Equilíbrio

Comedores seletivos sofrem com ansiedade em refeições e ocasiões sociais

Juliette Borda/The New York Times
Entre 2.600 adultos considerados comedores seletivos, 75% disse que padrão começou na infância Imagem: Juliette Borda/The New York Times

Emily Dwass

Do The New York Times

30/11/2016 14h40

As crianças são conhecidas como seletivas ao se alimentar, mas o que acontece a essas pessoas quando crescem?

Muitas deixam para trás seus hábitos peculiares de alimentação conforme envelhecem, mas "o que é menos certo são os indicadores de quem continuará sendo seletivo na idade adulta", afirma Nancy Zucker, psicóloga diretora do Centro para Distúrbios Alimentares da Universidade Duke, nos Estados Unidos. Ela é a principal autora de um estudo de 2015 que ligou a seletividade ao comer em crianças em idade pré-escolar a problemas emocionais.

Os adultos podem continuar mantendo as preferências infantis –os legumes lideram a lista dos menos preferidos–, mas acrescentam mais restrições, como consumir somente alimentos em forma de purê ou limitar a dieta a refeições insossas com farinha branca. Segundo Nancy, em uma amostra de 2.600 adultos que se identificaram como seletivos, 75% relataram o padrão iniciado cedo na vida.

As estimativas de alimentação seletiva na infância variam amplamente, indo de 5% a mais de 25%, dependendo da definição da seletividade. Mas "não existe consenso da prevalência em adultos", diz Nancy. Um dos motivos é que muitos adultos tentam manter o hábito em segredo, uma fonte comum de estresse, que pode levar a problemas pessoais ou profissionais.

Quando criança, Stephanie Lucianovic, autora de um livro sobre o tema, escondia os legumes ou tampava o nariz durante as refeições. Quando adulta, a seletividade trouxe novos desafios quando ela se apaixonou por um homem de uma família entusiasmada por comida.

"É uma coisa assustadora a superar. As pessoas não escolhem detestar comidas. Existe muita vergonha envolvida. Não há muita simpatia pelos comedores seletivos", afirma ela.

Stephanie conta que o segredo para pôr um fim em sua seletividade à mesa foi contar com o apoio de um cônjuge que não a criticava e aprender a cozinhar. Ela ainda evita legumes cozidos no vapor, mas agora gosta deles tostados ou refogados. "É possível redefinir o padrão do que se gosta ou não. Fiz isso ao continuar experimentando as coisas de maneiras diferentes."

Pesquisadores da Duke e da Universidade de Pittsburgh estão estudando comedores seletivos adultos por meio de questionários on-line. Entre as perguntas: "Você fica ansioso com situações sociais porque se espera que você coma?" e "Você tem ânsia de vômito quando prova algo de que não gosta"? Cerca de 40 mil adultos completaram a pesquisa.

As causas para a seletividade de longo prazo, no entanto, ainda são mal compreendidas. Em alguns casos, um susto durante uma refeição infantil, engasgando ou vomitando, pode levar a se temer um ou mais alimentos. "As lembranças ligadas à comida são muito poderosas", afirma Nancy Zucker, acrescentando que a ansiedade social ligada à seletividade parece aumentar com a idade.

Outras pessoas podem ter uma sensibilidade ampliada "ou mesmo uma percepção distorcida quanto a determinados gostos e cheiros", diz Juyun Lim, professora auxiliar de nutrição e tecnologia da Universidade Estadual do Oregon, cuja pesquisa se concentrou no papel dos sentidos nas preferências alimentares.

Todo alimento contém de dezenas a centenas de compostos voláteis que determinam o aroma e o sabor, conta ela, mas o mesmo alimento pode ser percebido de formas distintas por dois indivíduos.

"Dependendo da genética, uma comida pode ter gosto agradável ou desagradável", diz Juyun. Enquanto alguém pode gostar do sabor do coentro, por exemplo, outra pessoa pode achar que parece sabão. Outro exemplo é o porco, que contém um composto que nem todos detectam ou que descrevem como agradavelmente floral, enquanto outros o qualificam como similar a suor ou urina.

Às vezes, aprendemos a gostar de alguma coisa o quanto mais somos expostos ao alimento. "A primeira vez que se toma cerveja o gosto nunca é bom", compara Juyun.

A textura também desempenha um papel na aceitação. Um exemplo é o quiabo, cuja baba muitos consideram desagradável. Jane Kauer, antropóloga da Universidade de Pensilvânia, ficou surpresa quando a pesquisa revelou que alguns adultos rejeitavam tomates crus por motivos que não tinham nada a ver com o sabor. Os participantes relataram se sentir repelidos pela "coisa nojenta que acontece quando se fura um tomate e o interior sai".

Muitos comedores seletivos adultos querem mudar, mas consideram certos alimentos pouco atraentes para se colocar no prato. Em casos extremos, podem evitar todos os alimentos, problema que a Associação Psiquiátrica Americana chama de TAS (Transtorno Alimentar Seletivo).

De acordo com Nancy, alguns comedores seletivos adultos procuram a ajuda do Centro da Duke quando estão preocupados em serem exemplos ruins para os filhos, por exemplo, ou entram em pânico ao frequentar refeições de negócios. Psicólogos e assistentes sociais ajudam os pacientes a ter uma perspectiva dos fatores biológicos, emocionais e sociais por trás do hábito.

"As experiências da pessoa muitas vezes precisam ser completamente compreendidas antes que as mudanças sejam consideradas", afirma Zucker. Os novos alimentos são então lentamente introduzidos na tentativa de ampliar o paladar.

Nancy comparou o processo à recuperação física de uma lesão, exigindo muito trabalho e prática. Pacientes que comem somente alimentos em formato de purê podem, por exemplo, precisar se consultar com um terapeuta ocupacional para aprender a mastigar e engolir de forma mais eficaz. Eles também aprendem a lidar com situações como comer em público ou explicar suas preferências alimentares a outras pessoas.

Uma coisa os especialistas aconselham: não empurre comida para comedores seletivos adultos. "É incrivelmente estressante para eles, porque a maioria se sente à vontade para dizer: 'Vamos, experimente. É delicioso'", explica Jane Kauer.

Embora a preocupação dos entes queridos seja compreensível, os comedores seletivos a consideram invasiva e uma agressão, diz ela. "Isso é invadir seu espaço, e não tem nada a ver com você."

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