Comportamento

Psicóloga diz que adolescência dura até os 25; você concorda?

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Suzel Tunes e Thaís Macena

Do UOL, em São Paulo

30/06/2014 07h54


A estudante Isabella Brasil Soares Cavalcante, de 22 anos, mora com os pais em Fortaleza, no Ceará. Ainda não trabalha. Nem teria tempo: de manhã, estuda Administração. À noite, Marketing. A família lhe custeia os estudos e ela não pretende sair de casa nem mesmo quando estiver empregada. “Só vou sair quando me casar. Meus pais me apoiam nessa decisão, falam que não preciso ter pressa”, afirma.

A paulistana Kauanne Sampaio, de 24 anos, já chegou a morar com o namorado, mas não deu certo. Voltou à casa dos pais, levando junto a filha Yasmin, de 4 anos. Como não tem salário regular –Kauanne presta serviços esporádicos como recepcionista de eventos– os pais ajudam a cuidar da criança. “Minha mãe paga a escola e o convênio médico, entre outras coisas”, diz.

Já o carteiro Thiago Ávila, de 22 anos, de Londrina, no Paraná, cursa Administração em universidade pública e poderia usar o salário em torno de dois mil reais para morar sozinho. Mas prefere continuar na casa onde cresceu.  “Meu trabalho e faculdade são próximos de casa. Eu me sinto bem morando com meus pais. Não tenho motivos para sair de casa", declara.

Para um grupo de especialistas britânicos, Isabella, Kauanne e Thiago –assim como milhões de outros jovens, no mundo todo, que têm adiado sua declaração de independência– ainda podem ser considerados adolescentes. Segundo estudo publicado na The Lancet, uma das mais renomadas revistas científicas do Reino Unido, a entrada na vida adulta, com todas as responsabilidades que ela traz, está sendo adiada.

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E não são apenas os fatores econômicos e sociais que devem ser considerados na análise desse fenômeno. A pesquisa sugere que fatores neurológicos também estão envolvidos: exames de ressonância magnética mostram que o cérebro humano continua em processo de maturação mesmo após os 20 anos. 

Baseada nas novas descobertas da neurociência, a psicóloga e terapeuta infantil Laverne Antrobus, que se tornou conhecida como apresentadora de um programa de educação da TV estatal britânica, propõe uma revisão dos parâmetros da OMS (Organização Mundial da Saúde), que atualmente define a adolescência como o período compreendido entre os 10 e os 20 anos de vida. 

Para a psicóloga inglesa, a adolescência deveria se estender até os 25. O novo conceito estaria mais coerente com a própria origem da palavra “adolescente”, que vem do latim “adolescere”, cujo significado é “crescer”. Ela defende que, aos 20 anos de idade, esse processo de crescimento ainda está em curso. E, como os jovens não se desenvolvem no mesmo ritmo, alguns ainda precisam de maior apoio da família. 

Ideia não é um consenso

A psicóloga Maria Alice Fontes, doutora em Saúde Mental pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e especialista em neuropsicologia, explica que, de fato, diversas pesquisas apontam que o cérebro continua seu desenvolvimento após os 20 anos de idade.

"A partir da infância, ocorre um progressivo aumento da massa branca do cérebro, que se relaciona à capacidade de controle da atenção, dos impulsos e ao controle afetivo. Esse processo estende-se até uns 20 e poucos anos", diz ela. O córtex pré-frontal, área que responde por estratégias cognitivas como a tomada de decisão e a capacidade de avaliar riscos, é a última parte do cérebro a amadurecer.

Contudo, a especialista considera que apenas o aspecto neurológico não serve para justificar a extensão da adolescência. “Não é interessante considerar o jovem de 25 anos um adolescente. Ele é um jovem que deve ser estimulado para começar a assumir as responsabilidades da vida adulta”, afirma a neuropsicóloga. Para Maria Alice, a preparação para a vida adulta deve começar ainda na infância, com a progressiva atribuição de tarefas aos filhos. "Ninguém acorda adulto aos 18 anos", diz.

A especialista afirma, ainda, que, em alguns setores da sociedade, as crianças e adolescentes têm à disposição diversos serviços e empregados assumindo tarefas que deveriam estar sendo feitas por eles. O que serviria como uma espécie de laboratório para a vida adulta. “O jovem tem que acordar, fazer a própria cama, ajudar na arrumação da casa, dar comida para o cachorro. O que vemos, geralmente, são os pais ou empregados assumindo essas demandas, enquanto o jovem fica no sofá”, afirma.

Segundo Maria Alice, fatores biológicos, hormonais e culturais devem ser avaliados em sua totalidade para compreender o comportamento atual do jovem. Ela destaca, por exemplo, que na cultura norte-americana, é comum o jovem sair cedo de casa, pois, ao terminar o ensino médio (o High School) muitos se inscrevem em universidades fora do próprio estado. “A partir da implantação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), com a possibilidade de o jovem ser aceito em boas universidades longe dos grandes centros, pode ser que o Brasil comece a desenvolver essa cultura, que pode contribuir para o amadurecimento desses adolescentes”, diz.

Encurtamento da adolescência

A filósofa Tânia Zagury, professora de Psicologia da Educação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), pesquisa crianças e adolescentes há quase 30 anos. Muitas de suas descobertas estão no livro “Encurtando a Adolescência” (Editora Record), já na 11ª edição.

Na obra, ela defende a necessidade de conferir maior autonomia ao jovem de hoje. Segundo a educadora, à medida que as condições financeiras dos pais foram melhorando, eles passaram a adiar a independência dos filhos, custeando a faculdade e até mesmo a pós-graduação deles. E se por um lado isso permite que o filho tenha uma formação melhor e mais completa que a dos pais, por outro, adia a entrada do jovem no mercado de trabalho. O que pode torná-lo mais dependente e acomodado. “O jovem não dá valor às coisas que ganha de mão beijada e pode se tornar um insatisfeito crônico”, diz Tânia.

A educadora afirma que os pais não erram quando ajudam o filho a se preparar para a fase adulta. Nem em acolhê-lo, quando ele decide adiar a saída de casa. É a maneira de conviver com esse jovem que, na opinião da especialista, deve ser revista. “O jovem precisa participar dos afazeres domésticos e dividir responsabilidades financeiras com a família. Cabe aos pais fazer o filho entender isso, fixando regras de participação nessa vida em comunidade que é a família”, afirma Tânia.

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