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Cidade linda? Três visões sobre a medida de Doria cobrir grafites em SP

Alexandre Moreira/Folhapress
Paredes pintadas da avenida 23 de Maio, na região central de São Paulo Imagem: Alexandre Moreira/Folhapress

Vivian Ortiz

Do UOL, em São Paulo

23/01/2017 19h04

Instituído desde o primeiro dia de mandato do novo prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), o Programa Cidade Linda tem como principal objetivo revitalizar áreas degradadas da cidade. Uma das ações mais criticadas foi a ordem para apagar diversos grafites pintados no decorrer da avenida 23 de maio, assim como em outros pontos da cidade. A ideia é que os grafiteiros trabalhem apenas em determinados locais da capital paulista.

Para o Prof. Doutor Carlos Zibel, do Departamento de Projetos da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU-USP) apagar os grafites é um ato de mão única. "Foi uma verdadeira violência, uma falta de diálogo", avalia. Na visão do professor, a situação é um desrespeito com todos os artistas que trabalharam no mural, criando um problema onde não existe, pois todos os desenhos ali foram feitos após convite da administração anterior. "Se eles alegam que os desenhos estão desbotados, então poderiam convidar os artistas novamente para que retoquem ou repintem, porque os grafiteiros são uma dádiva da cidade", acredita.

Zanone Fraissat/Folhapress
Grafites na avenida 23 de maio, próximo à rua Vergueiro Imagem: Zanone Fraissat/Folhapress

De acordo com o especialista, o trabalho da grafitagem, em cima de elementos urbanos, é considerado uma arte em quase todo o mundo. "Tanto que sua influência nas artes plásticas contemporâneas é cada vez mais importante", diz.

Quanto a pichação, Zibel vê como algo mais agressivo. Apesar de também ser uma manifestação cultural, não possui uma intenção civilizatória, simplesmente sendo uma rebeldia, um ato contra o sistema como um todo. "Quando li as primeiras declarações do prefeito, me pareceu que ele também achava isso, pois falava em transformar os pichadores em grafiteiros, artistas, para serem respeitados e pensei que haveria esse diálogo", explica.

Tanto que ele considera válido a administração municipal futuramente oferecer espaços que julga mais adequados para serem grafitados, pois coloca os grafiteiros no mesmo patamar de um artista plástico que, muitas vezes, é convidado a expor seu trabalho em determinado museu ou galeria. "Eles poderãor aceitar ou não esse convite. Por outro lado, o grafiteiro tem o direito de achar que não é adequado".

Desumanização

Na visão de Sérgio Miguel Franco, doutorando em sociologia pela Universidade de São Paulo e co-curador da Pixação da Bienal de Berlim de 2012, apagar os grafites e pixos (escrito com X à pedido do entrevistado) é uma "desumanização da cidade". "Quando Doria apaga o desenho de todo mundo, está se apagando, pois a cara de São Paulo passa pelo grafite. É uma identidade que permite a qualquer um se projetar com os acontecimentos da cidade", ressalta.

Para ele, uma capital paulista possível é aquela em que se consegue fazer grafite e pichação livremente. E onde não é preciso apagar os desenhos expostos na avenida 23 de maio quase por completo apenas porque existe um material que não se gosta ali. "Eu não preciso achar a cidade ou o grafite lindos, mas na medida que o município absorve a liberdade da arte de se expressar, essa é uma cidade linda. Quando ela perde a possibilidade de ser livre, acaba toda essa beleza."

Controle

Já para Marcelo Oliveira, coordenador do curso de design da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o grafite não tem nada a ver com a pichação. "O primeiro é considerado uma forma de expressão e, portanto, de arte. Já a pichação vem como um movimento de negação, de contraponto, contestação. Trata-se de uma outra dinâmica que não a do grafiteiro, que é considerado uma expressão artística", explica.

Alexandre Moreira/Folhapress
Trecho da 23 de Maio já pintado Imagem: Alexandre Moreira/Folhapress

Sobre a pintura dos atuais grafites a pedido da prefeitura, ele não acha que seja exatamente um erro da administração municipal. Para o professor, é necessário existir uma área destinada a isso, com a lei embasando o uso do espaço. 

"Precisamos ter uma cidade em que a intervenção artística tenha relação com a própria estrutura local e que não interfira na paisagem urbana, isso é um ponto positivo", avalia ele. "O que não pode existir é uma região onde tem o grafite junto com a pichação, pois aí fica claro que o estado não tem condições de gerir o espaço".

Por isso, segundo o professor, é necessário ter uma legislação que coloque certos locais para a prática do grafite, como temos os museus para a arte. "Ninguém pinta um quadro e pendura no meio da 23 de maio, existe um museu para isso", ressalta. Se a prefeitura quer transformar a cidade em um museu a céu aberto, ele avalia que é melhor ter um distrito com uma orientação para se fazer isso, algo mais lógico e com relação ao plano diretor da cidade. "O que não pode existir são intervenções que vem de maneira aleatória, como grafite e pichação, assumindo um caráter de total afronte ao poder público e ao cidadão", destaca.

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