Comportamento

De rainha do lar a supermulher, saiba como o papel de mãe evoluiu do século 19 até hoje

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Para as mães de hoje, o maior desafio é lidar com o excesso de informação e evitar o sentimento de culpa Imagem: Thinkstock

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

12/05/2012 07h00

De rainha do lar à amiga e confidente, da dificuldade em expressar o afeto até a culpa presente 24 horas por dia nos pensamentos, houve um longo caminho trilhado. E exercer a maternidade nunca foi tarefa das mais fáceis. Saiba por quais transformações esse papel passou ao longo das gerações e quais são os maiores desafios da mãe contemporânea.

Fim do século 19: mãe autoritária 
O conceito de infância como uma fase peculiar da vida e com necessidades e anseios próprios passou a ser melhor assimilado. Até então, as crianças costumavam ser tratadas como pequenos adultos. Muitas, inclusive, trabalhavam. O olhar mais atento começa a modificar o relacionamento entre mãe e filho. “O afeto, porém, não é o que define essa relação, e sim a autoridade. Por outro lado, as mães dessa época não sofriam com a culpa”, diz a psicoterapeuta Elizabeth Monteiro, autora do recém-lançado “A Culpa é da Mãe” (Summus Editorial).

Décadas de 1910 e 1930: mãe do lar
A função da mulher era cuidar da casa e dos filhos e viver à sombra do marido. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, porém, muitas passam a reivindicar o direito ao estudo e ao voto.

Anos 1940: mãe que começa a trabalhar
Com os maridos no campo de batalha por causa da Segunda Guerra Mundial, muitas mulheres começam a trabalhar fora para garantir o sustento dos filhos. E a maior parte enxerga a oportunidade como a primeira chance de experimentar o controle da própria vida.

Anos 1950: mãe afetiva
Há um retrocesso comportamental. Com os maridos de volta, as mulheres também retornam aos lares. É uma época de bastante conservadorismo e de valorização da família, da tradição e da virgindade. A aura de "comercial de margarina" esconde a frustração de ter que suportar uma existência sem grandes ambições. Para aplacar os anseios femininos, a moda esbanja glamour e a indústria inventa os mais incríveis eletrodomésticos. Ser dona de casa e mãe de família é o status vigente. Há uma grande aproximação afetiva com os filhos, que buscam o colo das mães como alento ao autoritarismo dos pais.

Anos 1960: mãe independente
A disseminação do uso da pílula anticoncepcional, criada no fim da década anterior, transforma o comportamento feminino de modo definitivo. A mulher passa a fazer sexo por prazer, e não mais como forma de procriar. Os movimentos estudantis, de moda e musicais na Europa se alastram mundo afora. As garotas querem tudo e mais um pouco –menos ficar em casa trocando fraldas e obedecendo às ordens do marido. Surgem novas oportunidades profissionais. Até então, os empregos femininos –professora, enfermeira, secretária– eram uma espécie de extensão do papel de "cuidadora" que a mulher assumia em casa.

Anos 1970: mãe por prazer
A relação entre homens e mulheres se torna mais igualitária, o que torna a maternidade mais prazerosa. Os pais passam a se tornar mais atuantes –essa participação inclui desde assistir ao parto até ajudar nos cuidados com o recém-nascido. A expansão do ensino universitário no Brasil abre novos horizontes para a mulher. Com a aprovação da lei do divórcio no país, em 1977, os modelos de família começam a se transformar.

Anos 1980: mãe informada
A mulher almeja sucesso profissional e disputa poder de igual para igual com os homens. Novos estudos, livros e pesquisas proporcionam mais informação sobre os cuidados com cada fase de desenvolvimento da criança. A mulher quer o melhor para seu filho em termos de ensino, alimentação, saúde, diversão.

Anos 1990: mãe por opção
Mais do que nunca, a maternidade se torna uma escolha pessoal da mulher, que começa a se sentir menos cobrada pela sociedade. As famílias passam a ser mais enxutas e o relacionamento entre mães e filhos se sustenta no diálogo –temas como sexo e drogas deixam definitivamente de ser tabus. Para a psicoterapeuta Sandra Samaritano, a avalanche de informações promovida pela internet também transforma as relações. “As mães precisam ficar muito mais atentas ao comportamento dos filhos e ao que eles estão fazendo ou buscando na rede”, diz.

Anos 2000 até hoje: a super-mãe
Mulheres chefes de família e que decidem ter filhos com mais de 35 anos se tornam cada vez mais comuns. O grande desafio da mãe contemporânea é lidar com o excesso de informação. “As mulheres não querem mais seguir os conselhos das próprias mães ou das sogras, mas ao mesmo tempo estão perdidas, sem referencial”, diz a psicoterapeuta Elizabeth Monteiro. “Meu conselho é: não existe o certo e o errado, e sim o que é certo ou errado para você. Use sempre o bom senso e a intuição. Os filhos se sentem seguros quando a mãe não titubeia, quando está convicta do que quer e pensa”.

Outro dilema moderno é aprender a não virar refém da culpa de certas escolhas: trabalhar fora ou não, contratar babá ou deixar o filho na escolinha. “Não dá para ser 100% boa em todos os papéis: mulher, mãe, esposa, amiga, profissional... Ninguém tem estrutura física, biológica ou emocional para tudo isso nos dias de hoje”, diz Sandra Samaritano. O melhor é tentar estar totalmente presente naquilo que está fazendo, independente do tempo. Se tiver 15 minutos para brincar com o filho pequeno, entregue-se a isso. Se está numa reunião no trabalho, evite ficar pensando se a criança vem sendo bem cuidada na creche.

Como vantagem da evolução da maternidade, a psicóloga e mestre em gerontologia Sonia Fuentes vê a possibilidade de os filhos conviverem com uma mãe resolvida, autossuficiente, que não precisa ficar em um relacionamento desgastado em prol da família. “Hoje a mulher consegue assumir a condição de mãe sem ter um companheiro e sem ser tão julgada. Não há mais tantos empecilhos legais para tal e a mídia até reforça esse comportamento”, diz Sonia.

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