Equilíbrio

Mais do que um novo órgão, transplantados encontram amor e espiritualidade

Natália Eiras

Do UOL

01/12/2016 12h36

Receber um novo órgão é um momento agridoce: o receptor ganha mais uma chance, mas, geralmente, às custas da vida de outra pessoa. Porém, por mais complicada que seja, a situação rende histórias que vão além da superação, tornando-se trajetórias de amor dignas de filme de Hollywood ou o reencontro de uma grande família que não teria se conhecido se não fosse a morte de um ente querido.

Veja alguns relatos a seguir.

Lucas Lima/UOL
Serge recebeu fígado após primeiro receptor morrer na cirurgia Imagem: Lucas Lima/UOL
Serge R. Vandevelde, 77, de São Bernardo do Campo (SP)

"Em uma pescaria no Mato Grosso, em 2007, tive minha primeira crise hepatológica. No ano seguinte, em um exame de rotina, descobriram pequenos nódulos malignos no fígado. O médico avisou que a única solução seria um transplante. Em uma caminhada, tropecei e quebrei sete costelas. O ferimento me rendeu o apelido de 'urso', porque o aguentei mesmo aos 70 anos. Apesar de ter ficado seis semanas fora da lista de transplante, em uma quarta-feira, antes do Carnaval, cheguei em casa todo suado após uma caminhada quando o telefone tocou. Era o hospital pedindo para eu não comer nada e voar para lá. Ao chegar, minha vizinha, que é anestesista e acompanharia o transplante, disse-me que o fígado era de um doador de 46 anos que havia morrido em um acidente de carro. Quando abri os olhos novamente, vi que não estava mais na sala de cirurgia. Uma senhora de azul entrou e conversou comigo. Não entendi muita coisa, mas eram palavras bonitas. Quando perguntei para as pessoas, ninguém tinha visto a mulher. Minha vizinha explicou, depois, que toda a correria foi porque o paciente que deveria receber o fígado morreu na mesa de operação. Meu médico, então, disse que, para receber aquele fígado, eles 'precisavam de um urso'. A equipe me chamou por esse apelido durante toda a internação. Nunca soube quem era a misteriosa mulher com quem falei. Fico pensando se era uma parente do meu doador. Penso nele todos os dias. Antes de passar pelo transplante, era ateu e agora sou espírita. Rezo todos os dias pelos dois homens que desencarnaram para me dar uma nova vida."

Arquivo Pessoal/UOL
Augusto e Jéssica se conheceram no hospital após ambos fazerem transplante de rins Imagem: Arquivo Pessoal/UOL
Jéssica Correia Boff, 26, de Passo Fundo (RS)

"Quando tinha 17 anos, tive uma hemorragia após a menstruação e fui levada para o hospital. Após ter uma convulsão, os médicos descobriram que meus rins eram do tamanho de um grão de feijão e não funcionavam, por isso precisaria de transplante. Minha mãe e minha tia poderiam ser minhas doadoras, mas tive complicações como hepatite C, contraída da máquina de hemodiálise, e trombose, o que fez com que meu procedimento só acontecesse em agosto de 2011. Augusto, que eu não conhecia, sabia que teria de fazer hemodiálise e transplante desde criança. Fizemos o transplante de órgão nos mesmos dia e hospital. Após o procedimento, ficamos em leitos um do lado do outro na UTI. A gente mal se via porque eu estava bem, enquanto Augusto estava debilitado. Quando ele teve uma parada cardíaca, senti meu coração acelerar de uma maneira estranha, mesmo não o conhecendo. Após alguns dias, fui transferida para o quarto, mas ainda ouvia as histórias de superação de Augusto, que estava lutando por sua vida. Quando soube que ele também tinha ido para o quarto, pedi para ser apresentada a ele. Foi difícil vê-lo ligado a tantos aparelhos. Achei os olhos dele muito tristes e decidi passar mais tempo com ele no hospital. A gente ficava jogando stop e se tornou amigos. Quando recebi alta, nós nos adicionamos nas redes sociais e trocamos os números de celulares. Foi por telefone que nos declaramos um para o outro. A partir daí, começamos a nos ver uma vez por semana, quando eu retornava ao hospital para as consultas, já que éramos de cidades diferentes. Eu de Passo Fundo, ele, de Pelotas. Augusto também recebeu alta, e o namoro à distância ficou um pouco mais difícil, pois não tínhamos nem mais as visitas semanais no hospital. Três meses após o transplante, Augusto voltou a ser internado por 15 dias por causa de um vírus e fiquei com ele como acompanhante. Depois foi a minha vez de ser internada, porque tive uma infecção urinária. Ele também estava internado para retirar o cateter por onde fazia hemodiálise. A gente namorou mais no hospital do que em casa [risos]. Após nove meses de relacionamento, Augusto pediu a minha mão em casamento. Estamos juntos e felizes há cinco anos."

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