Relacionamento

Em vez de evitar, Facebook compartilhado por casal pode gerar mais brigas

Arquivo Pessoal
Tainá Ribeiro pediu e Leandro Nascimento topou que eles dividissem um único perfil no Facebook Imagem: Arquivo Pessoal

Do UOL

14/10/2016 07h05

O casal Leandro Nascimento, 36, educador físico, e Tainá Ribeiro, 36, assessora de vendas, é um dos muitos que utiliza perfil conjunto no Facebook. A iniciativa foi de Tainá, que tinha como principal objetivo “monitorar as conversas dele”. No início, o marido resistiu, mas fechou um acordo: ambos deletariam os perfis individuais, para seguir atuando juntos na rede social. Aparentemente, o combinado deu certo.

“Temos muitos amigos em comum e nada para esconder um do outro. Então juntar o perfil foi até conveniente. Sem contar que as brigas diminuíram muito desde que tomamos essa decisão”, afirma Leandro.

Casos assim são cada vez mais comuns. O que muda é a motivação para assumir um perfil único. “Havendo um consenso verdadeiro, provavelmente ambos os parceiros se sentirão bem e gratificados”, diz a especialista em terapia de casal e família Estela Noronha, mestre em psicologia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

O ideal é que casal converse a respeito dos motivos da decisão, além de estabelecer o que pode ser compartilhado com outras pessoas, o tipo de conteúdo que será exposto, curtido e comentado.

“É essencial que ambos estejam realmente satisfeitos com os termos combinados. Isso exige uma conversa franca e o estabelecimento de limites, que devem ficar bem claros para ambos”, diz Estela.

Quem é quem?

Mas a junção de duas pessoas em um único perfil também pode levar a confusões e agravar eventuais crises entre o casal. O assistente jurídico Carlos Alberto de Andrade Costa Junior, 34, passou por algumas saias-justas ao decidir compartilhar sua página com a mulher, Lígia Arsani Ferez Costa, 29, bióloga.

Arquivo Pessoal
Lígia Arsani Ferez Costa e o marido, Carlos Alberto de Andrade Costa Junior Imagem: Arquivo Pessoal
Isso porque ela fazia questão de conhecer a biografia completa de todas as mulheres que não eram de sua rede de contatos e que enviavam convites ao casal. “Tinha de falar quem era e de onde eu conhecia a garota antes de aceitarmos a amizade”, conta Carlos.

Com o tempo, a cobrança diminuiu. “Hoje, todos os nossos amigos sabem que fizemos essa opção. Então raramente discutimos por causa do Facebook”, afirma Carlos.

Para evitar outros tipos de mal-entendidos, quando deseja postar uma opinião pessoal, um dos dois assina o nome depois da mensagem, entre parênteses.

“Se o amigo é muito próximo, a gente sente necessidade de se identificar, para ele saber quem foi que escreveu. E ficou bem-resolvido assim”, fala Carlos. 

Para o psicólogo Thiago de Almeida, especialista no tratamento das dificuldades do relacionamento, mesmo que haja um consenso entre o casal, a atitude de criar um perfil conjunto favorece a perda da individualidade dos envolvidos.

“É essencial que, dentro e fora do Facebook, o casal tenha os próprios amigos, pensamentos e opiniões. Um não pode se anular pelo outro”, declara o especialista.

Quando isso acontece, o risco é que o relacionamento, em vez de se tornar mais harmonioso e saudável, caminhe rapidamente para o fim.

“Manter a individualidade não implica em colocar a relação em uma situação de risco. É bem o contrário. O exercício da individualidade pode tornar o relacionamento mais completo”, afirma Érika Esteves, psicóloga pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

Qualidade da relação é o que importa

É claro que o fato de ter um perfil comum não é suficiente para anular a individualidade dos pares. Da mesma forma, um perfil conjunto não é capaz de equacionar os problemas do casal relacionados à falta de confiança e à insegurança pessoal.

“Se a principal motivação para montar um perfil conjunto é o ciúme, as chances de dar certo ficam relativamente menores. O mais conveniente é enfrentar o sentimento e buscar maneiras efetivas de lidar com ele”, diz Érika. 

Segundo os especialistas ouvidos pelo UOL, o que deve pesar mais na decisão de fazer o perfil conjunto --e de mantê-lo ou não– são os ganhos para a relação. Se ela evolui melhor, pode ser um sinal de que o combinado realmente ajuda a evitar conflitos e desgastes.

Porém se o perfil compartilhado gera ainda mais motivos para desconfiança e brigas, talvez seja interessante repensar a estratégia.

“O diálogo entre o casal deve ir muito além do Facebook. Em um relacionamento, deve-se saber o que um gostaria e não gostaria que o outro fizesse”, afirma a psicóloga Érika. Com base nisso, os dois podem discutir os combinados, além de praticá-los com segurança e convicção.

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