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Pagar a universidade dos filhos é obrigação dos pais? Questão divide opiniões de especialistas

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Pagar a universidade dos filhos não é dever dos pais? Use o campo de comentários e opine Imagem: Thinkstock

Simone Cunha

Do UOL, em São Paulo

19/05/2012 07h00

De acordo com pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a participação de jovens com idade entre 18 e 24 anos no mercado de trabalho caiu 0,5% de março de 2011 para março de 2012. No ano passado, 15,4% dos jovens estavam inseridos no mercado de trabalho. Já nesse ano, essa porcentagem foi de 14,9%, o que equivale a 69 mil a menos trabalhando e oito mil a menos procurando emprego. A justificativa é de que há maior valorização da educação. Para conseguir investir em uma formação qualificada, muitos desses jovens contam com o apoio dos pais para pagar as despesas com o estudo. 

O economista André Furtado Braz, da FGV-RJ, acredita que a família deve se preparar para essa despesa. “É responsabilidade dos pais arcar com toda a formação dos descendentes, o que deve ocorrer do maternal ao ensino superior”, diz. De acordo com Braz, para se tornar um profissional competitivo, o curso de ensino superior deve ser feito, sempre que possível, com dedicação exclusiva. “Com tal disponibilidade, o aluno aproveitará melhor o curso e seu rendimento acadêmico será maior”, afirma.

Como se programar para pagar os estudos 

Para os pais que acreditam ser mais adequado bancar o estudo superior dos filhos, é importante se organizar. “Investir em uma economia pequena desde a infância dos filhos pode facilitar na hora de assumir esse compromisso”, diz a consultora em finanças pessoais Suyen Miranda.

 

Para o economista André Vaz, a quantidade de dinheiro economizado depende do orçamento da família. “Não dá para estabelecer um valor mínimo e máximo para poupar. A família terá que descobrir qual a sua capacidade de poupança e qual será o período de aplicação”, afirma.

 

Quanto antes a família começar a poupar, mais fácil será de acumular os recursos necessários para financiar a educação dos descendentes.

Mãe de três filhos, dois deles cursando o ensino superior, a enfermeira Luciane Martinez Cavana, 47 anos, acredita que os pais devem apoiar e dar condições para que os filhos se formem. “Sempre fomos exigentes e meus filhos sabem que precisam fazer a parte deles para valorizar o nosso esforço", diz Luciane. "Um jovem que pode estudar sem a pressão de ter que trabalhar para bancar a mensalidade pode se tornar um profissional melhor”.

A psicóloga Ana Paula Mallet Lima, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também acredita que a responsabilidade em apoiar e manter os filhos na universidade deve ser dos pais. “Nem sempre o jovem consegue uma vaga em uma universidade pública. E se os pais não o ajudam, ele pode optar apenas por trabalhar e ganhar dinheiro, deixando o estudo de lado”, afirma. A especialista defende que é injusto para o jovem arcar com essa despesa. “Trabalhar e estudar é um desgaste enorme. Muitos jovens acabam desistindo de sua verdadeira vocação e acabam optando por fazer um curso menos pesado apenas para ter um diploma. Isso pode gerar profissionais frustrados”, afirma a psicóloga. Para Ana Paula, o pai que não pode bancar os estudos do filho em uma universidade deve ajudá-lo a conquistar uma bolsa ou ajuda governamental junto ao Ministério da Educação (MEC). “Os pais têm que correr atrás e não podem jogar essa responsabilidade nas costas de um jovem”, afirma ela.

O vendedor autônomo Carlos Augusto Devienne, 59 anos, pai do estudante de física José Augusto, 18, tomou essa atitude. Seu filho estuda em uma universidade pública em outra cidade, o que envolve despesas difíceis de manter, como moradia, transporte e alimentação. "Orientei meu filho a buscar todas as formas de bolsa possíveis para aliviar a situação", diz Devienne. O plano deu certo, e o filho conseguiu uma bolsa para realizar um trabalho de pesquisa acadêmica. "É importante que ele tenha responsabilidade sobre suas despesas, pagas com o fruto de seu trabalho, para que aprenda a dar valor às coisas que tem", diz o vendedor. "Mas acho que não seria justo submetê-lo ao rigor de ter que trabalhar à noite, pois isso o impediria de se dedicar aos estudos e prejudicaria o descanso noturno”.

Ajuda sim, obrigação não
Para o psicólogo Maurício Vaz Pinto, os pais não têm a obrigação de pagar os estudos dos filhos. Isso porque, segundo ele, está sendo criada uma geração de jovens que não está habituada a ouvir um "não". “É assim que se formam adultos que lidam mal com frustrações e podem se acomodar, pois não têm condições nem se sentem preparados para buscar o que querem com as próprias mãos”, diz. Por isso, se os pais não podem assumir tal compromisso financeiro, é importante que sejam verdadeiros com os filhos. “Estimulem os filhos a buscar suas próprias conquistas, que serão mais valorizadas do que a dos jovens que tiveram tudo ‘sem esforço’”, afirma Vaz Pinto.

Para a consultora em finanças pessoais Suyen Miranda, ao pagar a faculdade, os pais estão investindo na capacitação dos filhos para prosperar. “Mas isso não deve ser encarado como obrigação”, diz. Para Suyen, a ajuda os pais é válida se os filhos trabalham, mas a renda ainda não alcança o valor total da mensalidade. “É importante que pais e filhos cheguem a um consenso sobre como irão bancar as despesas”, afirma.

O que vale para um, vale para outro
Para quem tem mais de um filho, fica um alerta: o que foi feito para um, deve ser repetido para o outro. “Predileção por um filho gera sofrimento em família. Portanto, se os pais assumem a postura de bancar ou ajudar no estudo da universidade de um, devem se programar para repetir o ato para todos”, afirma Ana Paula.

Independente de pagar o valor total ou parcial, é fundamental que os filhos entendam que o estudo é um comprometimento e precisa ser levado a sério. “Os pais devem cobrar resultados dos filhos sempre, desde os deveres escolares. Devem também incentivar e ser um exemplo para os filhos”, afirma Suyen. Para a consultora em finanças pessoais, a verdadeira obrigação dos pais é preparar os filhos financeiramente, dando limites, cobrando economia, responsabilidade e resultados na relação com o dinheiro.

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