Relacionamento

Para resolver amor platônico como o de Roniquito, gay deve se assumir, diz psicóloga

TV Globo
Gay não assumido, Roniquito (Daniel Rocha), à esq., pode ter amor platônico por Leandro (Thiago Martins) Imagem: TV Globo

Heloísa Noronha

do UOL, em São Paulo

15/05/2012 07h00

Boa parte dos moradores do (fictício) bairro do Divino ainda não se deu conta, mas Suelen (Isis Valverde) e o público que acompanha “Avenida Brasil” já se ligaram há muito tempo: Roniquito (Daniel Rocha) esconde sua homossexualidade e finge gostar de futebol para não decepcionar o pai machão, Diógenes (Otávio Augusto). E ainda há a desconfiança de que todo o ódio que ele sente por Suelen tenha um motivo secreto: ele pode estar apaixonado por seu amigo Leandro (Thiago Martins), que está de caso com a "periguete".

Assim como na trama de João Emanuel Carneiro, na vida real não são raros os casos de gays (de ambos os sexos) que se encantam por heteros e cultivam um amor platônico. “Esse tipo de sentimento é o amor idealizado, que não se fundamenta na aproximação, e sim no seu próprio significado. Não tem a ver com interesse sexual, porque se satisfaz por si só, pelo simples fato de existir”, diz a psicoterapeuta Sandra Samaritano.

  • TV Globo/Divulgação

    Relacionamento de Suelen (Isis Valverde) e Leandro pode causar ciúme em Roniquito

A especialista afirma que, tal como vem acontecendo na novela, ainda que de maneira sutil, muitos homossexuais se satisfazem apenas com a fantasia. “Alguns se contentam em desfrutar os momentos que têm com o alvo da paixão no trabalho, na academia, no clube. Preferem amar à distância, porque sabem que, ao abrir o jogo, provavelmente não serão correspondidos e terão que arcar com a dor e a frustração”, diz Sandra.

Na opinião da psicóloga e terapeuta sexual Arlete Gavranic, do Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática (Isexp), colocar ou não tais fantasias em prática é uma escolha pessoal. “Mas é muito difícil conter ou negar o desejo. Por isso, em alguns casos, acho que o homossexual deve confessar o que sente”, afirma. O tipo de abordagem depende do vínculo de amizade entre os dois, mas, segundo Arlete, nunca deve ser realizada em público. “Se não houver uma proximidade ou intimidade adequada para abordar o assunto de um modo direto, o ideal é criar um clima para o momento”, diz a psicóloga. Mesmo assim, é praticamente impossível prever a reação do outro. Homens mais machistas tendem a reagir bruscamente, mas, geralmente, a resposta está ligada ao estilo da declaração amorosa.

Do mesmo modo que acontece entre heterossexuais, a amizade pode ser preservada, mas o relacionamento precisa de um tempo para que as partes assimilem o que aconteceu. “O gay sabe que o risco de ouvir um 'não' é enorme e já se prepara emocionalmente para isso", afirma Arlete Gavranic. "Dependendo da maturidade dos envolvidos e do afeto que envolve a relação, não há maiores sequelas”.

Em relação às circunstâncias da novela, as especialistas acreditam que, antes de tudo, Roniquito precisa revelar sua condição –mesmo porque a possibilidade de ela vir à tona por terceiros só tende a comprometer de forma negativa sua relação com o pai. Para Sandra Samaritano, o melhor jeito de lidar com o amor platônico é primeiro assumir a própria identidade sexual, visto que ele é mais comum entre homossexuais que ainda mantêm sua orientação em segredo. “Continuar a camuflar a própria natureza faz com que o gay acabe mergulhando em outras fantasias platônicas, sem nunca viver sua afetividade de fato”, diz.

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