Comportamento

Ninguém deve sentir vergonha por não conseguir fazer sexo

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O sexo é um barômetro isento do quanto você deseja seu parceiro Imagem: Getty Images

Rachel Hills*

The New York Times

04/09/2015 15h46

Se alguém tivesse me contado dez anos atrás que eu iria anunciar no "New York Times" com que idade perdi a virgindade, teria morrido de vergonha.

Quando tinha 20 e poucos anos, só havia duas explicações válidas para ser virgem: você era extremamente religiosa e fez um voto de castidade até se casar ou uma "otária": sem atrativos ou incompetente socialmente para ter sucesso no instinto biológico mais básico.

Eu não era religiosa e sabia que não era "otária", mas mesmo assim me sentia tremendamente envergonhada do fato de não ser sexualmente ativa.

Não que tivesse medo ou nojo do sexo. Como a maioria das pessoas que conhecia, falava sobre sexo constantemente. Na hora de conversar, eu era bacana, flertava, tinha coragem. Já em particular, minha vida sexual praticamente não existia e não inteiramente por minha própria escolha. Em um mundo ideal, teria perdido a virgindade nos dois primeiros anos da faculdade, mas a oportunidade certa nunca se apresentou. Queria fazer sexo, mas queria que fosse com alguém que amasse ou, pelo menos, com alguém de quem gostasse e confiasse o suficiente para esperar que nosso relacionamento durasse mais um mês ou dois depois que realizássemos a façanha.

Assim, esperei, ficando mais e mais envergonhada do meu status, embora nunca perturbada o bastante para entregar as pontas e transar com quem não estivesse a fim.

Sentir vergonha da vida sexual é uma experiência tão antiga quanto a civilização ocidental. Quer fosse com gays forçados a sepultar os desejos sexuais por medo de serem marginalizados ou mortos ou com adolescentes grávidas enviadas a "maternidades" para ter os filhos distantes dos vizinhos bisbilhoteiros, o sexo tem sido tratado como uma medida da nossa propriedade, cuidadosamente monitorada quanto ao menor sinal de não conformidade.

Contudo, nas últimas décadas, os padrões pelos quais nossa sexualidade é avaliada --e as fontes de nossa vergonha sexual-- evoluíram. O sexo deixou de ser apenas uma coisa que não nos deixam fazer para não sermos julgados como sujos e depravados. Também é algo que devemos fazer ou seremos declarados patéticos, puritanos e indesejáveis.

Não se trata de dizer que as velhas ortodoxias desapareceram por completo. Ainda vivemos em um mundo repleto de "slut shaming" [fazer uma mulher se sentir inferior devido ao comportamento sexual] e homofobia. Porém, esses padrões agora são acompanhados por um novo e mais insidioso conjunto de ideais e aspirações em torno da frequência, desempenho e identidade sexuais.

Tais ideais são implícitos nas pesquisas habituais sobre nossa frequência sexual, rapidamente transformada pela cultura popular em doutrinas da quantidade de sexo que devemos fazer (duas a três vezes por semana, como qualquer leitora regular de uma revista feminina irá dizer). Eles estão na descrição do sexo como uma torneira que sempre pinga, da qual todos bebem, e na insinuação de que o seu sexo provavelmente não é interessante a ponto de satisfazer as necessidades do seu parceiro ou, em primeiro lugar, de garantir um par.

Todavia, a parte mais inegociável da nova ortodoxia sexual é simplesmente que se deve estar fazendo sexo. Se você fizer parte de um casal, o sexo é a medida da saúde da sua relação --um barômetro isento do quanto você deseja seu parceiro e do quanto ele ainda deseja você. Se você for solteiro, sua vida sexual é um reflexo do seu valor de mercado --do nível de atratividade e da profundidade com que está engajado com a sua vida. Como Helen Gurley Brown, a editora fundadora da revista americana "Cosmopolitan" ficou famosa por dizer, "minha filosofia é a de se você não está transando, você está acabada".

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Se sexo é bom e prazeroso, uma vida sem ele deve ser deficiente. Se for natural, não fazer sexo significa desafiar a natureza. Se o sexo é o prazer supremo, não fazer tudo que pode em busca dele sugere que você está fraco. Se poderia estar transando, mas não está, você deve ser reprimido ou indesejável.

Esse não é só um problema para virgens de 20 e poucos anos. É um problema para qualquer um que já temeu que sua vida sexual fosse diferente do que poderia ser. Ou seja, é um problema para quase todos nós.

Por mais gostoso e prazeroso que o sexo possa ser, a maioria vive períodos em que a vida sexual não bate com o roteiro oferecido para nós. Talvez você queira menos sexo do que antes e está pensando qual é o significado disso para a sua relação. Talvez você esteja em um celibato quase involuntário em um mundo que imagina a vida de solteiro como um longo episódio da série "Sex and the City" ou "Entourage". Talvez seu impulso sexual seja ardente, mas você não consegue dar vazão a ele ou seus desejos carnais mais profundos são algo a que você foi criado a pensar como nojento. Talvez você nunca tenha entendido porque dão tanta bola para isso e prefere sair com os amigos ou comer uma bela fatia de pizza.

Provavelmente, o sexo sempre será um assunto que nos afeta profundamente. Ele está relacionado demais à maneira pela qual a maioria das pessoas se conecta e encontra intimidade com as outras (sem mencionar o impulso de liberação do desejo sexual e das consequências reprodutivas do intercurso heterossexual). Porém, ele não precisa ser tão cheio de emoção --e simbolismo-- como é. Nós não deveríamos ser obrigados a sentir vergonha de nosso desejo pelo sexo, mas também não deveríamos sentir vergonha por não conseguir fazer sexo.

Para mim, em parte foi a passagem do tempo que me ajudou a ir além da vergonha que sentia por minha virgindade. Bem como o amadurecimento e a entrada em um relacionamento que me deixou mais perto dos ideais determinados para mim por minha cultura.

Entretanto, também foi a percepção de que mesmo se minha fonte particular de vergonha fosse unicamente minha, a sensação de não ser "suficiente" em termos de sexo era comum a muitos de nós, e que uma das melhores maneiras de dissolver essa ansiedade era compartilhar as partes de nossas histórias que nos deixam mais incomodados.

Para que fique claro, eu tinha 26 anos.

*Rachel Hills é autora de "The Sex Myth: The Gap Between Our Fantasies and Reality" ("O Mito do Sexo: o Abismo entre nossas Fantasias e a Realidade"; Simon & Schuster, 2015).

 

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