Comportamento

O que são as terapias de grupo para abusadores como a que Kevin Spacey deve frequentar

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Netflix demitiu o ator de uma série e cancelou um filme estrelado e produzido por ele Imagem: Getty Images

Ricardo Senra

15/11/2017 11h18

Após acusações de assédio, ator disse que buscaria tratamento; terapeuta e autor conta à BBC Brasil que uma das atividades de programa nos EUA é reviver abuso sob ponto de vista da vítima para estimular arrependimento.

Enquanto uma sequência impressionante de 15 acusações de assédio e abuso sexual se desenrolava ao longo de uma semana em jornais, revistas e redes sociais, o ator americano Kevin Spacey divulgou comunicado à imprensa afirmando que se isolaria e buscaria "avaliação e tratamento".
A frase foi repetida pelo produtor de Hollywood Harvey Weinstein, que, poucos dias antes, foi o pivô de pelo menos 80 denúncias, envolvendo algumas das mulheres mais famosas do planeta.

Em meio ao choque causado por essas revelações, que incluem abusos contra menores de idade, muita gente também foi pega de surpresa pela resposta dos acusados. Afinal, existe tratamento para quem abusa sexualmente de adultos ou crianças? Como funciona? Qual é sua eficácia?
Para o autor do livro Group Therapy with Sexual Abusers (Terapia em grupo com abusadores sexuais, em tradução livre), recém-lançado nos Estados Unidos, o espanto com o tratamento diz bastante sobre o problema.

"Há um mito de que não se pode prevenir (o abuso). E isso perpetua o mito de que não se pode tratá-lo", diz à BBC Brasil o terapeuta Steven Sawyer, que há 30 anos atende pessoas que praticaram abusos sexuais e encara o problema como questão de saúde mental.

"De forma compreensível, nossa cultura demoniza crimes sexuais. Então, quem tem estes desejos, mas ainda não teve coragem de cometê-los, normalmente tem medo de dar um passo à frente e buscar ajuda. Assim, em silêncio, o abuso acaba se concretizando", afirma.

'Gatilhos' e origens

Criado em 2006, o Escritório de Sentenças, Monitoramento, Apreensão, Registro e Rastreamento de Infratores Sexuais do governo dos EUA aponta quatro perfis para crimes desta natureza: abusadores sexuais de crianças, estupradores, mulheres que cometem abusos e infratores sexuais na internet.

O tratamento para quem foi condenado por crimes de assédio ou estupro não substitui penas, mas pode ser indicado por um juiz para complementar períodos de encarceramento (que podem chegar a 20 anos, variando de acordo com o Estado).

Segundo o órgão, os homens são responsáveis pela imensa maioria dos casos (mulheres são condenadas por apenas 5% destes crimes) e as terapias mais bem aceitas, de acordo com uma retrospectiva de 48 publicações científicas publicadas nos EUA desde os anos 1960, são as realizadas em grupo.

"Não é incomum que os atendidos criem uma hierarquia entre as ofensas sexuais", conta o terapeuta Sawyer sobre as dinâmicas em grupo.
"Alguns homens que dizem que nunca abusariam de uma criança acham que seus ataques contra mulheres adultas são menos piores que os dos pedófilos. Há pedófilos que, por sua vez, se acham menos piores que aqueles que abusam de crianças mais novas. E essa hierarquia é extremamente destrutiva."

Contra este padrão, Sawyer costuma montar grupos heterogêneos, com idades e histórias de abusos distintas: desde homens que consomem pornografia infantil na internet aos que efetivamente abusaram de mulheres adultas ou crianças.

"A diversidade e a convivência com diferentes perfis os ajudam a entender sobre si a partir das histórias dos outros. Elas fazem com que eles identifiquem semelhanças entre seus comportamentos e os daqueles que julgam piores. Eles entendem de forma ampla o que fizeram", afirma.
O tratamento varia sempre - e o terapeuta ressalta que não é possível prever quais serão as dinâmicas aplicadas a Spacey ou Weinstein, porque não se conhece detalhes sobre seus casos.

Só nos Estados Unidos, há pelo menos 2 mil terapeutas dedicados a distúrbios sexuais.

Andrew Kelly - 10.fev.2016/Reuters
Produtor de Hollywood Harvey Weinstein foi o pivô de pelo menos 80 denúncias Imagem: Andrew Kelly - 10.fev.2016/Reuters

Técnicas terapêuticas

As sessões, geralmente, duram entre uma e duas horas. Podem ocorrer uma vez por semana ou todos os dias - quando os envolvidos estão internados em clínicas - e têm duração entre 10 semanas e dez anos, podendo ou não incluir medicação.

Como em terapias de grupo mais conhecidas, como os Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos, parte do tratamento consiste em identificar "gatilhos" ou origens para o comportamento dos abusadores.

Entre os "mitos" relacionados a estes gatilhos, segundo o especialista, está a crença de que pessoas que foram abusadas sexualmente na infância tenderiam a abusar de alguém no futuro.

"Isso acontece para alguns, mas não é comum. Traumas infantis são comuns entre as origens do problema. Um estudo recente identificou que crianças que nasceram em locais violentos tem mais chance de terem distúrbios de saúde mental, o que pode ser parte da origem do problema", afirma.

Ele continua: "Mas os gatilhos variam. Há pacientes que foram expostos cedo à pornografia, e ela ficou tão banal que eles acabam migrando para a pornografia infantil. Para outros, o comportamento abusivo é ativado por alguma dependência química. Não dá para traçar um padrão e qualquer generalização é extremamente perigosa", afirma Sawyer.

