Comportamento

Depressão testa vínculo e cumplicidade dos casais; saiba como lidar

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A pessoa deprimida fica muito dependente de receber atenção e troca muito pouco Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL, em São Paulo

05/02/2016 11h54

 

Falta iniciativa para as atividades a dois? A libido está baixa? O sexo, quando existe, não é prazeroso? O que soa como crise no casamento pode ser um sinal de que a depressão está afetando um dos integrantes do casal.

“Em uma relação, precisa haver trocas constantes para construir um sentido para o casal estar junto, que traga satisfação a ambos. Uma pessoa deprimida tende a se desinteressar pelo que está à sua volta, é pouco criativa, tem o humor afetado e, portanto, grande dificuldade de realizar essas trocas. Ela fica muito dependente de receber e dá muito pouco”, afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Cuschnir, coordenador do Gender Group do Ipq-HC (Grupo de Psicoterapia sobre Gêneros para Homens e para Mulheres do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas) de São Paulo.

De acordo com Miriam Barros, terapeuta familiar e de casal de São Paulo, sono excessivo ou insônia e problemas com apetite --e consequente aumento ou diminuição do peso-- são outros componentes decorrentes da depressão. Ou seja, o problema torna-se de ambos e uma prova de fogo para testar o vínculo e a cumplicidade.

Primeiro passo: aceitação

Para ajudar o par a enfrentar a doença, é fundamental reconhecer que a pessoa está fora do seu padrão normal de comportamento e que pode estar doente. Em seguida, deve-se incentivar a busca por ajuda médica e psicológica.

“A família é essencial no tratamento, pois, se não houver compreensão, aceitação e paciência para aguardar a medicação surtir efeito, a situação do casal poderá ficar cada vez mais difícil, e o tratamento poderá demorar a alcançar bons resultados”, declara a psiquiatra Elisabeth Maria Sene-Costa, mestre em psiquiatria pelo Ipq-HC e autora do livro “Universo da Depressão” (editora Ágora).

Mostrar-se presente e apoiar é a melhor atitude. “É importante também fazer com que o outro entenda que o que está passando não é um fracasso pessoal”, fala a analista junguiana Vanda Lucia Di Yorio Benedito, coordenadora no Núcleo de Terapia de Casal e Família da SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica).

Luiz Cuschnir ressalta ainda que, em geral, a pessoa deprimida tem áreas da vida nas quais se sente melhor: quando está com a família, por exemplo, ou realizando algum hobby. Essas “ilhas de melhora” devem ser incentivadas, priorizadas e servir como um canal de comunicação.

Já no topo da lista de coisas a não fazer, estão criticar o comportamento depressivo da pessoa e culpá-la por seus sintomas.

Calma nos conselhos

Como a doença é biológica e existem alterações cerebrais que ocorrem no seu curso, por mais que o deprimido queira se esforçar para realizar alguma atividade, quase sempre não consegue.

“Encher a pessoa de conselhos não ajuda. O estímulo para voltar a desempenhar as atividades sociais e no trabalho pode ser útil, mas deve ser na medida e na hora certas, quando o paciente já tem condições de reagir”, diz o psiquiatra e pesquisador Fernando Fernandes, médico-assistente do Programa de Transtornos Afetivos do Ipq-HC.

Embora doente, a pessoa deprimida também pode encontrar mecanismos para lidar melhor com o problema na convivência a dois. É bom não se isolar demais em relação ao outro e mostrar que precisa ser ajudado e, de fato, buscar essa ajuda médica e psicológica.

“Conversar com o par abertamente sobre as dificuldades que está enfrentando pode ajudar. Assim, por exemplo, se o depressivo procura evitar algum evento social, o outro não irá interpretar como má vontade", diz Fernandes. Convidar o parceiro para conversar com seu terapeuta é uma boa ideia para ajudá-lo a compreender o que é a depressão.

Doença pode voltar

Segundo dados do Ipq-HC, quem apresenta um episódio depressivo, mesmo que o trate, tem cerca de 50% de risco de ter outro ao longo da vida. Não há cura para a depressão, mas existem procedimentos eficazes para controlá-la. Em alguns casos, quando há três ou mais episódios depressivos, indica-se o tratamento de manutenção para evitar a recorrência da doença.

“O casal pode se ajudar estando cada qual atento ao companheiro e, ao reconhecer sintomas incipientes da depressão, estimular o par a procurar auxílio precocemente”, afirma o psiquiatra Fernando Fernandes.

Segundo Miriam Barros, muitas pessoas abandonam o tratamento quando se sentem melhor e com isso não completam o tempo necessário para o cérebro reaprender e criar novas conexões.

“É essencial seguir à risca o tratamento pelo período determinado pelo psiquiatra e psicólogo, pois tanto a medicação quanto a psicoterapia são importantes no tratamento da depressão.

E, se for o caso, o parceiro pode fazer também um trabalho de aconselhamento com um psicólogo ou participar de grupos de ajuda para familiares de pessoas com algum tipo de doença psíquica. Isso ajuda a compreender como lidar com a própria vida e o casamento durante o período de tratamento”, afirma Miriam Barros.

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