Comportamento

Doenças põem a vaidade feminina em xeque

ANGELA SENRA
Colaboração para o UOL

Desde pequena a mulher aprende o poder da beleza e sua associação com a saúde. Mas o que acontece quando ela se vê diante de um acidente ou uma doença grave que depende de um tratamento agressivo que modifica seu corpo e a faz sentir menos feminina, como o câncer? Diante da preocupação primordial com a sobrevivência, como lidar com a perda de cabelo, das mamas, de ovários e do útero, tão ligados à sua feminilidade? A psicóloga Bernardete Casali, que trabalha com pacientes oncológicos, diz que o impacto psicológico nestes casos muitas vezes pode ser mais devastador do que a ameaça da morte. “Nossa sociedade não poupa os que sofreram algum tipo de prejuízo físico e deixa claro que as diferenças causam estranhezas. Diante da discriminação e da fragilidade é que a mulher tem de repensar valores, refazer caminhos, enfrentar lutos e se redescobrir”.

Ainda que pareça ser um mal menor diante da doença, a queda de cabelo é uma questão delicada. “Ouvi de uma paciente o seguinte: ‘Primeiro me tiram a mama, depois colocam algo que não é meu (prótese mamária) e agora vai cair meu cabelo. Tudo está confuso.’ Esta mulher não está falando da ameaça da morte em si, mas conta de como perdeu o controle sobre sua vida e que agora precisa adaptar-se a uma nova condição que exigirá dela um exercício emocional doloroso”, diz Bernardete.

Apoio familiar

Um caminho difícil, que pede acompanhamento psicológico e da família, afirma a psico-oncologista do Hospital A. C. Camargo, de São Paulo, Christina Haas Tarabay. “As transformações ocorridas devido à doença deixam sequelas psíquicas, por isso é fundamental o apoio terapêutico e o suporte dos familiares. Pela minha experiência, percebo que quando isso acontece a recuperação é mais rápida”, diz ela.

A dentista Simone Sarolli Preisner Braga Côrtes, de 42 anos, pode contar com este apoio. Há 12 anos ela foi diagnosticada com câncer de mama e passou por seis sessões de quimioterapia e 30 de radioterapia, que a fizeram engordar 12 kg. “Só então eu soube da importância de ter ao lado um marido maravilhoso como o meu, companheiro fiel e amigo de todas as horas. E pais e irmãos maravilhosos, que nunca pouparam esforços para apaziguar meu sofrimento.”

Agora ela está sendo colocada à prova novamente. Quando, recentemente, resolveu fazer uma cirurgia plástica de mama para corrigir a retração causada com o passar dos anos pela radioterapia, descobriu-se um nódulo na mama esquerda. A cirurgia para remoção das glândulas mamárias e colocação das próteses nos dois seios não deu certo. “Fiquei como um homem. Estou em novo tratamento que me devolveu a esperança e autoestima. Mas, mesmo ao perder o cabelo, os seios, a beleza e engordar 10 kg, não perdi a esperança de me ver curada novamente. Tenho ainda mais uma cirurgia pela frente sempre com a certeza de dar a volta por cima e ter meus belos seios de volta.”

O olhar do outro

Nesta fase, especialmente quando é necessária uma cirurgia mutiladora ou há perda de cabelo, é que a mulher começa a enfrentar também o olhar dos outros e, para isso, precisa primeiro aceitar sua imagem

Christina Haas Tarabay, psico-oncologista

Segundo Christina, num primeiro momento, quando o diagnóstico é apresentado, a preocupação principal da mulher é a sobrevivência. Somente com o início do tratamento e suas consequências é que surgem as questões estéticas. “Nesta fase, especialmente quando é necessária uma cirurgia mutiladora ou há perda de cabelo, é que a mulher começa a enfrentar também o olhar dos outros e, para isso, precisa primeiro aceitar sua imagem”, diz a psico-oncologista.

A consultora ambiental Gabriela Raggio, de 31 anos, que há cinco anos foi diagnosticada com um linfoma, lembra que foi muito sofrido na época aceitar a perda de cabelo. “Engordei 8 kg, não podia tomar sol, tive enxaquecas e sentia um gosto horrível na boca, mas ficar sem cabelo foi a pior parte, eu me sentia horrível. Não queria usar peruca, mas encontrei uma que ficava bem natural e me adaptei”, conta.

Para driblar a falta de sobrancelhas e cílios, usava maquiagem e para manter o astral elevado manteve as aulas na academia. “Antes eu passava três horas malhando. A doença me fez desapegar da vaidade e a valorizar outros aspectos da vida, por isso reduzi para uma hora e usava as outras duas para caminhar ou tomar um sorvete.”
Gabriela superou alguns mitos. No auge do tratamento arrumou novo emprego e um namorado. “Convivi com mulheres na mesma clínica que viveram intensamente a doença. Eu enfrentei saindo para a balada, não fugi da vida”.

Mudança de foco

Para a psicóloga Kátia Horpaczky, pedir e aceitar ajuda, principalmente profissional, auxilia no processo de superação. “Conversar, não se esconder, superar a vergonha e descobrir novas formas de beleza e de lidar com o corpo e com a sexualidade são fundamentais”.