No Havaí, que abriga um dos programas públicos de atendimento a abusadores mais bem-sucedidos do país, as atividades incluem expor abusadores às gravações de ligações feitas por vítimas à polícia denunciando estupros.

O contato com a narrativa e o desespero das vítimas é uma forma de estimular o arrependimento ou a empatia entre os condenados.

Outros grupos em grandes metrópoles usam técnicas como a do "psicodrama" - em que os presentes assumem os papéis de membros da família ou das vítimas de um dos presentes e uma série de episódios importantes da vida do paciente são reconstruídos coletivamente.

"Interpretar" uma vítima ou "reviver" um abuso estimularia os envolvidos a identificar padrões ou eventos que os levariam aos crimes.

Sawyer conta a história de um homem na casa dos 30 anos, que abusou de uma vizinha de 15, com quem convivia desde pequena.

"Ele foi condenado, preso e depois enviado ao tratamento", conta o terapeuta.

A partir de dinâmicas que reconstruíram momentos importantes de sua infância em família e os principais eventos que o teriam levado a consumar os ataques, o homem contou que o pai havia abandonado a família muito cedo e que a mãe tinha um trabalho intenso, precário e instável.

"Percebeu-se que se aproximou dos vizinhos mais novos porque não tinha confiança em adultos. Seus pais não tiveram condições de ajudá-lo a crescer com autoestima e ele só sentia 'seguro' com colegas bem mais jovens. Ele se aproximou da vizinha para conversar, brincar, e isso evoluiu para um terrível abuso sexual."

O processo terapêutico se desenrolou por dois anos. "Ele não tinha consciência de nada disso. Com o tempo, aprendeu a ser mais determinado e seguro e entendeu o que o estimulava a se aproximar de menores...e não voltou a cometer crimes."

Eficácia e reincidência

Segundo estatísticas divulgadas pelo governo americano, as taxas de reincidência de crimes sexuais caem em média 40% após terapias contra abusos de adultos ou menores.

No Havaí, por exemplo, de 800 homens atendidos, 20 voltaram a cometer crimes sexuais.

Mas o departamento de Justiça americano alerta, no entanto, para o problema da subnotificação dos casos.

"Os registros oficiais subestimam a reincidência. Estudos de vítimas de agressão sexual e delinquentes em tratamento demonstram que as reais taxas de ofensas não são refletidas pelos registros oficiais", diz o órgão.

Ainda de acordo com o governo, as taxas de reincidência de criminosos sexuais são mais baixas que as de autores de outros tipos de violações - mas, assim como os demais, se tornam mais altas com o passar do tempo.

Em média, as taxas de reincidência sexual entre delinquentes sexuais variam de cerca de 5%, 3 anos após o crime, para cerca de 24%, após 15 anos.

Para o terapeuta Sawyer, o melhor caminho para reduzir a frequência dos crimes e aumentar as notificações e acompanhamento policial e médico de suspeitos está na prevenção dos crimes sexuais.

"Para muitos homens, é uma jornada terrível, torturante, e apenas crucificá-los não resolve o problema", diz. "É preciso estímulo e coragem para se perceber que há um problema e buscar ajuda. Os homens têm medo. Isso é muito forte na cultura dos Estados Unidos: espera-se que os homens sejam fortes, e expor fragilidades é sinônimo de ser fraco. Quando maior for o conhecimento sobre este tipo de atendimento, mais homens buscarão tratamento."

Segundo Sawyer, defender o tratamento não é defender a impunidade.

"Os tratamentos são sérios, científicos, e amparados por uma estrutura legal. Os pacientes se comprometem com a Justiça a falar a verdade durante o tratamento e, se mentirem, sofrem consequências", afirma.
"Eles não amenizam a pena - ao contrário, obrigam estas pessoas a parar de negar o problema e encarar seus demônios, evitando que novos crimes ocorram."

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Após denúncias contra Weinstein, muitos foram às ruas contra crimes de assédio Imagem: Getty Images

Spacey e Weinstein

Informações não confirmadas e divulgadas pela imprensa americana apontam que o protagonista de House of Cards e o produtor de Hollywood teriam se internado juntos em uma clínica de luxo no Arizona, onde um tratamento de 45 dias custaria US$ 58 mil.

Os escândalos de Kevin Spacey surgiram a partir de um depoimento do ator Anthony Rapp, que disse ao site Buzzfeed ter sido abusado pelo ator quando tinha apenas 14 anos.

A denúncia deu origem a depoimentos de outros homens, incluindo funcionários da série "House of Cards".

No processo, Spacey foi demitido por sua agência de relações públicas e perdeu seu contrato com a Netflix. Também foi criticado por anunciar oficialmente que é gay como uma suposta tentativa de desviar a atenção dos abusos.

Recentemente, em decisão sem precedentes, a Sony Pictures e o diretor Ridley Scott decidiram apagar todas as cenas de Spacey no filme All the Money in the World (Todo o Dinheiro do Mundo, em tradução livre), previsto para estrear em poucas semanas nos cinemas americanos.
O ator será substituído pelo veterano Christopher Plummer.

Já Weinstein, alvo de 80 denúncias, incluindo nomes como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow e Cara Delevingne, foi demitido da própria produtora e tornou-se persona non-grata em Hollywood.

Informações sobre eventuais processos judiciais contra os dois ainda não foram divulgadas.

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