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O que Anitta e Gretchen têm em comum? Sexualidade vende música

André Muzell/Brazil News
Imagem: André Muzell/Brazil News
João Luiz Vieira

Opiniões

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Colaboração para o UOL

18/08/2017 04h00

“Sua Cara”, clipe de Major Lazer com Anitta e Pabllo Vittar sensualizando no deserto, bateu a marca de 20 milhões de visualizações em apenas 24 horas, entre 30 e 31 de julho de 2017. Tornou-se o quarto vídeo mais visto no YouTube em um dia.

Ficaram atrás apenas de “Hello”, de Adele (27,7 milhões) e “Bad Blood”, de Taylor Swift (20,1 milhões). Pouco menos de um mês antes, “Swish Swish”, de Katy Perry, com Gretchen dançando e cantando com os registros vocais e coreográficos que a fizeram famosa no final dos anos 1970, acumulou 6 milhões de visualizações. Não são números desprezíveis, mas isso vai além de uma métrica.

Anitta, 24 anos, e Gretchen, 58, viraram ícones mundiais. Independentemente das virtudes artísticas desses projetos, por que será que ambos os trabalhos propostos causaram tamanha aderência, mobilizaram extraordinariamente as redes sociais, especialmente crianças e adolescentes, apesar ou por causa do alto teor erótico?

As duas cantoras não são as únicas artistas de hoje --e muito menos isso é uma novidade histórica-- que se expressam a partir de seus atributos físicos e na capacidade de ter mais “poder” do que os outros. Turbinadas, assim, por altas doses de interferência artificial (maquiagens e próteses), e expressões estéticas construídas para fácil entendimento, como a música que prioriza ritmo, e dança que exalta a sexualidade das artistas.

O que está naqueles clipes é a boa e velha seleção sexual forjada em arte sensual. É a coisificação do alheio que domina a contemporaneidade. Não basta ser, o desejo precisa ser uma mercadoria acessível, que atinja as metas inconscientes (ou não). A sexualidade, em certo aspecto, tornou-se uma planilha de Excel.

Reprodução/Clipe Swish Swish
Imagem: Reprodução/Clipe Swish Swish

Abusa-se da linguagem agressiva e competitiva, já que competição não se trata apenas de exaltar uma posição, mas principalmente de rebaixar a outra. Elas riem da incapacidade dos feios e das “pessoas complicadas e chatas” de “pegar geral”, e vão copiar umas às outras porque o importante, nesse caso, é transferir para o corpo o modelo de empoderamento.

O sucesso, principalmente entre jovens, é decorrente da enorme quantidade de pessoas que veem nesse tipo de arte um referencial de vida: “é assim que se vence, se conquista, se empodera”. As artistas tornam-se modelos de conduta e eventualmente de corpo (goste-se disso ou não disso).

Do outro lado do espectro, as pessoas com atributos de seleção sexual inclinadas à inteligência desprezam essas “formas de cultura popular primitivas e vulgares”, seguras de que estão no topo da pirâmide sociocultural.

Se pensarmos a nossa cultura como uma linha evolutiva, podemos considerar que os atributos sexuais que valorizamos como espécie foram mudando ao longo do tempo e das estruturas culturais que construímos, mas essa mudança é mais uma sobreposição que uma substituição.

Parece lícito, por exemplo, pensar que uma natureza mais primitiva, animalesca, priorize características físicas relacionadas à força para sobreviver, além da atração física sobre o sexo oposto para se reproduzir.

Todos os animais têm critérios para avaliar a condição reprodutiva de parceiros em potencial, e isso significa que cada espécie desenvolve circuitos neurais para mapear essas características.

Lembre-se que, originalmente, adjetivos usados para expressar beleza têm a ver com palavras usadas para magia: “charme” é “feitiço”, e uma pessoa “encantadora” provoca “encantamento”, é, portanto, “mágico”.

Mae West, Elvis Presley, James Brown, Ney Matogrosso, Gal Costa dos anos 1970, Marina Lima, Madonna, Prince, George Michael, Rick Martin, Britney Spears, Nicki Minaj, Beyoncé, Lady Gaga, Shakira e Claudia Leitte, só para citar alguns nomes, cada um a seu modo, no passado ou contemporaneamente, sabiam e sabem muito bem que um corpo bem posicionado/colocado/poderoso (até mais do que uma voz) ajuda, e muito, a vender músicas e shows. E isso não é um problema para eles. Para você, é?

*João Luiz Vieira, 47, é jornalista e sexólogo, sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo. Com a colaboração do psicólogo clínico e professor de psicologia analítica Walter Mattos, e do psiquiatra Marcelo Niel.

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