Equilíbrio

Modelos se unem e relatam apuros que vão de roubo a tentativa de estupro

Getty Images
Sem contratos com agências, as modelos independentes estão à mercê de alguns fotógrafos Imagem: Getty Images

Thamires Andrade

Do UOL

03/01/2017 07h03

Sem contratos com agências, as modelos independentes geralmente são profissionais “fora do padrão”, ou seja, são tatuadas ou não tem as medidas de quadril ou altura exigidos pelas empresas. E é na internet que essas profissionais mais atuam, seja para participar de projetos independentes, atualizar o portfólio de um fotógrafo ou atuar na divulgação de marcas ou bandas. No entanto, essas modelos costumam enfrentar diferentes tipos de assédio tanto de fotógrafos como de pessoas que fingem que trabalham na área.

Elas explicam que têm medo de represálias, e por isso não denunciam os comportamentos inadequados dos fotógrafos à polícia. A maneira que encontraram para se unir foi criar grupos de Facebook e WhatsApp para alertar umas as outras sobre os assédios que sofreram nos ensaios ou fora deles.

Veja, abaixo, os relatos das modelos ao UOL sobre as situações delicadas que já viveram na profissão.

Luana Mercês, modelo independente, 23 anos

Conheci um "fotógrafo" no final de 2014. Ele me encontrou no Instagram e me mandou uma mensagem. Na época, eu não tinha feito fotos com nenhum profissional, apesar de já ter recebido outros convites pela mesma rede social. Não topei o ensaio de imediato, mas ele pediu meu número e começou a insistir pelo Whastapp, sempre muito simpático. No começo, fiquei com medo, mas ele disse que a mãe dele estaria lá no apartamento no dia das fotos e como ele tinha muitos seguidores no Instagram, pensei que ele fosse um bom profissional e acabei topando o ensaio. Chegando lá, não tinha ninguém e fiquei assustada. Ele foi logo fechando a porta e começou a me assediar, ficou tentando me beijar sem parar. Nisso, ele disse que não teria ensaio algum, que ele só me chamou por que tinha gostado de mim e queria ficar comigo. Fiquei sem reação, me senti "forçada" a ficar com ele. Nisso, ele já abaixou as calças e queria ter relações comigo. Fiquei tão irritada quando caiu a ficha e percebi que fui enganada, peguei a calça dele e joguei longe. Mandei ele abrir a porta para que eu pudesse ir embora. Ele ficou muito irritado por que o celular dele estava dentro da calça e começou a gritar comigo. Fiquei com medo, mas, finalmente, ele abriu a porta e eu consegui ir embora. Cheguei em casa, chorei muito, fiquei com nojo de mim mesma e fiquei me sentindo culpada, lembrando de outros abusos que sofri na minha infância. Mas esse episódio me ajudou a não confiar em qualquer "fotógrafo". Hoje, a maioria dos meus trabalhos são feitos por fotógrafas, pois perdi a confiança com os profissionais homens. Se vou fazer foto com algum homem, sempre pesquiso sobre eles, para não passar por isso novamente.

Marjorie*, ex-modelo independente, 21 anos

Por quase 3 anos fui modelo independente, mas hoje me afastei do ramo por alguns motivos pessoais. Durante o tempo que trabalhei na área passei por uma situação muito desagradável durante um ensaio: o fotógrafo ficava me elogiando a cada clique e me olhando de um jeito estranho, não tirava os olhos dos meus seios. Ele fazia elogios como "isso, está linda", "essa pose está ótima, maravilhosa", mas sempre com um tom malicioso, a ponto de me deixar desconfortável. Comecei a fechar a cara e fui perdendo o ânimo de tirar as fotos, até que decidi pedir para ele parar. Percebi que ele ficou irritado de eu querer embora, mas fui chamar meu namorado, que estava em outro cômodo da locação. Só contei para ele o que aconteceu depois, pois fiquei com medo que o fotógrafo fizesse algo contra nós dois. Depois que isso aconteceu, acabei ficando bem insegura e resolvi me afastar da profissão.

