Comportamento

Até que ponto é normal ter vergonha dos pais, como Antenor, de "Fina Estampa"?

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Personagens Antenor (Caio Castro) e Griselda (Lilia Cabaral), de "Fina Estampa" Imagem: Divulgação

KATIA DEUTNER

Colaboração para o UOL

31/10/2011 07h00

Griselda (Lilia Cabral, em "Fina Estampa") ficou conhecida como "Pereirão" devido à profissão, tradicionalmente masculina, que a personagem encontrou para sustentar três filhos e um neto. Apesar de seu esforço, seu filho, o futuro cirurgião plástico Antenor, tem muita vergonha de sua mãe e da origem humilde da família. A história da novela, porém, não existe só na ficção.

"A vergonha é um sentimento que todos têm e que ajuda o ser humano a regular sua ação. É comum, principalmente na adolescência, quando o indivíduo está reorganizando alguns aspectos de sua identidade, caminhando rumo à independência e autonomia”, explica a psicóloga e psicopedagoga Ana Cássia Maturano. "Ter vergonha dos pais e até rejeitá-los é a expressão da vergonha de si próprio e de seus aspectos infantis."

Vergonha do quê?
Enquanto Griselda era pobre, Antenor chegou a contratar uma atriz para se passar por sua mãe. Vergonha da condição financeira, do jeito de se vestir, do trabalho e até da aparência eram algumas de suas explicações para tal atitude. Mas a verdade é que o sentimento pode ser desencadeado por qualquer motivo. "Mesmo que os pais sejam pessoas ótimas, inteligentes, cultas, bem humoradas, os filhos começam a ter esse comportamento, em função da vontade de exercer alguma autonomia e independência", afirma a psicóloga Jane Felipe, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

E os sintomas são claros: não gostam de ser vistos com os pais e implicam com tudo aquilo que falam ou fazem. "Meninas ridicularizam suas mães, numa espécie de competitividade. Reclamam dos modos, das roupas ou atitudes. Estão sempre prontos a desferir alguma crítica, muitas vezes, de forma agressiva e desrespeitosa, em especial quando acontece publicamente", diz Jane Felipe.

Na novela, Antenor não quis apenas esconder sua condição financeira, mas, também, a falta de instrução da mãe, Griselda. “É comum à medida que os jovens estudam e adquirem novos conhecimentos”, compara a psicóloga. E isso não é sinal de falta de caráter, desde que haja respeito.

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    Em cena da novela "Fina Estampa", Antenor diz a Griselda que sente vergonha dela


Entenda o sentimento
Mesmo sabendo que isso é uma fase, o ser humano é racional e quer buscar um motivo para justificar tanta vergonha. Uma das explicações pode ser o fato de o adolescente deixar de idealizar os pais, que eram heróis para eles até outro dia. “Neste momento, os filhos enxergam e exageram as falhas dos adultos. Discordam de tudo. A vergonha é um modo de dizer: ‘quero que você não apareça, que ninguém lhe veja’. O que se manifesta é a oposição, mas a antiga idealização não foi banida do inconsciente, por isso, os filhos se esforçam para marcar a contraposição e o enfrentamento", explica a psicanalista Adela Stoppel de Gueller, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Quando deixa de ser normal
Diferenciar-se dos pais, definir sua própria identidade, amadurecer e crescer. Tudo certo, até aqui -desde que os filhos não desrespeitem os pais, a atitude não seja de intensidade elevada e não imponha limites à vida de um ou do outro. "O normal é contrariar em seu discurso o que os pais falam e fazem. O prejudicial é somente conseguir mostrar essa discordância por meio de atitudes agressivas ou hábitos inadequados, como drogas, bebidas e notas baixas", explica a psicóloga Silvana Martani, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.

É preciso se preparar para esta fase da adolescência e momentos de turbulência na relação familiar. “Mas os pais devem estabelecer limites para não serem desrespeitados sistematicamente pelos filhos. Conversar, expor seus sentimentos e dizer o quanto se sentem magoados com as atitudes agressivas e deselegantes", diz psicóloga Jane Felipe.

Ao perceber que o filho não consegue mais controlar sua agressividade; quando a relação familiar fica difícil ou o sentimento está limitando-o de fazer coisas normais de sua idade, é hora dos pais procurarem ajuda profissional.

Comercial retrata vergonha

Provavelmente, você já assistiu à propaganda de um carro em que o filho pede para o pai parar antes do portão da escola. O pai, percebendo a atitude do garoto, pergunta se ele sabe surfar, se já "pegou" alguma garota ou toca guitarra. O garoto responde negativamente às perguntas. E o pai encerra: "Se alguém tem que ter vergonha aqui sou eu". Apesar de engraçada, os especialistas consultados pelo UOL Comportamento acreditam que esta atitude é prejudicial e não deve ser copiada.

Não ajuda em nada uma disputa do tipo "quem tem mais vergonha de quem". “É infeliz, pois coloca um ideal do que deve ser feito, sentido e pensado na adolescência. É uma violência com o filho, que cria determinadas expectativas, afinal, cada um tem o seu tempo”, diz Jane Felipe. “O adolescente está fragilizado e é preciso respeito. No comercial, o pai escancara algo que para o jovem está difícil administrar", afirma Adela Stoppel de Gueller.


Atitude certa
O melhor a fazer é respeitar o momento de reorganização do filho e não insistir para que as coisas sejam diferentes. “Se ele se incomoda com o pai buscando-o na escola, compreenda e combine outro local para se encontrarem. Apesar de ser difícil, é uma fase natural e delicada que tende a passar. Também não dá para bancar o amigão da turma e tratar o filho como criancinha, com piadas inconvenientes. Ninguém gosta disso", diz a psicóloga Ana Cássia Maturano.

Pequenas alterações na forma de lidar com o jovem na frente dos amigos são muito eficazes. “Às vezes, o que incomoda são coisas pontuais que os filhos sabem mencionar. Então, é hora de negociar”, afirma Silvana Martani. E à medida que o jovem amadurece, esse comportamento tende a desaparecer. "Mas é preciso que os pais se posicionem e mostrem o quanto estão sendo desrespeitados por seus filhos, normalmente, sem razão alguma", afirma Jane Felipe.

Inverta o jogo
Mostre para o filho rebelde que há valores mais importantes. Converse, pergunte claramente quais os motivos que o levam a ter este comportamento e qual forma podem minimizar situações constrangedoras para ambos. Só não force a barra ou seja agressivo, para não piorar a situação. O melhor é uma conversa franca, quando ambos estiverem calmos.

Outra atitude a ser tomada é observar-se. Será que os pais não dão motivos para os filhos terem vergonha? Usar shortinho e blusa decotada para ir buscar na escola ou dar escândalos quando o filho ultrapassa a linha da água nas canelas na praia já é exagero. "Os pais devem valorizar o respeito e a consideração que estão implícitas no vínculo", explica Silvana Martani.

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