Equilíbrio

Ser gay não é uma escolha e é tão natural quanto ser heterossexual

Yannik D'Elboux

Do UOL, no Rio de Janeiro

14/01/2015 07h06

Até a década de 1970, a homossexualidade era considerada doença. Foi somente em 1973 que o homossexualismo, palavra antigamente usada para designar a condição, deixou de figurar na lista de transtornos mentais da Associação Americana de Psiquiatria. A OMS (Organização Mundial de Saúde) retirou a homossexualidade da classificação internacional de doenças somente em 1990.

Apesar dos avanços no sentido de considerá-la apenas como parte da variabilidade humana, ainda existe preconceito e pessoas que acreditam que ser gay ou não é uma questão de escolha. A ciência busca respostas no DNA.

Segundo o psiquiatra e pesquisador norte-americano Alan Sanders, da Universidade de Chicago e do Instituto de Pesquisa Northshore University HealthSystem, em Illinois, nos Estados Unidos, a contribuição genética representa de 30% a 40% da influência na orientação sexual masculina. Resultados similares foram encontrados em relação à sexualidade feminina, porém do ponto de vista genético, nesse caso, homens e mulheres são investigados separadamente.

Sanders explica que essa conclusão veio de estudos anteriores com gêmeos idênticos, em que a probabilidade da orientação sexual ser a mesma é maior. Em sua pesquisa com 409 pares de irmãos homossexuais, a mais ampla realizada até agora, publicada este ano, o psiquiatra e geneticista buscou mapear as regiões no DNA que possam estar ligadas à sexualidade. “Encontramos duas regiões de cromossomos com genes que influenciam a orientação sexual masculina”, revela.

Para o pesquisador, mesmo com esses resultados, ainda há muito a se descobrir acerca do desenvolvimento da sexualidade humana. “A informação que temos até agora aponta para influências biológicas, que não é uma escolha do indivíduo, não há como escolher vou ser hétero ou gay”, diz Alan Sanders.

O psicólogo Marcos Roberto Vieira Garcia, professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), campus Sorocaba, e membro da Comissão de Direitos Humanos do CFP (Conselho Federal de Psicologia), também defende que a orientação sexual não é passível de escolha. Garcia afirma que há várias teorias a respeito do desenvolvimento da sexualidade, entretanto o que mais se admite atualmente é a existência de múltiplos fatores, de biológicos a ambientais.

Porém, na opinião do psicólogo, um elemento muito mais simples demonstra que ser gay não configura uma opção. “Ser homossexual na nossa sociedade é um caminho mais difícil. Há ainda discriminação e preconceito. Se fosse uma escolha, as pessoas não escolheriam ser homossexual”, constata.

Desejo e conversão

A homossexualidade, tanto masculina quanto feminina, manifesta-se a partir do desejo, que pode surgir em diferentes fases da vida. Para o psicólogo Ageu Heringer Lisboa, integrante do CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos), esse aspecto não é suficiente para determinar a vida sexual de alguém. “O desejo é uma variável, mas há outras, como a razão, a ética e os valores”, diz.

Lisboa acredita que a identidade sexual resulta de uma construção que conjuga uma série de fatores: educacionais, culturais, emocionais, familiares, eventuais experiências precoces, entre outros, inclusive de natureza inconsciente. Contudo, o psicólogo do CPPC não enxerga essa construção como definitiva. “Acredito que as pessoas, por questões filosóficas, valores e crenças particulares podem se definir na vida de muitos modos”, fala.

Marcos Garcia também não vê a orientação sexual como permanente e imutável, entretanto observa que não depende da vontade da pessoa. “Pode mudar no decorrer da vida, mas não é algo sujeito a uma escolha consciente”, analisa o professor da UFSCar.

O professor de inglês, filósofo e téologo Sergio Viula, 45 anos, do Rio de Janeiro (RJ), bem que tentou de todas as formas possíveis controlar seu desejo homossexual, percebido por ele na infância. Viula converteu-se a uma religião evangélica, casou-se com uma mulher, teve dois filhos e atuou até como pastor por nove anos, quando fundou um movimento que pregava a "cura gay".

"Eu quis mudar. (...) E eu passei a acreditar que podia casar e ser fiel à minha mulher”, conta o professor em entrevista ao UOL Comportamento sobre sua história. Depois de 14 anos de casamento, Viula resolveu se separar e admitir sua verdadeira orientação sexual para si mesmo e para a família.

“Isso é algo que não muda. Ou você 'sai do armário' [assumir a homossexualidade] e paga o preço de enfrentar todo mundo e viver mais feliz ou fica no armário e também paga o preço, que é mais alto, de ficar fingindo, se escondendo o tempo todo e vivendo duplamente”, diz.

Cura?

Por não fazer parte do desejo dominante, em que prevalece a atração pelo sexo oposto, houve ao longo da história no mundo todo tentativas de converter os homossexuais à heterossexualidade, por meio de terapias que iam de orientação psicológica a choques elétricos. "Os estudos mostram que essas terapias nunca tiveram muito sucesso. Parece que a orientação sexual é bastante resistente a mudanças", observa Alan Sanders.

Sergio Viula percebeu na prática com a experiência no movimento pela “cura gay” que a conversão não funcionava. “Ninguém mudava, foram anos de trabalho e ninguém mudando”, lembra.

No Brasil, uma resolução de 1999 do CFP (Conselho Federal de Psicologia) determina que os psicólogos não podem colaborar com eventos e serviços que “proponham tratamento e cura das homossexualidades”. Além disso, o CFP preconiza que os psicólogos contribuam para o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.

Já que a homossexualidade não é considerada doença nem distúrbio ou perversão, não cabe tratamento, mas o acompanhamento psicológico serve para lidar com questões que causem sofrimento, como a rejeição na família, a autoaceitação e o estigma ainda presente na sociedade. "A terapia não é para curar a homossexualidade, mas para ajudar a pessoa a lidar melhor com isso", esclarece Marcos Garcia.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

BBC
Redação
Redação
BBC
UOL Estilo
Redação
BBC
Redação
Redação
BBC
do UOL
Redação
UOL Estilo
Redação
BBC
do UOL
Redação
Redação
Redação
Redação
BBC
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Folha de S.Paulo
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Comportamento
Redação
BBC
Redação
Redação
UOL Estilo
Redação
Redação
Topo