Serenna**, modelo independente, 25 anos

Comecei a fotografar há menos de dois anos e tinha uma visão muito inocente. Tive a sorte de nunca passar por um abuso presencial vindo de fotógrafo, pois sempre fui acompanhada nas sessões para coibir isso. Mas, online, já recebi várias mensagens de fotógrafos reclamando que eu ia acompanhada nas fotos. Quando dizia que levaria meu namorado, vários “profissionais” falavam que não queriam mais me fotografar, pois não sabiam que eu namorava. Outros, que tinham menos cara de pau, só falavam que outra pessoa presente 'atrapalharia que as coisas fluíssem'. Já teve fotógrafo me oferecendo uma 'extra' para que eu tivesse 'mais intimidade com ele'. A sorte foi que isso foi antes da sessão, então, desmarquei na hora. Outros ficavam me pedindo para mandar foto nua/com lingerie falando que queriam ver 'ver meu corpo’. Quando eu mandava com tarja, cheguei a receber mensagens dizendo que aquilo ‘atrapalhava ver o meu desempenho como modelo’. Muitos 'fotógrafos' que claramente estavam querendo me fotografar só para dar em cima e tentar aproximação. Ainda que não tenha sofrido um assédio físico, esse tipo de approach já aconteceu mais de 30 vezes nesses dois anos e acabei ficando ‘paranoica’ e me protegendo dessas situações sempre.

Stephanie Miyazaki, modelo independente, 23 anos

Tive duas experiências com fotógrafos durante meu trabalho como modelo independente. Um deles me chamou para fotografar e passou algumas referências esquisitas, algumas fotos de uma menina oriental amarrada com cordas vermelhas e nua. Expliquei que aquele não era meu estilo e ele disse que poderíamos fazer algo mais delicado. Enquanto fechávamos o ensaio, se eu demorava mais de cinco minutos para responder algo dele, já começava a reclamar. Até que ele falou que eu precisava pagar 50 reais pelo valor da locação e eu fiquei confusa, pois, como modelo, nunca tinha pago para fazer um ensaio. Questionei o porquê daquilo e ele disse que sempre pedia contribuição das modelos para o aluguel da locação. Achei suspeito, desconversei e cancelei o ensaio. Depois de um ano, fiquei sabendo de vários relatos de abuso dele. A outra situação aconteceu durante uma conversa com um outro profissional. Ele disse que eu parecia ser uma modelo versátil e, durante a conversa, ele disse que para fotografar com ele era preciso ser safada. Além disso, me ofereceu drogas para o dia do ensaio. Tentei contornar a situação, mas não consegui e falei que não queria mais fazer o ensaio.

Karina Wenceslau, 23 anos, modelo

Não sou uma modelo independente, tenho uma agência, mas recebo muitos convites para fotografar em projetos autorais, principalmente pelo Instagram. Geralmente, esses profissionais chegam para as modelos e falam que estão tocando um projeto pessoal, que gostaram do estilo dela, e aí começam a cantá-las. Teve uma vez que fui fazer uma sessão de fotos e o fotógrafo estava fumando comigo e começou a fazer comentários maliciosos. Dizia que eu era gata, gostosa e que estava difícil resistir a mim. Fui ficando sem graça e com medo, pois estava sozinha no estúdio com ele. Não sabia como sair de lá direito. Foi uma situação totalmente desconfortável e horrível. Por sorte, uma amiga minha estava lá perto e veio me buscar. Depois descobri que esse fotógrafo fez a mesma coisa com uma amiga minha. O pior é que alguns desses fotógrafos até tem fama, então, muitas meninas que não estão no meio e querem começar a modelar acabam caindo nessas furadas. O bom é que hoje temos muitos grupos no Facebook e quando algo acontece com alguma menina, elas denunciam o profissional, pelo menos na rede social. O problema é que muitas vezes o fotógrafo ainda entra na página para se defender e falar que a modelo é mentirosa. É o mesmo caso do fotógrafo famoso Terry Richardson. Ele abusou de várias modelos, mas quem realmente acreditou nelas?

* Sobrenome suprimido a pedido da entrevistada

** Nome alterado a pedido da entrevistada

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