Comportamento

Perdoar os pais e aceitá-los como são ajuda a ter uma vida mais feliz

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"Ficar preso a algo que passou há muito tempo é não querer sair do papel de vítima", diz psicóloga Imagem: Thinkstock

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

31/05/2013 07h20

Ninguém, infelizmente, tem o poder de modificar o que ocorreu no passado. Alguns fatos dolorosos grudam na memória e continuam a causar sofrimento ao longo da vida, principalmente aqueles provocados pelos pais. Para muitas pessoas, os acontecimentos amargos não machucam só porque continuam vivos na lembrança, mas incomodam porque atrapalham o convívio familiar e social, a autoestima e a confiança em si mesmo.

As circunstâncias nem precisam ser extremas, como abusos psicológicos ou físicos. Às vezes, uma palavra mais pesada, uma bronca vigorosa, presentes e passeios negados ou uma ausência muito sentida --a mãe ou o pai não puderam prestigiar a apresentação de balé ou a feira de ciências, por exemplo-- geram uma ferida emocional difícil de curar.

"Há sempre uma frustração envolvida. E ela é mais marcante a partir dos seis anos, quando a criança já tem consciência de que os pais não vivem exclusivamente em sua função. Nessa fase, há uma maior percepção dos próprios sentimentos e emoções", diz a psicóloga Elisa Villela, mestre e doutora em desenvolvimento humano pela USP (Universidade de São Paulo).

Não há uma regra absoluta para definir o que pode magoar ou não uma criança, e em que intensidade. Aquilo que tem o efeito de uma tremenda desilusão para uma pode não ser tão decepcionante para outra. Tudo depende da personalidade, da relação com os pais e da percepção do ocorrido.

Como deixar as mágoas de lado

Segundo a terapeuta de família Elenice Gomes, da APTF (Associação Paulista de Terapia Familiar), analisar a história de vida dos próprios pais é um caminho rumo ao perdão. "Como eram os pais deles? Será que eram afetuosos ou distantes? Autoritários ou companheiros? Como uma mãe pode saber dar carinho se nunca o recebeu? Talvez os pais não tenham tido muitos recursos para agir de forma diferente", diz ela.
 
Para se livrar do sofrimento, ou ao menos atenuá-lo, o primeiro passo é olhar com cuidado para a experiência e reposicioná-la no momento atual. "Um bom modo de fazer isso é se imaginar no lugar do pai ou da mãe quando o fato aconteceu", afirma Elenice. “Nós só somos capazes de perdoar aquilo que compreendemos. Analisar o que houve é fundamental", afirma. 
 

 

Essa análise não deve levar em consideração somente o acontecimento em si, mas todo o contexto da época: qual era a situação financeira da família, se o pai ou mãe passavam por um período pessoal ou conjugal difícil, se alguma doença ou morte de entes queridos abalava a tranquilidade da casa etc. Tudo isso ajuda a ter um olhar mais compreensivo e justo em relação aos pais.

O eterno papel de vítima

Mais do que lançar um olhar compreensivo sobre a família, é necessário investigar a própria conduta e o modo de lidar com o passado. Na opinião da psicóloga Elizabeth Monteiro, autora do livro "A Culpa é da Mãe" (Summus Editorial), o ser humano tende a achar um culpado para suas falhas e frustrações.

Ela explica que na infância ou adolescência o indivíduo ainda não sabe direito quem é, pois está construindo sua identidade. São os pais ou o grupo que dizem quem ele é, por isso é normal enxergá-los como responsáveis. "Na idade adulta, espera-se que a pessoa já tenha assumido determinados papéis na vida. Ficar preso a algo que passou há muito tempo é não querer sair do papel de vítima", diz Elizabeth.

Muitas pessoas costumam desenvolver vícios relacionais e só interagem através de mecanismos como provocar e revidar, criticar e protestar de volta, magoar e reagir. A mãe que costumava reclamar da desorganização do quarto ou do material escolar, por exemplo, ainda alfineta o jeito que a filha arruma a casa. E, quarenta anos depois, a filha ainda se irrita com as críticas e bate de frente com a mãe, suscitando um mal-estar sem fim.

 

"Nós não mudamos ninguém, mas podemos transformar nosso modo de encarar as coisas e reagir. Quem continua se deixando machucar pelo comportamento paterno ou materno tem medo de crescer e espera inutilmente que o pai ou a mãe mude. É mais fácil e menos dolorido do que entrar em contato com as próprias emoções, refletir e tentar mudar", afirma Elizabeth.

Para as especialistas, ao contrário do que prega o senso comum, o perdão não é algo que acontece naturalmente, mas uma decisão. Colocá-la em prática não é tarefa das mais simples, mas traz imensos benefícios para a vida. Um deles é se livrar da sensação de que nunca será capaz de corresponder ao que o pai, a mãe, ou os dois esperam de você.

Para Elisa Villela, perdoar não significa necessariamente esquecer, mas suportar e saber conviver com a lembrança ou ação incômoda. "Perdoar nos ajuda a reconhecer o que há de bom no outro e até em nós mesmos. Aprendemos a gostar dos outros verdadeiramente e a aceitá-los como são", afirma.

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