Comportamento

"Precisamos falar sobre o estupro de homens": vítima conta como sobreviveu a ataque no Congo

AFP
Stephen foi estuprado em 2011 durante um conflito no Congo Imagem: AFP

03/08/2017 13h51

"Se eu falasse sobre isso, teria sido afastado das pessoas. Mesmo aqueles que me trataram não teriam apertado minha mão".

Stephen Kigoma foi estuprado durante o conflito em seu país, a República Democrática do Congo.

Ele descreveu sua difícil experiência em uma entrevista para a repórter da BBC Alice Muthengi e pediu que outros sobreviventes também se posicionem.

"Eu escondi que era um sobrevivente de estupro. Eu não podia falar sobre isto - é um tabu", afirmou. "Como homem, eu não devo chorar. As pessoas vão dizer que você é um covarde, que é fraco, estúpido".

O estupro ocorreu quando homens atacaram a casa de Stephen, em Beni, cidade no nordeste da República Democrática do Congo, país que é palco, há décadas, de guerra civil.

"Eles mataram meu pai", conta Stephen. "Três homens me estupraram e disseram: 'Você é um homem, como vai dizer que foi estuprado?'", contou. "É uma arma que eles usam para manter seu silêncio".

O país, que é quatro vezes maior que a França, é rico em recursos naturais e os vários grupos armados, entre milícias, guerrilhas, tropas do governo e de países vizinhos, tentam tirar proveito da exploração de riquezas minerais.

Pelos 6 milhões de pessoas morreram nessa guerra e centenas de milhares de pessoas tiveram de fugir para países vizinhos.

O diplomata que há 23 anos se dedica a resolver disputa entre dois países por um nome

Polícia não é opção

A ONG, que investigou o estupro masculino no Congo, também publicou um relatório sobre violência sexual entre refugiados do Sudão do Sul no norte de Uganda. A ONG descobriu que enquanto mais de 20% das mulheres denunciam o estupro, apenas 4% dos homens o fazem.

"A principal razão para menos homens levarem a denúncia adiante é que as pessoas supõem que eles não seriam vulneráveis, que eles seriam capazes de contra-atacar. Se eles permitiram aquilo, então devem ser homossexuais", explicou Chris Dolan, diretor da organização, ao programa Focus on Africa, da BBC.

Levar os casos à Justiça e conseguir punições também representa um problema quando se trata de homens denunciando estupro, acrescenta Dolan.

"No Estatuto de Roma (que estabeleceu a Corte Penal Internacional), você tem uma definição de estupro que é amplo o suficiente para incluir mulheres e homens, mas na maior parte das legislações dos países, a definição de estupro envolve a penetração do pênis na vagina. Isto significa que se um homem denunciar, eles não terão sofrido estupro, mas violência sexual", explica.

"Há um problema na criminalização neste caso - que gira em torno da penetração e não sobre consentimento ou falta de consentimento".
Em 2016, Uganda recebeu mais refugiados do que qualquer outro país, e tem sido elogiado por ter uma das políticas mais acolhedoras do mundo.

Opioides causam um '11 de Setembro' em mortes a cada três semanas nos EUA

Mas para sobreviventes masculinos de estupro como Stephen, a vida não é fácil. Atos homossexuais são ilegais em Uganda, e ir à polícia denunciar o estupro nem sempre é uma opção.

"Quando perguntei à polícia, eles disseram que se tem algo a ver com penetração entre dois homens, é um caso gay", ele disse.
"E se aconteceu com uma mulher, vamos ouvi-la, tratá-la, tomar conta e escutá-la - dar a elas uma voz. Mas o que acontece com homens?"
 

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