Comportamento

Antecipar compulsivamente tarefas é tão ruim quanto adiá-las

Getty Images
O precrastinador busca razões para antecipar até mesmo o que não é necessário Imagem: Getty Images

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

20/07/2015 07h25

Imagine que você deve escolher entre dois baldes cheios de moedas e levar um deles até determinado ponto. Um está próximo a você, e o outro, perto da linha de chegada. Qual você escolheria? Se escolheu o que estava ao seu lado, você deve ser um precrastinador, mesmo que nunca tenha ouvido essa palavra na vida.

O termo se refere à tendência de completar tarefas, ou ao menos começá-las, o mais rápido possível, mesmo que isso exija mais esforço. A palavra foi criada por pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que publicaram um estudo sobre o tema na revista “Psychological Science”, em julho de 2014.

Os estudiosos David Rosenbaum, Lanyun Gong e Cory Adam Potts fizeram o teste dos baldes com 27 estudantes universitários. Para a surpresa deles, a maioria escolheu o balde mais próximo de si, o que significa que o peso foi carregado por mais tempo. Como resposta, os estudantes disseram que queriam se livrar logo da tarefa.

No Brasil, 68% das pessoas também têm a tendência de executar tarefas antes do prazo como forma de se livrar delas, segundo pesquisa realizada com mil participantes, entre 22 e 55 anos, das cidades de São Paulo e Porto Alegre, e apresentada pela ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil) no congresso da Associação Mundial de Psiquiatria, em 2013.


Enquanto o procrastinador busca desculpas para não cumprir as tarefas, o precrastinador busca razões para antecipar até mesmo o que não é necessário, na ânsia de se livrar e de querer lidar com uma situação futura”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR e copresidente da Divisão de Saúde Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria.

Alto nível de estresse

Segundo Ana Maria, adiantar tarefas pode ser saudável, desde que não prejudique a qualidade do trabalho ou o equilíbrio emocional da pessoa. Mas, como o precrastinador tende a ser muito mais ansioso do que o procrastinador --este sofre mais com o sentimento de culpa e a angústia por não ter feito o que deveria--, é comum que ele conviva com um alto nível de estresse.

Para o psicólogo Armando Ribeiro, especializado em gestão de estresse pela Harvard Medical School e coordenador do programa de avaliação de estresse do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, o precrastinador tem esse comportamento como uma forma de aliviar, ainda que de forma passageira, a ansiedade.

“São pessoas que acreditam que, se resolverem tudo logo, se sentirão melhor. Há um sentimento de prazer ao concluir uma lista de afazeres, mas o alívio é passageiro. Logo haverá um novo trabalho e os níveis de ansiedade subirão novamente”, diz Ribeiro.

Segundo o psicólogo, a precrastinação faz todo o sentido na sociedade atual, que estimula desde muito cedo a proatividade. “Para o chefe ou para a empresa na qual o precrastinador trabalha, ele é excelente, o perfil de funcionário exemplar. A sociedade premia e valoriza esse comportamento, mas quem sofre é a pessoa”, afirma.

De acordo com ele, a precrastinação pode levar ao aumento da ansiedade e causar problemas físicos e psicológicos. “Se tudo é prioridade, ficamos sobrecarregados. O corpo passa a produzir muito os hormônios cortisol e adrenalina e entra em desequilíbrio. Com o passar do tempo, além de apresentar insônia, impaciência e intolerância, podem surgir problemas gastrintestinais, dores de cabeça e taquicardia”, afirma.

Ideias aceleradas

Para o psicólogo Armando Ribeiro, outro problema que tem relação com a precrastinação é a síndrome do pensamento acelerado, que faz com que a pessoa tenha dificuldade de pensar com clareza.

“A mente tenta funcionar no ritmo da comunicação digital, que é incessante, e nos tornamos reativos às coisas. Se vimos um e-mail, respondemos. Se ouvimos o barulho do celular, paramos tudo para responder. Não se consegue estabelecer prioridades, tudo é importante”, diz.

Mesmo sendo valorizado no mercado de trabalho, o comportamento do precrastinador pode ser prejudicial não só para ele, como para toda a equipe.

“Pessoas assim criam um clima de ansiedade na empresa, de urgência. Se for um gestor, isso se agrava, pois ele pode criar uma equipe pouco flexível diante de imprevistos”, afirma a professora Renata Magliocca, do Progep (Programa de Estudos em Gestão de Pessoas) da FIA-USP (Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo).

Como encontrar o equilíbrio

Diferentemente do procrastinador, que é lembrado e julgado por seu comportamento o tempo todo, o precrastinador dificilmente será confrontado. Segundo Ribeiro, é muito difícil que ele reconheça que está excedendo em seu comportamento. Mas há como notar que algo está errado.

“Se você não está entregando o que é importante no trabalho e tem ficado ansioso, é importante se questionar”, afirma Renata. Se você se identificou com esse tipo de comportamento ao ler esta reportagem, não se desespere: algumas atitudes simples podem ajudá-lo a agir de forma mais equilibrada na vida profissional e pessoal.

1 - Estabeleça prioridades reais

No trabalho, o indivíduo pode checar com o chefe se aquilo que definiu como algo a ser feito imediatamente é mesmo urgente.

2 - Faça pausas

A cada uma hora, o ideal é parar, se alongar, respirar profundamente e, se possível, dar uma rápida caminhada. Não adianta fazer a pausa para o café, porque a cafeína é um estimulante e não irá ajudar. Tome um chá, um suco ou uma água.

3 - Pense no presente

Uma sugestão é adotar o “mindfulness”, um conjunto de técnicas meditativas que ajudam a pessoa a viver no momento presente. Práticas de relaxamento também podem ajudar, como exercícios de respiração abdominal.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Redação
Redação
Redação
Redação
BBC
Redação
Redação
BBC
Redação
Redação
Redação
Redação
BBC
Redação
BBC
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
UOL Estilo
BBC
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
do UOL
Comportamento
UOL Estilo
Redação
Redação
Redação
Redação
UOL Estilo
Redação
Redação
Redação
Redação
Topo