Comportamento

Por ser mulher e negra, Maria Julia Coutinho sofre duplo preconceito

Divulgação/Globo/Zé Paulo Cardeal
Maju estreou como moça do tempo do "JN" no dia 27 de abril imagem: Divulgação/Globo/Zé Paulo Cardeal

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

 

Na última quinta-feira (2), a jornalista Maria Julia Coutinho, garota do tempo do "Jornal Nacional" (Globo), foi vítima de racismo ao ser ofendida na página do telejornal no Facebook. A reação em apoio à Maju, como também é conhecida, foi imediata, tanto dos colegas --William Bonner publicou um vídeo no Twitter e lançou a mensagem "Somos todos Maju" ao lado da equipe do telejornal-- quanto dos internautas, que levaram a hashtag "somostodosmajucoutinho" aos Trending Topics, os assuntos mais comentados da mesma rede social. 

A fúria da qual Maria Julia foi alvo espantou muita gente. A jornalista não é a primeira negra a ter papel de destaque na televisão brasileira. Antes dela, no telejornalismo, nomes como Gloria Maria --"ex" apresentadora do "Fantástico" (Globo)-- e Heraldo Pereira, que, na ausência de Bonner, assume a bancada do "JN", já haviam conquistado destaque. Mas qual a razão então de artilharia tão pesada sobre ela?

A primeira parte da explicação tem a ver com o peso e a disseminação das redes sociais. Segundo Juarez Xavier, coordenador do Nupe (Núcleo Negro) da Unesp (Universidade Estadual Paulista), a força que a web tem nos dias de hoje é fator fundamental para que as pessoas tenham coragem de expor o que, talvez, pessoalmente não teriam.

"Esse tipo de discriminação não é novidade. O diferente desse caso foi a dimensão dada pelas redes sociais. Nós sabemos que as medidas adotadas para colocar o negro em evidência geram atrito e isso acontece porque a questão racial nunca foi realmente colocada em discussão na esfera pública da sociedade", afirma.

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Para Silvia Ferraro, do MML-SP (Movimento Mulheres em Luta) de São Paulo, a jornalista da TV Globo sofre duplo preconceito: racial e de gênero. A militante diz que existe um "mito da democracia racial" no Brasil, pois a população não assume que é, sim, racista, e isso se agrava quando falamos de mulheres negras que ocupam cargos importantes.

"Está enraizado no país o conceito de aceitar as negras apenas como objeto sexual ou serviçais. Para ser Globeleza e aparecer nua no horário nobre da televisão, pode, mas ter relevância no telejornal mais importante do país, não. E o termo mulata, destinado às bonitas e gostosas, carrega a opressão de gênero e racial", afirma Silvia.

O sociólogo Rodrigo Ednilson, que é membro do Nera (Núcleo de Estudos sobre Relações Raciais e Ações Afirmativas) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que o incômodo dessa parcela da população com a posição que Maju ocupa está associado às poucas representações da raça negra.

"A presença única é exótica. Enquanto não fizermos uma campanha por mais 'Marias Julias', negros bem-sucedidos continuarão sendo exceção. É só observar que a ausência de Maju nessa posição, quando só jornalistas brancas apresentavam a previsão do tempo, não mobilizou ninguém." 

Além disso, o especialista deixa claro que a campanha de solidariedade à jornalista identifica o racismo apenas como um xingamento individual, mas que, na verdade, é um sistema de opressão, presente nos pequenos gestos diários da população brasileira.

"O racismo continua porque as pessoas são levadas, por meio da mídia, a acreditarem que o honesto, bonito e amável é o arquétipo branco. É só ligar a televisão e reparar na maioria das propagandas. Elas apresentam mais brancos ou negros?", questiona.

Ednilson finaliza dizendo que o enfrentamento à Maria Julia acontece também pelo fato de que ela se mostra segura de si --diante de uma enxurrada de ofensas, a jornalista respondeu com um altivo "beijinho no ombro" em sua página no Twitter--, o que é contrário à submissão esperada. “A cultura brasileira sempre espera que a negra peça licença para ter relevância e o fato de ela não expressar esse ‘pedido’, por meio de sua competência e beleza assumidas e valorizadas, incomoda.”

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