Comportamento

Cross-dresser gosta de se vestir de mulher, mas não quer mudar de sexo

Carlos Cecconello/Folhapress
O cartunista Laerte, que aderiu ao guarda-roupa feminino no dia a dia Imagem: Carlos Cecconello/Folhapress

ANGELA SENRA
Colaboração para o UOL

09/11/2010 00h01

O que você faria se, ao chegar em casa encontrasse seu marido usando saia, lingerie, sapatos de salto alto, bijuterias e maquiagem? Se nunca pensou nisso, talvez seja o momento de avaliar a possibilidade. Há anos homens trocam os ternos e as gravatas por vestidos de seda e sandálias de tirinhas e mesmo assim continuam casados com suas mulheres, felizes com sua condição masculina. E, em muitos casos, elas nem sonham que isso acontece. Estes homens são chamados de cross-dressers, um título em inglês que procura distinguir os adeptos desta prática dos travestis que se prostituem. “Além disso, os travestis vivem o dia a dia como mulher, enquanto os cross-dressers, como homens”, explica a psicóloga Eliane Chermann Kogut, que defendeu tese de doutorado sobre o assunto.

Desde o ano passado o cartunista Laerte, de 59 anos, está despertando o interesse dos fãs não só por causa do seu trabalho, mas também por sair “montado” em público. A aproximação com o mundo do cross-dressing aconteceu via seu personagem Hugo, que certo dia resolveu experimentar o guarda-roupa feminino. Além disso, ele está lançando o livro "Muchacha", com uma personagem travesti. Com a mudança, ele passou a chamar mais a atenção e não ignora as risadinhas e olhares de reprovação. “Seria mentira se eu dissesse que a opinião alheia não me abala, mas estou fazendo o que meu coração pede. Meu objetivo é combater o medo e garantir minha liberdade”, diz ele, que exibe um corte de cabelo feminino, pinta as unhas, usa bijuterias, anda de saltinho e tem uma namorada.

Ditadura de gênero

Laerte afirma que sua motivação é o inconformismo com a ditadura de gênero. “As mulheres usam roupas masculinas desde o início do século passado, por que o contrário não pode acontecer?”, questiona o cartunista. Veja a entrevista de Laerte abaixo:

Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo, tudo que foge do padrão causa estranheza e desconcerta as pessoas. “O preconceito se deve muito à falta de conhecimento e às tradições e conceitos arraigados, sem nenhuma base, de que este comportamento está ligado à sexualidade. Na nossa cultura ficou convencionado que a mulher é quem deve se arrumar, mas em muitas tribos indígenas quem se enfeita é o homem e ninguém questiona.”

Eliane explica que os cross-dressers não têm dúvidas sobre seu gênero e não querem mudar de sexo. “Pode até acontecer de um cross-dresser ser gay, mas não é comum. Tanto que não encontrei homossexuais na minha pesquisa, apenas héteros e bissexuais.”

Fantasia e realidade

Para Laerte, o cross-dresser é o questionamento de uma tradição cultural repressiva e não tem nada a ver com moda ou fetiche. “Sexualidade é uma coisa, gênero é outra”, diz ele.

O advogado Márcio*, 47 anos, casado e pai de duas filhas, assume possuir duas identidades de gênero. “Eu tenho orgulho de ser homem, mas gosto de me ‘montar’ e me passar por mulher. Desde a infância tenho este desejo e só na vida adulta pude realizá-lo”.

Ele prefere não se expor para preservar as filhas, mas além do guarda-roupa completo de uma mulher de 1,80 m, Márcio é totalmente depilado, fez laser para extinguir a barba, mantém o cabelo bem tratado e tomou hormônios para ganhar seios. Para evitar o preconceito esconde as mamas com faixas e camisa larga. “Só alguns amigos íntimos e meus pais sabem. No trabalho, ninguém imagina, mas, se alguém descobrir, vou agir com naturalidade”.

Exposição controlada

 

  • Reprodução

    Reprodução do site Brazilian Crossdresser Club

No Carnaval, vários homens abusam da indumentária feminina, com seios e cílios postiços e isso é aceito porque se trata de uma fantasia. Fora da festa popular, porém, “montar-se” da cabeça aos pés não tem nada a ver com fantasia. “Eu não me visto para transar, não tenho ereção com isso, não tem nada a ver com um fetiche sexual”, diz Márcio.

Carmita explica: “O grande objetivo é a figura feminina que os cross-dressers constroem. Eles não têm uma personalidade duvidosa, não querem mudar de gênero”.

Mesmo assim, nem sempre se aventuram pelas ruas “montados”. “O medo de serem reconhecidos é grande, por isso preferem se reunir em grupos”, diz Eliane.

Para isso servem os clubes, como o Brazilian Crossdresser Club, que existe desde 1997, do qual Márcio participa. Eles promovem viagens, fecham hotéis para uma programação em fins de semana e até cruzeiros nos quais, além dos crossdressers, participam toda a família – os filhos e as esposas ou namoradas.

Por quê?

Não se sabe com certeza o que leva homens e mulheres a desejarem se vestir como pessoas do sexo oposto, mas segundo Carmita, na infância, ao longo do desenvolvimento da identidade, o desejo pode se manifestar e sumir. “Ou permanecer ao longo de toda a vida, em segredo ou não”.

Essa necessidade que incomoda a sociedade conservadora, tradicional e preconceituosa pode ser motivo de muito sofrimento e angústia quando não consegue ser partilhada e exposta. “Acreditamos que as pessoas possam ter propensão a ser crossdressers e que o desejo se manifeste em momentos de grande angústia. Também existem as hipóteses dos cross-dressers terem tido pais muito severos ou omissos e que eles não queriam como modelo. No imaginário destes homens a imagem da mulher funciona como conforto”, diz Eliane.

*O nome foi mudado a pedido do entrevistado

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