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Quem não compreende o próprio sucesso pode sofrer de síndrome do impostor

Embora selecionada para estudar em Harvard, Natalie Portman passou a faculdade não se achando boa o suficiente para estar lá - Alessandro Bianchi/Reuters
Embora selecionada para estudar em Harvard, Natalie Portman passou a faculdade não se achando boa o suficiente para estar lá Imagem: Alessandro Bianchi/Reuters

Do UOL

07/11/2016 15h04

Em discurso na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em 2015, onde cursou psicologia, a atriz Natalie Portman disse que, durante o período em que estudou na prestigiada instituição, sentia que não era inteligente o suficiente para estar lá. “Achava que cada vez que abrisse minha boca teria de provar que não era apenas uma atriz estúpida.”

A também atriz Emma Watson já assumiu sensação parecida em uma entrevista para a revista on-line “Rookie”, em 2013. “Parece que quanto melhor eu me saio, maior é o meu sentimento de inadequação. Porque penso que, em algum momento, vão descobrir que sou uma fraude e que não mereço nada do que conquistei.”

Natalie e Emma são exemplos de um fenômeno psicológico relativamente comum chamado de síndrome do impostor. Pensamentos como os das atrizes são bastante frequentes entre profissionais bem-sucedidos, das mais diversas áreas.

O termo apareceu pela primeira vez na década de 1970, em um estudo de duas pesquisadoras e psicólogas clínicas da Universidade do Estado da Geórgia, nos Estados Unidos. Elas conversaram com 150 mulheres bem-sucedidas, que, a despeito de suas conquistas, não se consideravam merecedoras de reconhecimento.

As que se destacavam no meio acadêmico, por exemplo, imaginavam que só tinham sido aprovadas na universidade por conta de erro de pontuação no processo de seleção.

O psicólogo Fernando Elias José, mestre em psicologia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Grande do Sul, trabalha com estudantes que se preparam para concursos públicos e confirma a existência do problema mencionado no estudo norte-americano, ainda hoje, 40 depois.

“Vários alunos, depois de passarem nos concursos desejados, relataram serem fraudes e disseram que não sabiam como iam conseguir enganar as pessoas dali para a frente”, afirma Elias José.

A síndrome do impostor não é causada por medo, insegurança ou baixa autoestima, embora esses sentimentos possam aparecer em quem vivencia o fenômeno psicológico.

“Trata-se de um comportamento perceptivo distorcido. Todos reconhecem uma habilidade naquela pessoa, mas ela mesma não consegue enxergar valor no que faz”, explica o psicólogo Nicodemos Borges, especializado em terapia comportamental e cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo).

Quem sofre com o problema tende a acreditar que todas as suas conquistas derivam apenas de circunstâncias alheias às próprias capacidades.

Um sinal claro da síndrome é o desconforto após receber um elogio. Nessas circunstâncias, a pessoa pode ter acabado de fazer algo muito bem feito, mas, ao ser elogiada pelos colegas, responde: “Não foi tão bom, faltou fazer isso ou aquilo”.

“A pessoa enxerga o seu trabalho menor do que os dados da realidade mostram que ele é”, diz a psicóloga e coach de carreira Daniela de Oliveira.

Os prejuízos mais comuns da síndrome são o atraso em promoções de cargo, já que há um receio de galgar posições. Há também o risco de ser explorado por outras pessoas, que podem aproveitar a percepção distorcida do profissional para ganhar os méritos do trabalho dele.

Por fim, um profissional com essa síndrome pode ser visto como chato e negativo no ambiente profissional. “Essas pessoas também podem manifestar ansiedade e, com certa frequência, depressão”, diz a psicóloga.

Homens também são atingidos

Por conta de declarações de celebridades como Natalie Portman e Emma Watson e dos estudos já realizados envolvendo mulheres, é comum achar que a síndrome só acomete figuras femininas. O que não é verdade, segundo Daniela de Oliveira.

Empiricamente, pela experiência em consultórios, sabe-se que homens também sofrem com o fenômeno, mas faltam estudos com amostras significativas que comprovem o que se vê no dia a dia.

Os sinais da síndrome nem sempre se manifestam de forma contínua. “Geralmente, as pessoas vivenciam isso de tempos em tempos, em algumas situações específicas”, diz o psicólogo Ghoeber Morales, mestre em análise do comportamento pela PUC de São Paulo.

Nesses momentos, é preciso pedir a ajuda de pessoas confiáveis, que auxiliem a enxergar a contribuição individual para o próprio sucesso. “Tem de ser bastante prático e avaliar as evidências concretas da conquista. Quais atitudes, habilidades e competências fizeram a diferença em cada parte do processo?”, fala Morales.

Para Elias José, o fato de observar e ouvir que o sucesso alcançado foi construído --e não conseguido por sorte, indicação ou ajuda dos outros-- fará com que a pessoa reflita sobre a sensação de impostor.
 
Daniela e Morales ainda recomendam que o indivíduo procure um psicólogo especializado em terapia cognitiva comportamental, caso sinta necessidade de ajuda profissional.