Sexo

Abordada no cinema, dependência de sexo pode destruir a vida de quem sofre do problema

Divulgação
Michael Fassbender em cena de "Shame", filme em que interpreta o personagem Brandon Imagem: Divulgação

Heloísa Noronha

O filme "Shame", lançado nos cinemas em março, tira das sombras um assunto polêmico e espinhoso: a dependência sexual. No filme de Steve McQueen, o publicitário Brandon (Michael Fassbender) faz sexo de maneira incontrolável e tem a rotina abalada com a visita da irmã mais nova, Sissy (Carrey Mulligan). Os atores Michael Douglas e David Duchovny e o jogador de golfe Tiger Woods são notórios compulsivos, mas, longe dos holofotes, o problema não tem nem um pouco de glamour. Pelo contrário: a pessoa perde o controle da própria vida, desperdiça dinheiro e corre até risco de morte. Veja, a seguir, as principais características desse cruel transtorno de personalidade:

O que é
De acordo com o psicólogo e terapeuta sexual Itor Finotelli Jr., pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa do Instituto Paulista de Sexualidade (GEPIPS), não é quantidade de sexo que caracteriza um dependente, mas a maneira com que ele lida com a sexualidade e o investimento que coloca nela. "O sexo domina a vida da pessoa. É o caso de quem passa oito horas na internet vendo imagens pornográficas para se excitar. O dia gira em torno disso", explica. O especialista ainda diz que o compulsivo sexual tem a impressão de que algo muito ruim vai acontecer com ele se não ceder aos impulsos.

Quando começa
De acordo com a psicóloga e sexóloga Regiane Garcia, as experiências vividas na adolescência podem ser cruciais para o desenvolvimento do distúrbio. "Essa fase, que marca a transição da infância para a idade adulta, é muito movida a prazer. Os jovens têm dificuldade em adiar o prazer e costumam agir por impulso. Já o adulto maduro sabe se programar e consegue lidar com a espera", explica. Para o psiquiatra Aderbal Vieira Jr., do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo, a manifestação da dependência, porém, começa a surgir por volta dos 35 anos, idade em que a pessoa já conquistou algumas coisas e desfruta de certa estabilidade. 

Perfil do dependente
O sexo é, foi e sempre será um componente forte na vida da pessoa, que também apresenta baixa tolerância aos desejos e às frustrações. A maior parte dos dependentes pertence ao sexo masculino. Não há estudos conclusivos sobre os motivos, mas uma explicação plausível é que os homens desde cedo são socialmente estimulados a se interessar por sexo, o que não acontece com as mulheres. "E, em geral, os transtornos de personalidade, como é o caso da compulsão sexual, nunca andam sozinhos. Os dependentes de sexo podem fazer uso de substâncias ilícitas, ser viciados em jogo ou comida etc.", explica Itor Finotelli Jr. A depressão, via de regra, também dá as caras.

Prejuízos
E como o sexo é uma espécie de válvula de escape para um vazio que não tem fim, a angústia nunca acaba. "A pessoa vivencia um sentimento de vazio. Ela transa, mas continua mal", segundo Regiane Garcia. Esse círculo vicioso faz com que outras esferas da vida sejam negligenciadas: amizades, relacionamentos afetivos e familiares, hobbies, carreira etc. O terapeuta sexual Itor Finotelli chama atenção ainda para o ônus financeiro, já que os doentes acabam gastando muito mais dinheiro do que conseguem produzir para sustentar a dependência –pagam prostitutas, alugam grande quantidade de filmes pornôs, compram revistas e objetos eróticos, etc.

Perigos
A dependência de sexo oferece vários riscos, que vão de DST’s (doenças sexualmente transmissíveis) até risco de morte. "Como a pessoa tem sua capacidade de avaliação comprometida, pode se envolver com gente perigosa e desequilibrada, de conduta má", conta a sexóloga Regiane Garcia. No caso de pessoas de perfil exibicionista –que gostam de se masturbar ou transar em público– a chance de um processo e até uma prisão por atentado ao pudor é grande.

Tratamento
Em geral, tem dois anos de duração e base na psicoterapia. "Através da ajuda profissional, o paciente vai aprender a lidar melhor com seus sentimentos e desejos e, principalmente, aprender a controlar os pensamentos e impulsos. O objetivo é mudar a maneira de se relacionar com o sexo, o que faz com que a abstinência não seja o melhor método", declara o psiquiatra Aderbal Vieira Jr. Há o risco de recidivas e é comum que a pessoa continue a manter uma alta atividade sexual, mas com maior controle da autonomia e do poder de escolha, evitando situações constrangedoras ou que atrapalhem o curso normal da sua vida. Boa parte dos casos exige também o uso de medicação (antidepressivos) para controlar a compulsão e a ansiedade.

Grupo de apoio
O grupo Dependentes de Amor e Sexo Anônimos se baseia na tradição do Alcoólicos Anônimos, inclusive com a premissa dos 12 passos (o primeiro é admitir a impotência para lidar com o problema) e pode ser uma alternativa eficaz para tratar o transtorno. "A troca de experiências entre os participantes e o apadrinhamento por alguém de um nível avançado do programa foram fundamentais na minha vida", conta o professor Leonardo (não quis revelar o sobrenome), 33 anos, membro do grupo de Belo Horizonte (MG). O apadrinhamento consiste na escolha de uma pessoa para aconselhar e orientar cada etapa. Leonardo, que faz parte do grupo há oito anos, afirma que o tratamento é contínuo, pois à medida que a pessoa vai amadurecendo ou envelhecendo novas questões podem vir à tona.

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