Comportamento

"Tour racista": Fazenda faz funcionários atuarem como escravos e é detonada

Reprodução/Facebook
Funcionários precisam se vestir como escravos em fazenda no interior do Rio de Janeiro Imagem: Reprodução/Facebook

Do UOL, em São Paulo

06/12/2016 20h49Atualizada em 08/12/2016 17h13

A Fazenda Santa Eufrásia, localizada em Vassouras, no Rio de Janeiro, viralizou nas redes sociais após uma reportagem do The Intercept Brasil, que mostrou que são realizadas encenações do período da escravidão, em suas instalações, que datam do início do século 19. Nos passeios, que são vendidos como turísticos, a proprietária, Elizabeth Dolson, se traja como “sinhá” e comanda empregados vestidos como escravos.

Em entrevista ao UOL, Elizabeth negou que as encenações no passeio eram racistas e disse que os visitantes nunca reclamaram. “É como um teatro. Não tem nada a ver com realidade. Ninguém é sinhá, ninguém é mucama aqui. A gente faz uma peça. Não tem nada de racismo. Tem mucamo branco, preto, gente de tudo quanto é cor. As pessoas veem as minhas mucamas e tem uns que dizem 'olha, gostei tanto que dei um trocadinho para elas'. Tem gente que antes de sair tira foto”, afirmou.

Para Douglas Belchior, fundador e professor no Movimento Uneafro-Brasil, o que existe no país é uma cultura de negação do que significou a escravidão. “Todo mundo é educado a negar a história e a permanência da escravidão. Não lemos sobre o que foi esse período. Essa educação atinge tanto os que foram privilegiados quanto os que foram vitimados pela escravidão. É por isso que essa senhora acha que o que ela promove não é racismo e terão negros que vão concordar com ela. Na verdade, todos nós somos alvo dessa cultura racista que nos incita a ignorar a escravidão e sua permanência no cotidiano”, explica Belchior.

Para o professor, os resquícios da escravidão permanecem em nosso cotidiano quando observamos momentos drásticos, como a grande quantidade de jovens negros que morrem pela mão do Estado. “Se não percebo racismo e permanência da escravidão nesse cotidiano bárbaro, não tem como perceber a escravidão em algo mais ‘brando’, como em uma encenação em uma fazenda escravocrata”, fala.

Na opinião de Djamila Ribeiro, pesquisadora na área de filosofia política e secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidade de São Paulo, esse tipo de encenação romantiza um período extremamente violento da história do Brasil. “Não existe a mesma postura com algo como Auschwitz, por exemplo. E com isso percebemos que não existe uma sensibilidade com a dor negra, como da dor de judeus, por exemplo. É um absurdo também quem deseja se colocar nessa posição de escravocrata, revivendo isso. Obviamente, a gente tem que lembrar do período, mas de forma a reparar o que foi feito durante esse tempo e de forma alguma romantizá-lo”, opina.

Belchior acredita que as pessoas veem essa romantização com normalidade por não haver uma crise de consciência na nossa história. “Nossos colonizadores eram profundamente religiosos e católicos e como uma cultura tão temente à Deus cometia práticas tão bárbaras? Para legitimar isso, foi construída uma ideia de que os negros não tinham alma, que a categoria de ser humano não nos pertencia, éramos animais, como cavalos e cachorros, e foi assim por 400 anos”, explica.

Para ele, no entanto, essa mentalidade ainda permanece para justificar a violência cotidiana que os negros sofrem no Brasil. “As pessoas não se comovem com a violência sofrida pelos negros. Quando um jovem branco morre em um bairro que não seja de periferia, a opinião pública reage de uma maneira diferente. Somos educados a não estranhar a violência em um corpo negro”, diz.

Medidas jurídicas

Segundo Marcelo Dias, presidente da Comissão de Igualdade Racial de OAB-RJ, no Brasil, o racismo é um crime inafiançável e a ONU (Organização das Nações Unidas) também o classificou como um crime imprescritível contra a humanidade. “Ao reproduzir fatos lamentáveis do período escravocrata, ela se coloca contra o tratado internacional que o prevê como um crime contra humanidade. Nós iremos fazer denúncias e mobilizar não só o MP (Ministério Público), mas também o poder judiciário para interromper essa prática criminosa que nós não admitimos”, explica.

Dias explica que além de construir um dossiê e entrar com uma petição para adicionar o poder judiciário e o MP, as comissões da OAB também querem mobilizar o movimento negro. “Queremos organizar uma manifestação na frente da fazenda. Mas a nossa primeira reivindicação é o fechamento imediato desse tipo de turismo de terror e nós iremos acionar a proprietária judicialmente para que ela responda pelo crime de racismo”, diz.

Procurada novamente para comentar sobre as repercussões negativas dos passeios da fazenda, Elizabeth disse que não falaria mais nada a respeito e desligou o telefone.

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