Equilíbrio

Picuinhas impedem Brasil de ter uma Marcha das Mulheres grandiosa

Lucas Jackson /Reuters
Milhares de pessoas se reuniram para a Marcha das Mulheres, protesto contra o presidente Donald Trump, em Washington Imagem: Lucas Jackson /Reuters

Thamires Andrade

Do UOL

23/01/2017 18h20

Milhares de pessoas, em sua maioria mulheres, participaram no sábado (21) da Marcha das Mulheres, em Washington, em protesto contra o presidente americano, Donald Trump. Além da marcha principal, cerca de 300 "marchas irmãs" ocorreram em outras cidades dos Estados Unidos, como Nova York, Boston, Los Angeles e Seattle. Essa 'união' contra o presidente que fez declarações polêmicas contra os direitos das mulheres, dos negros e da população LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) chamou atenção e levantou a pergunta: será que o Brasil poderia ser palco de uma marcha nas proporções da americana?

Nana Queiroz, diretora-executiva da Revista AzMina, autora do livro "Presos Que Menstruam" e criadora do protesto "Eu Não Mereço Ser Estuprada", esteve na marcha e acredita que o movimento feminista brasileiro tem muito o que aprender com o americano. "O principal mérito da marcha foi ser agregadora, qualquer pauta de direitos humanos era bem-vinda. Ninguém via como se estivesse tentando roubar o protagonismo das mulheres. Muitos latinos traziam bandeiras a favor da migração e muitos negros trouxeram bandeiras contra o racismo. O movimento feminista brasileiro pode sim aprender muito e poderíamos ter uma marcha de mais de um milhão de pessoas espalhadas pelo Brasil, se estivermos dispostos a agregar invés de ficar discutindo picuinha", explica.

Para Nana, o movimento feminista brasileiro ainda está muito centrado na interpretação equivocada de protagonismo, como se o protagonismo impedisse que outras pessoas participassem da luta e agregassem como colaboradores. "A ideia é que as pessoas perguntem para as outras, que são afetadas, como elas podem participar para ajudar nesse problema. Por exemplo, sou branca, se quero ajudar no racismo, devo perguntar para uma mulher negra qual a melhor maneira de ajudar. Isso não significa que eu não possa fazer nada, que eu não deva participar dessa luta...", explica.

Prova disso é que, segundo Nana, os homens se mobilizaram para participar das marchas, mas toda a organização e a liderança foi feita pelas mulheres. “Os homens estavam lá na posição de perguntar: o que vocês querem que façamos para participar? Eles foram agregados. E eu acho isso muito interessante, deu muita força para o movimento. Mundialmente, a ONU tem feito esforço para acolher os homens nos movimentos feministas”, afirma.

Segundo Nana, um dos motivos de acolher os homens no movimento é que, sem eles, não haverá transformação nenhuma, já que não dá para transformar uma sociedade inteira apenas com a adesão de metade da população. “Temos que discutir com menos agressividade sobre qual o espaço que os homens devem ocupar. O feminismo brasileiro, principalmente o de internet, ainda é muito resistente a isso. Só que esse tipo de incorporação está mais bem resolvido nos EUA. A participação masculina na marcha foi muito relevante e, sem eles, talvez as mulheres não teriam alcançado o número e pressão popular que conseguiram”, diz.

Visibilidade da mídia

A professora doutora Roseli Martins Coelho, docente da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), acredita que seria difícil uma manifestação no Brasil alcançar aquela proporção, principalmente por conta da visibilidade dada pela mídia. “Acho muito difícil que a imprensa brasileira desse a mesma importância para essa marcha do que a imprensa americana deu. A visibilidade foi impressionante”, fala.

Para Roseli, prova disso é que o Brasil já foi palco de marchas de mulheres razoavelmente numerosas que passaram despercebidas pela imprensa. “E ainda hoje acontecem várias marchas locais menores que seguem sem ser noticiadas. Por isso, acho que a chance de repetirmos aqui em termos de número e repercussão de mídia esse protesto americano é bem pequena”, diz.

Celebridades na luta

Reuters
Imagem: Reuters
Na marcha americana, personalidades como as cantoras Madonna e Alicia Keys e as atrizes Scarlett Johansson, Ashley Judd e America Ferrero participaram do protesto. No Brasil, algumas causas, como o aquecimento global, são muito defendidas por famosos, mas poucas são as celebridades que vestem a camisa pelo feminismo. “A palavra feminista no Brasil ainda está muito cercada de uma conotação negativa, de preconceito. Algumas celebridades tem receito de se chamarem assim... Nos EUA, não. Há uma década várias celebridades “saíram do armário” como feministas, como Beyoncé, Emma Watson, Miley Cirus e Kate Perry, e foram a público falar sobre o tema”, afirma Nana.

Já no Brasil, Nana acredita que só as celebridades que têm uma personalidade mais de enfrentamento se assumem feministas, como a cantora Tati Quebra Barraco e Clarice Falcão. Para a diretora-executiva da Revista AzMina, o envolvimento de celebridades é muito positivo para motivar as meninas mais jovens. “Essas personalidades podem ajudar a introduzir essas questões de igualdade de gênero, não como algo que faz com que as mulheres sejam desagradáveis e raivosas, mas sim como pessoas que buscam igualdade”, afirma.

 

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