Comportamento

'Como posso comer se estou morto?': conheça a síndrome do cadáver ambulante

Warren McKinlay
Pacientes como o soldado britânico Warren McKinlay acreditam que estão mortos ou que seus órgãos não existem mais Imagem: Warren McKinlay

Pippa Stephens

BBC World Service

04/12/2017 19h28

"Foi um período de absoluta escuridão. Eu acreditava que tinha morrido". Recuperando-se de um sério acidente de moto, Warren McKinlay começou a pensar que não existia mais, que estava morto. Então, o soldado britânico parou de comer porque achava que não precisava mais.

"Terapeutas podiam até tentar falar comigo, mas eu dizia: por que tentar melhorar se eu estou morto?", conta ele.

Warren, de 36 anos, vivenciou a síndrome de Cotard, também conhecida como síndrome do cadáver ambulante - um problema psiquiátrico que afetou menos de 100 pessoas no mundo desde que foi descrita pelo neurologista francês Jules Cotard, em 1880.

Quem apresenta a síndrome acredita que está morto, ou apodrecido e que seus órgãos desapareceram ou necrosaram.

Casos como o de Warren já foram relatados em países como China, Índia, México, Estados Unidos e Suécia. Essa ilusão de "morte" se apresenta de diferentes formas.

Um mexicano foi levado ao hospital depois de dizer para sua família que seu pênis havia diminuído até desaparecer. Aos médicos ele afirmou que não tinha mais olhos nem coração - alegava que eles haviam sido removidos por um médico em uma sala de emergência. O homem também dizia que sua mão esquerda estava morta.

Em Portugal, após perder seu marido repentinamente, uma pensionista de 66 anos de idade começou a ficar desconfiada: ela decidiu parar de comer até quase morrer de fome, reclamando que seu esôfago e seu estômago estavam colados. Ela foi internada em um hospital depois de perder 19 quilos.

Na Caxemira, uma dona de casa de 28 anos foi internada depois de dizer que seu fígado estava podre e que seu coração e estômago não existiam mais. Ela dizia que não sentia seu corpo quando andava.

Já uma britânica de 59 anos procurou ajuda médica, pois acreditava que era um cadáver podre e que suas pernas estavam caindo.

'Eu não tinha nenhum sentimento'

No caso do soldado Warren, ele acredita que seus delírios de morte decorrem de como ele lidou com seu acidente de moto.

Ele bateu em uma árvore quando voltava para casa depois de um treinamento no exército britânico - o soldado estava prestes a embarcar para o Afeganistão. No acidente, Warren fraturou a pelvis e a coluna, além de ter danos no cérebro.

"Não me lembro de nada. Não lembro de bater na árvore nem de quebrar os ossos do meu corpo", diz o soldado, que teve uma filha durante a recuperação . "Eu esperava me lembrar do sentimento de dor, mas não conseguia. Eu não tinha nenhum sentimento, e era difícil me importar com qualquer coisa."

Segundo o soldado, a falta de memória do episódio o fez acreditar que tinha morrido no acidente. Meses depois, ele foi internado no Headley Court, um hospital no sul da Inglaterra. Para ele, o local era como "uma sala de espera fantasmagórica".

"Homens e mulheres voltavam de zonas de guerra (para o hospital) com ferimentos horríveis e com histórias de mortes, e eu acreditava que estava em uma espécie de vida após a morte", conta ele.

Médicos e enfermeiros perguntavam por que, caso estivesse morto, ele havia escolhido ficar em um hospital e não em outro lugar. "Eu pensava que era uma punição", diz Warren.

Ter sofrido ferimentos no cérebro é uma das condições para o desenvolvimento da síndrome de Cotard. Outros indutores podem ser depressão severa e esquizofrenia, segundo Helen Chiu, professor de psiquiatria na Universidade Chinesa de Hong Kong.

A síndrome também é associada ao Mal de Parkinson, febre tifóide, enxaqueca, esclerose múltipla e complicações de transplante de coração.

"Além de razões biológicas, fatores psicológicos e sociais também são relevantes", explica o professor Chiu. "A personalidade, família, circunstâncias financeiras e sociais, além de eventos da vida da pessoa vão moldar como serão os delírios (de morte)", diz.

Essas imagens podem durar semanas ou mesmo anos. Apesar da síndrome afetar pessoas mais velhas, há registros de casos em adolescentes e crianças.

Não há causas únicas da síndrome de Cotard, no entanto. Muitos dos estudos científicos sobre a doença são baseados em casos individuais, devido à sua natureza rara.

Segundo estudo de 2010, liderado por Jesús Ramírez-Bermúdez, do Instituto Nacional de Neurologia e Neurocirurgia do México, a síndrome de Cotard pode ser um resultado de dois fatores combinados: pacientes que sofreram acidentes traumáticos, como o caso de Warren, podem desenvolver um sentimento de vazio.

Essa sensação, combinada com a perda de habilidade de acreditar em algo e o sentimento de culpa, pode resultar na Cotard, segundo o estudo.

Razões neurológicas incluem baixa atividade metabólica em regiões do cérebro responsáveis pela introspecção, redução ou aumento do tamanho do cérebro, danos logo atrás da testa - região importante para controlar o raciocínio e o comportamento.

Warren diz que encontrar outro portador da síndrome o ajudou a se recuperar. Depois de voltar para a casa de sua família, ele começou a melhorar.

"É um pouco inadequado dizer isso, mas hoje dou risada quando penso sobre o que aconteceu", diz.

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