Se durante o tratamento de câncer não é permitido fazer massagens ou tirar cutícula, é preciso buscar outras formas para se sentir bem. “A vaidade é possível em qualquer situação e é preciso descobrir suas outras formas”, diz a psicóloga Cecília Zylberstajn.

A primeira reação foi de choque, mas achei minha careca simpática e adotei um visual exótico, com roupas coloridas usadas por monjas na Índia. Minha autoestima ficou em alta, pois os amigos adoraram e eu mais ainda

Lucila Fernandes Lima, 60 anos

Foi o que fez a advogada ambiental Lucila Fernandes Lima, 60 anos, diagnosticada no ano passado com várias neoplasias malignas. Depois de três meses de tratamento, o cabelo começou a cair em tufos e ela decidiu ficar careca. “A primeira reação foi de choque, mas achei minha careca simpática e adotei um visual exótico, com roupas coloridas usadas por monjas na Índia. Minha autoestima ficou em alta, pois os amigos adoraram e eu mais ainda.”

Foi uma saída num momento em que ela não se encontrava. “Sentia dores, enjoos, mal-estar, fraqueza, dificuldade para andar, meu corpo mudou totalmente, engordei”. Para completar, um dia acordou com barba. “Quase morri ao me ver no espelho, mas a barba sumiu em dois dias, para meu alívio. O mais difícil de superar foi a ausência de sobrancelhas. Quando elas sumiram descobri que minha vaidade estava ligada às sobrancelhas. Chorei muito e aí sim a minha autoestima se abalou”, lembra Lucila.

Hoje a vaidade de Lucila mudou. “É mais intelectual e filosófica, não tem um sentido ilusório. Estou viva e com a doença contida, um verdadeiro milagre, como diz meu médico. A doença me fez rever valores e a estética passou a ter um peso relativo diante de uma situação limite em que a morte está sempre rondando”, afirma.

Vida amorosa

Bernardete explica que estas perdas transitam no imaginário feminino como ameaças à vida sexual. “Ela não sabe como fará para se tornar novamente desejável aos seus olhos e aos olhos de seu parceiro e a fantasia de rejeição pode criar um movimento de isolamento, correndo o risco de não reconhecer mais sua feminilidade.”

Com o tratamento é comum a perda da libido, que é passageira. “O diálogo e a tolerância entre o casal é fundamental para a retomada do prazer, pois muitas vezes o parceiro pode ter medo de machucar a mulher e ela entender como rejeição”, diz Christina.
Lucila conta que seu relacionamento mudou para melhor. “Novos laços de solidariedade e cumplicidade surgiram, muito apoio e atenção, e até hoje um companheirismo mais acolhedor.”

Mudança de vida

Conversar, não se esconder, superar a vergonha e descobrir novas formas de beleza e de lidar com o corpo e com a sexualidade são fundamentais

Kátia Horpaczky, psicóloga

A jornalista Valéria Baraccat, 48 anos, que em 2004 descobriu estar com câncer no seio direito, passou por cinco cirurgias e sessões de quimioterapia. Não perdeu cabelo, mas ficou sem sobrancelha e ganhou alguns pelos no queixo. “Isso me incomodou demais, mas a superação da doença foi mais forte. Resolvi o problema da sobrancelha com a definitiva e vou fazer laser no queixo”, diz ela.

Para driblar o abatimento, a falta de disposição e a insônia causados pela menopausa induzida a que foi submetida, procurou ajuda na terapia, na acupuntura e nos exercícios. “Resgatei minha autoestima, a primeira coisa que perdi. A atividade física não me deixou engordar e ajudou a combater todos os efeitos colaterais”, conta ela.

Durante o período de tratamento, Valéria teve dificuldade para encontrar respostas às dúvidas. A experiência resultou na criação do Instituto Arte de Viver Bem, que já lançou duas cartilhas com informações sobre o câncer de mama. E lhe deu uma nova atividade, a de palestrante.

Faca de dois gumes

A vaidade pode também ser a causa de muitos problemas. Foi o que aconteceu com a ex-empresária Joana*, 43 anos, que aos 18 anos aplicou silicone líquido nas pernas para ficarem mais bonitas. Há oito anos ela convive com feridas e inchaço na perna direita, um problema incurável decorrente da substância presente em seu organismo. “Já fui aos melhores hospitais e médicos do mundo, não há solução para o meu caso. Fiz três enxertos, tomo antibióticos e a cada 15 dias me submeto a um procedimento de limpeza. Com isso consigo viver sem dor e controlar as feridas”, relata.

Joana não pode mais usar saia ou sapatos, passa a maior parte do tempo de chinelos e sentada com as pernas para cima. “Tenho a sorte de poder me tratar e de ser magra, pois não posso fazer exercícios. Meu sonho é um dia poder voltar a andar a cavalo, correr, dançar, nadar, mas não reclamo. Tenho uma vida feliz.”

* O nome foi trocado a pedido da entrevistada


 

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.title}}

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Comportamento
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
UOL Estilo
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
do UOL
Redação
Redação
UOL Estilo
Redação
Redação
Comportamento
do UOL
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Topo