Comportamento

As perigosas pílulas para engordar que viraram febre entre mulheres do Sudão

Yousra Elbagir/BBC
Medicamentos com cortisona estão entre remédios tomados para alcançar ideal de beleza de mulher "cheinha" Imagem: Yousra Elbagir/BBC

21/07/2017 09h31

Medicamentos com cortisona estão entre remédios tomados para alcançar ideal de beleza de mulher "cheinha"; entre vítimas fatais mais comuns estão noivas que fizeram uso intenso dessas pílulas.

Jovens sudanesas estão tomando pílulas para engordar e ganhar curvas — e assim se encaixar no padrão de beleza do país. A jornalista africana Yousra Elbagir investigou como essas mulheres estão procurando substâncias proibidas em sua busca por beleza.

Modas cosméticas que ameaçam a saúde não são novidade no Sudão. O clareamento de pele, por exemplo, é um artifício usado há anos. Mas uma nova febre tem se alastrado pelo país: as pílulas que engordam.

Sem regulação, os remédios são vendidos ilegalmente pelas mesmas pequenas lojas que vendem cremes clareadores de pele e outros itens de beleza.

Podem ser comprados individualmente, em pequenos sacos ou embalagens de doces, e não têm nenhuma informação sobre os riscos médicos.

É difícil estimar quantas mulheres no Sudão usam esses produtos para ganhar peso porque muitas não admitem o uso.

"Pílulas são distribuídas nas vilas como se fossem balas", diz Imitithal Ahmed, uma estudante da Universidade de Khartoum. "Eu sempre tive medo de usá-las porque vi parentes ficarem doentes e amigos se tornarem dependentes de estimulantes de apetite".

"Minha tia está prestes a sofrer falência nos rins e está com artérias bloqueadas por tomar pílulas que engordam na tentativa de conseguir um bumbum maior", afirma Ahmed. "Todos na família sabem que ela está doente, mas ela não admite. Ela só parou de tomar quando o médico mandou."

'Mamãe desconfia'

Pílulas do tipo são com frequência disfarçadas, e recebem apelidos que fazem referência aos seus efeitos.

De nomes como "Terror dos Vizinhos" e "Pernas de Frango" a "Mamãe Desconfia", os nomes clínicos dos remédios são ignorados e substituídos por promessas de bumbuns maiores, coxas grossas e uma barriga que fará sua mãe suspeitar que talvez você esteja grávida.

As substâncias contidas nas pílulas variam: vão de estimulantes de apetite comuns a remédios contra alergia que contém cortisona, um hormônio esteroide.

Os efeitos colaterais da cortisona são hoje uma galinha de ouro para os traficantes de pílulas. A substância é conhecida por diminuir o metabolismo, aumentar o apetite, causar retenção de líquidos e criar depósitos extras de gordura no abdômen e no rosto.

O ideal sudanês de mulher perfeita é 'cheinha' e de pele clara

Usar hormônios não regulados sem supervisão pode causar danos ao coração, ao fígado, aos rins e à tireoide, diz Salah Ibrahim, presidente da Associação dos Farmacêuticos do Sudão.

Ele explica que a cortisona é um hormônio que existe naturalmente no corpo, ajudando a regular funções vitais. Quando uma versão concentrada e artificial é inserida no organismo, o cérebro ordena o corpo a parar a produção.

Se um usuário desses remédios abruptamente para de tomar a substância, os órgãos mais importantes podem ter disfunções.

'Falência abrupta de órgãos'

Médicos dizem que jovens mulheres do Sudão estão morrendo por falência nos rins e problemas cardíacos por causas de paradas súbitas na ingestão de esteroides.

As mortes são mais comuns entre noivas e recém-casadas, que tradicionalmente passam por um mês de intenso embelezamento antes do seu dia de casamento e depois param abruptamente com o uso de pílulas de engordar e cremes branqueadores.

Os óbitos são registrados como "falência abrupta de órgãos".

Apesar de tudo isso, essas tendências de beleza continuam a crescer. O uso abusivo dessas pílulas está aumentando na sociedade conservadora do Sudão, em parte porque elas não têm o mesmo estigma de álcool e maconha — e seu uso é mais fácil de ser escondido.

Universitárias têm comprado aos montes o potente analgésico Tramadol. Cada pílula é vendida por 20 libras sudanesas (R$ 9,5).

Alguns dos vendedores de chá de beira de estrada da cidade de Khartoum são conhecidos por dissolver o analgésico em uma xícara de chá a pedido de clientes.

Muitas mulheres sudanesas veem cantora Nada Algalaa como o ideal de beleza

Reprodução/Youtube
Imagem: Reprodução/Youtube

Campanhas de conscientização têm tido pouco impacto até agora. Salah Ibrahim tem aparecido em inúmeros programas de TV para alertar sobre os perigos do uso de remédios de tarja preta.

Nas universidades, estudantes do curso de Farmácia têm sido incentivados a agir dentro da lei. Mas, em um país onde profissionais de saúde recebem muito pouco, a tentação de vender esses remédios para revendedores ilegais muitas vezes acaba prevalecendo.

"A última vez em que fui a uma loja de produtos de beleza, o dono trouxe uma caixa de chocolates cheia de pílulas para engordar diferentes", diz Ahmed, a estudante de Khartoum.

"As meninas têm muito receio de perguntar sobre os produtos a seus médicos e acabam comprando de outros locais, por medo de sofrerem humilhações públicas", afirma ela.

A polícia tem prendido vendedores ilegais e bloqueado rotas de tráfico, mas os lucros de farmacêuticos irregulares têm crescido da mesma forma.
O Sudão não é o único país da África onde estar acima do peso é um símbolo de prosperidade e poder - e uma característica que aumenta as chances de uma mulher se casar.

Mas, nessa sociedade, é uma espécie de ideal de mulher sudanesa perfeita — cheinha e de pele clara — desejada como esposa.

O status de ícone de Nada Algalaa, uma cantora sudanesa cuja aparência é amplamente elogiada e copiada, é uma prova disso. Para algumas mulheres, é um ideal a ser alcançado custe o que custar.

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