Comportamento

Mães excessivamente carinhosas prejudicam os filhos sem perceber

Orlando/UOL
Mães excessivamente carinhosas e atenciosas podem provocar abalos na autoestima das crianças, assim como as que são o oposto disso Imagem: Orlando/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

07/12/2013 09h01

Não é à toa que, nos processos de terapia, a culpa de muitos problemas do paciente recai sobre a mãe. "Eu costumo brincar que toda mãe é uma espécie de balcão de reclamações", diz a psicóloga Maria Lúcia de Souza Campos Paiva, do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

"Porém, é impossível desprezar o fato de que a mãe é a principal responsável pela concepção psíquica do filho. Ela é o primeiro objeto de amor da criança, o primeiro vínculo estabelecido. A mãe é quem abre espaço para a relação entre o pai e a criança existir. É a mãe quem nos apresenta o mundo", afirma Maria Lúcia.

Ao longo da vida, estabelecemos outras relações importantes –com os demais membros da família, cuidadores, professores, amigos. Esses laços e o ambiente que nos cerca também são referências fundamentais na vida, mas o vínculo com a mãe é o que desempenha o papel principal no nosso desenvolvimento, principalmente nos primeiros anos da infância e, posteriormente, na adolescência. E a dose de afeto que recebemos sugere o caminho que vamos trilhar.

Getty Images

Afeto na medida certa

A maneira de demonstrar afeto varia de pessoa para pessoa e, portanto, de mãe para mãe. Algumas são mais carinhosas e chegadas a beijos e abraços. Outras preferem ensinar as coisas, e há aquelas que têm um senso prático aguçado, concentrando maiores esforços nos cuidados com a alimentação e vida escolar, por exemplo. Mas o quê, de fato, uma criança precisa para crescer se sentindo valorizada, amada e querida?

Cada criança também tem sua própria maneira de se relacionar com a mãe. O que serve para certas pessoas nem sempre servem para outras, basta observar mães que têm vários filhos. Uns são melosos e querem ficar grudados o tempo todo, outros são mais independentes. "Em relação às mães, é a mesma coisa. Não existe um modelo materno ideal que gera crianças mais felizes”, diz a psicóloga Cecilia Russo Troiano, autora de “Vida de Equilibrista – Dores e Delícias da Mãe que Trabalha” (Ed. Pensamento).

Seja através de um abraço, do olhar, da presença física ou não, o que importa é o filho se sentir cuidado e amado. Ele precisa ter a segurança do afeto da mãe, mesmo que ele seja expresso de maneiras distintas e que atenda a criança em suas necessidades emocionais. E a criança sabe decodificar o afeto, afinal, ele a conhece desde que nasceu. "Quando crescer, saberá demonstrar afetividade e recebê-la", fala Cecilia.

Segundo especialistas em desenvolvimento infantil, a criança não quer uma mãe ausente, mas não deseja uma mãe presente o tempo todo. Os movimentos maternos de ir e vir, sair e voltar, são positivos. "É ilusão nossa achar que apenas a presença faz bem. O que é ruim é a ausência absoluta ou uma falsa presença, quando a mãe está próxima, mas não fica conectada ao filho", conta Cecilia.

A psicóloga Magdalena Ramos, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e autora do livro "E Agora, o que Fazer? A Difícil Arte de Criar os Filhos" (Ed. Ágora), fala que existem mães que querem forçar a própria presença quando ela não é necessária. "São aquelas que se dispõem a fazer tudo pelo filho, em vez de ensiná-lo a amarrar um cadarço, por exemplo. No futuro ele será um adulto inseguro, que sempre vai esperar que os outros resolvam tudo por ele", conta.

O importante é equilibrar. Os extremos –a falta e o excesso de carinho e atenção– é que são perigosos, pois podem provocar abalos na autoestima que transformam as crianças em adultos inseguros, tímidos, com dificuldade para confiar em si mesmos e nos outros.

Perdoar é necessário

Quem se dá conta, já adulto, que o relacionamento com a mãe contribuiu de alguma forma para escolhas insensatas ou determinadas dificuldades precisa aprender a reescrever sua história. O passado, óbvio, não pode ser mudado, mas é possível modificar o peso dado a certos acontecimentos (uma bronca mais incisiva, palavras rudes, falta de apoio num momento crucial etc.), perdoar e seguir adiante.

"As mães erram tentando acertar e muitas reproduzem os comportamentos que aprenderam com as próprias mães, pois os julgavam os melhores", diz Magdalena Ramos.

Embora hoje as mulheres estejam adiando cada vez mais a maternidade, boa parte delas mantém um relacionamento mais aberto e dinâmico com seus filhos. Sobre o que será, então, que essas crianças vão reclamar nos consultórios dos psicólogos, daqui a alguns anos? Difícil prever, mas a psicóloga Maria Lúcia Paiva, da USP, declara que a maioria das mães contemporâneas sofre de um terrível mal: a culpa.

Ela acomete não só as que trabalham fora, e acham que negligenciam os filhos, como também as que decidiram abandonar o emprego e ficar em casa, e vivem sob a sombra da dúvida se tomaram a decisão certa para todos.

"Nunca é demais repetir que o mais importante não é a quantidade de tempo dedicada à criança, mas a qualidade. Eles percebem e valorizam isso", diz a pediatra e psicanalista Miriam Ribeiro de Faria Silveira, membro da SPSP (Sociedade de Pediatria de São Paulo).

Para Miriam, apesar da culpa, as mães modernas contam com um recurso muito importante e que faz toda a diferença na relação e no afeto: o diálogo. "Justamente por não se sentirem infalíveis nem donas da verdade, elas se sentem à vontade para pedir desculpas por eventuais erros no meio do caminho e recomeçar", diz. Ao se mostrarem humanas, se aproximam ainda mais dos filhos, que certamente não devem desperdiçar o exemplo.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Comportamento
UOL Estilo
Blog da Morango
UOL Estilo
UOL Estilo
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
AFP
Blog da Morango
Redação
Comportamento
Redação
Redação
Comportamento
Erratas
Redação
Blog da Morango
do UOL
Redação
Redação
BBC
Redação
do UOL
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
BBC
Redação
Comportamento
Blog da Morango
Redação
UOL Estilo
UOL Estilo
Redação
Redação
Redação
Redação
Comportamento
Redação
Blog da Morango
Redação
Redação
Topo