Comportamento

Em festa fetichista rola de tudo, inclusive sadomasoquismo

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

03/08/2015 08h05

Você é capaz de imaginar tudo o que acontece em uma balada fetichista? Ao contrário do primeiro pensamento que vem à cabeça de muitos, sexo explícito é proibido e, se o objetivo for arrumar um namorado, esse tipo de festa não é uma opção. Os fetichistas não curtem sexo com penetração e, como o esperado, estão preocupados em satisfazer a própria tara. Por isso, o Projeto Luxúria, famoso no cenário underground de São Paulo e que acontece uma vez por mês, "é o lugar mais livre de julgamento possível", segundo os seus frequentadores.

"Todo mundo que está aqui faz o que deseja, como quer e ninguém vai apontar o dedo, o que é o mais importante. Depois que comecei a frequentar, meu marido e eu descobrimos o voyerismo, o exibicionismo e a podofilia, que são os fetiches que mais praticamos. O Luxúria nos ajudou a inserir muitas novidades na nossa vida sexual", disse Marija* ao UOL Comportamento. Ela vai à festa desde 2009, sempre acompanhada do parceiro, com quem está casada há 19 anos.

A rua Aurora, no centro da capital paulista, é a locação da balada fetichista. Ao se aproximar do número 710, onde, durante a semana, funciona uma sauna gay, é possível avistar a fila e toda a produção dos frequentadores da festa, que, em sua maioria, vestem couro e látex, quase sempre em preto. Dessa vez, obedecendo ao tema escolhido, máscaras também faziam parte do glamour dos looks. Quem chega à porta da balada sem o vestuário pré-definido --no mínimo todo preto-- e aparece de jeans e camiseta, por exemplo, acaba pagando mais caro ou é obrigado a deixar as roupas na chapelaria --sim, muitos ficam totalmente pelados, afinal, o nudismo também faz parte dos fetiches.

Getty Images

Logo na entrada, um camarim improvisado, cheio de acessórios como perucas, bijuterias, sapatos de salto alto e roupas diversas, espera aqueles que desejam fazer a transição visual de homens para mulheres. A especialista na prática Karla Does fica a postos para ajudar todos que quiserem se montar para curtir a balada. "Dentro do universo BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), usar peças femininas é algo humilhante e uma tortura, já que não é nada fácil andar com uma boa plataforma, se maquiar etc. Fico à disposição para aqueles que querem conhecer e fazer parte desse mundo", explica.

Casado com uma mulher, que estava na festa com ele, Joel* se monta de mulher apenas para ir ao Luxúria e, claro, sempre com muita expectativa.  "Uma amiga nos contou sobre a festa e, como sempre tivemos curiosidade a respeito do mundo BDSM, experimentamos, gostamos muito e, há cinco anos, estamos presentes sempre que possível. Esperamos ansiosos todo mês, é um momento único de liberdade total", fala.

No primeiro ambiente do local, uma cruz de Santo André, símbolo de dor e sofrimento, decora uma parede vermelha, à espera daqueles que desejam ser torturados. Mesmo com práticas de sadomasoquismo (que incluem chicotadas sem fim) acontecendo no espaço principal da festa, onde ficam a pista de dança, o bar e a maioria dos frequentadores, espaços restritos ao longo dos corredores escuros são preparados para a realização de outros fetiches. Para os amantes do fisting --prática sexual que envolve a inserção da mão ou antebraço na vagina ou no ânus--, infantilismo, zoofilia e filmes pornôs, também existem ambientes especiais.

Apesar de o nome do evento remeter a um dos sete pecados capitais, a organização deixa bem claro que o consentimento é requisito obrigatório para qualquer ação entre duas ou mais pessoas. Segundo Heitor Werneck, que está há nove anos à frente do evento, BDSM , feminilização (ou travestismo) e podofilia são as práticas que predominam na festa.

Werneck, que é estilista e se autodenomina um libertino, conta que criou o Luxúria por sentir falta de um lugar na noite onde as pessoas pudessem se libertar e realizar suas fantasias, mas sem uso de drogas e excesso de bebida alcoólica --o evento tem um bar com drinques sem álcool no cardápio.

"A estética punk sempre me seduziu, e o fetiche é um encantamento para mim. Por meio dele, mostramos quem realmente somos", afirma ele que, apesar de se dizer um lascivo, rejeita escatologias e práticas como zoofilia e pedofilia.

Respondendo à pergunta feita no início da matéria: não! Se você não faz parte do universo fetichista, com certeza não é capaz de imaginar tudo o que pode acontecer em uma noite dedicada ao desejo e à fantasia. É preciso ir até lá para ver com os próprios olhos.

*Os nomes foram omitidos para preservar os personagens

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