abertamente um outro relacionamento lésbico, Aline ainda frequenta cultos evangélicos. “Me incomoda quando alguém acha que é dono de Deus. A gente não tem como saber o que ele quer para as pessoas. Eu acho que ele me perdoa, mas procuro ser a melhor pessoa possível. Deus é fiel, mas não é trouxa.”

"Me aconselharam a me tornar padre"

Católico, Marcel Pereira escutou no confessionário o conselho de se tornar padre, para evitar as tentações da homossexualidade. “Eu me frustrei com a religião. Por um período muito longo, vivi como ateu. Percebi que abrir mão da sexualidade seria abrir mão das minhas possibilidades de felicidade.”

Depois de um período de dificuldades na vida, Marcel sentiu falta de ter uma fé:

“Senti muito vazio e sozinho, sem saber para onde seguir. Tentei religiões não cristãs, mas elas eram muito distantes das práticas e costumes que cresci aprendendo. Eu não sentia que isso tinha o mesmo efeito em mim.”

Hoje, Marcel frequenta uma igreja Anglicana. “Lá, cada indivíduo é responsável pela interpretação das escrituras”, diz ele, “e o que importa é que a busca seja sincera e de coração.”

"Hoje, não tenho religião"

Falando de mim, novamente: sinto que se não fosse obrigado, pela minha natureza, a discordar de algo que a religião recriminava, eu estaria lá até hoje, batendo de porta em porta, feliz como Testemunha de Jeová e acreditando ter todas as respostas da vida.

Hoje, não tenho religião. Não sei se acredito em Deus. Ainda assim, tenho um São Jorge no canto da mesa do quarto, de olho no que eu estou fazendo. Na dúvida, prefiro garantir. Sem contar que o Jorge fica um charme em cima daquele cavalo.

Mais do que encontrar fé em uma religião, o é importante encontrar alguma fé em si mesmo. Depois disso, qualquer outra coisa só vem a acrescentar --incluindo a sexualidade. Até porque fé, sem tesão, não tem graça nenhuma.

*Flávio Voight é psicólogo

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