Estilo de vida

Spacey joga na lama pessoas que sofrem o preconceito que ele jamais sofreu

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Kevin Spacey não foi recebido de braços abertos pela comunidade LGBT Imagem: Getty Images
Flávio Voight*

Opiniões

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Colaboração para o UOL

01/11/2017 04h00

O ator Kevin Spacey, de sucessos como o filme "A Corrente do Bem" e da série da Netflix "House of Cards", ganhou as manchetes dessa semana após as acusações feitas pelo ator Anthony Rapp, que disse que Spacey tentou forçá-lo a fazer sexo quando tinha quatorze anos.

Depois de escândalos como o do produtor Harvey Weinstein, casos de abuso e estupro entre os poderosos de Hollywood ganharam muita atenção nas redes sociais. Não foi diferente com Spacey. A repercussão das acusações de Rapp foi tamanha que a Netflix, produtora de "House of Cards", anunciou o cancelamento da produção após a sua sexta temporada.

Rapidamente, o ator enviou uma carta para a imprensa prometendo refletir sobre suas ações e assumindo publicamente sua sexualidade. Entretanto, em vez de receber os braços abertos da comunidade LGBT --como talvez esperasse-- a saída de Kevin recebeu críticas pesadas.

Isso acontece porque a discussão de agora não é sobre sexualidade: é sobre poder.

O "segredo" do ator era relativamente conhecido por Hollywood. Fofocas sobre os avanços sexuais do ator sobre rapazes menores de idade abundavam em fóruns da internet e sites sobre famosos.

Antes das acusações contra ele ganharem a mídia, Kevin recebeu todos os privilégios de um homem branco, rico, cisgênero, visto pela sociedade como heterossexual.

Mesmo que as acusações acabem com a carreira do ator em Hollywood, ele ainda vai usufruir de todos os benefícios de levar uma vida repleta de privilégios --sem assumir a própria sexualidade e sendo perpetrador de abuso.

Enquanto isso, misturando as histórias da violência sexual cometida por ele e da sua homossexualidade, o ator permite que essas acusações respinguem sobre uma comunidade que ainda é vítima de acusações de pedofilia e falta de moral com frequência absurda. Para tentar salvar a própria pele, Kevin Spacey joga na lama toda uma comunidade que conhece preconceito e violência de uma maneira que ele --protegido em sua bolha-- jamais conheceu.

Ao mudar o foco da própria violência para sua homossexualidade, Spacey reflete a dificuldade de todo abusador de compreender a ideia de consentimento: a sexualidade nunca foi o foco das acusações contra Spacey, e, sim, o fato de seus avanços serem feitos sobre menores de idade, pessoas com medo de perderem suas carreiras e que sabiam que não teriam suas vozes ouvidas caso tentassem fazer uma acusação.

Assumindo a própria homossexualidade, Kevin Spacey tenta distrair a atenção do público, levando seu foco para um ponto em que ele seria visto como minoria --quase como vítima-- colocando suas ações violentas como um reflexo do preconceito que teria medo de sentir, e da pressão de uma vida no armário.

Para os homossexuais mais vulneráveis socialmente, como as próprias vítimas dos avanços não solicitados do ator, o armário nunca foi uma opção. Diariamente, muitos LGBTs ainda sofrem com  a rejeição social e a violência, o preço de serem diferentes do padrão social que impera.

Enquanto o privilégio abusa, a homofobia mata. Não é fingindo que é uma vítima da sociedade que Kevin Spacey vai se redimir. Até compreender o que realmente é igualdade, o ator ainda tem muito o que refletir.
 

*Flávio Voight é psicólogo

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