Comportamento

Dois presentes, duas histórias: veja como é o Natal das crianças de pais separados

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Mãe ou pai? Crianças de pais separados celebram o Natal, em geral, no ano ímpar com um e par com outro Imagem: Thinkstock

ANDRESSA ROVANI

Colaboração para o UOL

Este é o ano “não” para o bibliotecário Alberto Cirilo Paz de Lima, 33. Por isso, a noite de Natal será celebrada sem o filho, Pedro Henrique, 8, que passará a data com a mãe. “Ficou acertado na Justiça que os anos ímpares são com ela e os pares são comigo”, explica Paz de Lima. Eu que entrei com o processo. Assim fica claro para mim, e para a criança também, qual é a programação.”

Separado da ex-mulher desde 2004, os três  –pai, mãe e filho–  nunca passaram um Natal juntos depois disso. “Ainda não chegamos a esse nível de maturidade”, brinca o bibliotecário. E acrescenta: “Na verdade, isso nem caberia, porque nossas vidas já seguiram rumos distintos, sendo o filho a única coisa que ainda faz com que tenhamos contato”.

Por causa da idade, Pedro Henrique ainda não pode escolher com quem quer passar o Natal e alterna, desde pequeno, as celebrações de fim de ano entre o pai e a mãe. No dia seguinte à festa, há a troca. O Natal, entretanto, não é a mesma coisa sem o filho por perto, diz o pai. “Natal para mim é mais família. Abala um pouco não ter ele por perto, mas a perspectiva de que estarei com o Pedro logo no dia seguinte ameniza bastante qualquer angústia.”


Pedro, que está sob a guarda da mãe, tem, de um lado, pai e madrasta; de outro, mãe e padrasto. Os meios-irmãos ainda não apareceram. A vantagem é ser mimado pelas duas famílias que, para ele, é uma só. No próximo Natal, assim como nos outros anos, Pedro terá o direito de escolher dois presentes: um virá do pai, o outro da mãe.

  • A guarda na maioria dos casos fica com a mãe


Novas estruturas familiares
Assim como o Pedro, milhares de crianças devem receber dois presentes no Natal. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que o Brasil atingiu em 2010 o seu maior nível de divórcios em 26 anos: 1,8 para cada mil habitantes com 20 anos ou mais. Dos casais que se divorciaram no ano passado, quase 60% tinham filhos –um universo de cerca de 145 mil crianças que deixaram de conviver com o pai e a mãe juntos. A guarda, na maioria dos casos, fica com a mãe.

“Hoje, para a criança, ter outras famílias é absolutamente natural. São as famílias-mosaico, que vão se reestruturando”, diz o advogado de direito da família, Rolf Madaleno, diretor nacional do IBDFam (Instituto Brasileiro do Direito de Família). “Negar novas realidades é impedir a vida social da criança motivado por um interesse mesquinho.”

“Muitas vezes, o filho se presta a atender as picuinhas dos adultos. Mas, se o pai ou a mãe casou de novo, por que ignorar essa nova família?”, diz Madaleno. A decisão sobre onde o filho deve celebrar a chegada do Papai Noel deve ser feita pensando no benefício da criança. “É praxe alternar os anos em que o filho passa o Natal com um ou com outro. Mas o Judiciário não é um calendário. Os pais devem ajustar entre si, no dia a dia, essa comunicação.”

Foi o que aconteceu com a pequena Anna Luísa, a Lulu, 2. Um acordo informal entre pai e mãe estipulou as regras para o primeiro Natal da filha após a separação do casal. Lulu estará durante a ceia com a mãe em uma festa de família e, em seguida, vai para a casa do pai, onde passará a noite. Se o sono vier antes, ela vai para a casa do pai no dia seguinte, para o almoço.

“Este ano o Natal vai ser complicado”, diz a publicitária Giuliana Vaia, mãe e responsável pela guarda de Lulu. “A gente nunca espera que vá se separar e ter que decidir qual dos dois vai passar o Natal sozinho”, diz Giuliana, que chegou a um consenso com o ex-marido considerando a importância da festa de Natal para a família dela e a possibilidade de levar a filha, na mesma noite, até a casa do pai.

Giuliana conta que a filha ainda não questiona a decisão. “Eu expliquei que ela vai encontrar o Papai Noel em uma festa com a bisavó, as tias, toda a família. E depois, vai encontrar os primos na casa do pai”, diz. “Lulu está levando na boa, mas às vezes dá um nozinho na cabeça dela.”

O nozinho, porém, não impediu Anna Luísa de perceber, mesmo que a seu modo, a vantagem de ter duas famílias. Para uma delas, Lulu pediu de Natal um doce de leite. Para outra, uma motoca.

 

 

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