Equilíbrio

"Fugi de casa para virar médico, me afundei e agora sei lidar com dívidas"

Divulgação/Arquivo pessoal
O neurocirurgião saiu do interior do Pará, passou por várias dificuldades financeiras e precisou se reinventar Imagem: Divulgação/Arquivo pessoal

Gabriela Guimarães e Marina Oliveira

Colaboração para o UOL

01/03/2017 04h00

Francinaldo Lobato Gomes, 43 anos, em depoimento ao UOL

“Nasci na cidade Abaetetuba, interior do Pará, e fiquei órfão de mãe aos dois anos. Morando com os meus avós paternos, a situação era difícil e havia a crença de que ‘filho de pobre tem que trabalhar e não estudar’. Aos 8 anos, eu já era entregador e vendedor de doces nas feiras. Porém, como eu gostava de estudar, tinha que dar conta das duas coisas, mesmo sem o apoio da família: trabalhava de manhã e frequentava a escola à tarde. À noite, eu fazia as tarefas escolares e me preparava para as provas. Era comum meu avô, ao me ver estudando, dizer que deveria parar com aquilo. 

Mas, aos 14 anos, eu decidi que seria médico. A essa altura da minha vida também percebi que, se continuasse no meu colégio público, não teria chances de chegar lá. Então, ao terminar o segundo ano do Ensino Médio, me mudei para Belém, para estudar em um colégio particular. Eu tinha conseguido um desconto de 50% nas mensalidades com a ajuda de um vereador.

Saí fugido de casa, porque meu pai e meus avós rejeitavam a ideia. Passei a morar com um tio e, nesse período, trabalhava para pagar a estadia e a alimentação. Ele vendia caldo de cana e eu o ajudava, acordava às 4h da manhã e trabalhava até o meio-dia. No colégio, eu ficava das 13h às 19h. Em casa, estudava sozinho, das 21h às 2h da manhã. Tudo para conseguir ficar no mesmo nível dos outros alunos. Nos fins de semana, eu ainda vendia sacolé, para complementar o valor do colégio. Mas, mesmo assim, sempre faltava dinheiro e eu vivia na secretaria pedindo adiamento do pagamento.

O cenário mudou após o primeiro simulado para o vestibular. Lembro da cena como se fosse hoje: o diretor entrou na sala e perguntou quem era o Francinaldo. Eu levantei o braço e ele pediu que eu o acompanhasse até a diretoria. Eu quase tive um infarto! Achei que seria expulso do colégio por falta de pagamento. Mas, ao chegar à sala, ele me perguntou se eu sabia que havia sido o primeiro colocado do colégio no exame. Daí ele me perguntou que curso eu queria fazer e eu respondi que sonhava em ser médico. Ele me disse que eu tinha grande potencial e que o colégio estava disposto a investir em mim, desde que eu continuasse mantendo o ritmo dos estudos.

Desde aquele dia, fiquei isento da mensalidade e comecei a receber todo o material de estudo gratuitamente. Passei em primeiro lugar para Medicina na Universidade Federal do Pará, além de obter a maior nota em química de todo o estado. Mas eu ainda precisaria me sustentar. Nos primeiros seis meses de graduação, fui admitido na universidade como professor de biologia e química (por conta da minha nota) e recebia um salário fixo. Porém, tinha que dar aulas à noite e aos finais de semana. Nesse período, houve prova para Iniciação Científica em Neurociências, com a oferta de uma bolsa de pesquisa. Eu fui aprovado e parei de dar aulas, passei a desenvolver pesquisas, o que me permitiu ter vários trabalhos publicados e desenvolver a minha tese de Mestrado.

Eu conheci a minha esposa no terceiro ano do curso e logo já tive a minha filha. As contas sempre foram apertadas em casa mas, durante a minha residência, piorou muito: o colégio da minha filha atrasou e o aluguel do apartamento, também. Minha esposa abandonou a faculdade de Direito e passou a trabalhar para ajudar a manter o orçamento. O ponto crítico foi um domingo em que faltou dinheiro para pagar as compras de supermercado.

Nesse dia, ao chegar em casa, falei para a minha esposa e para a minha filha que nunca mais deixaria uma situação como aquela ocorrer novamente. Passei a buscar conhecimento nas áreas de finanças e investimentos, além de continuar estudando neurocirurgia. Aprendi a investir em ações e pude adaptá-las ao cotidiano dos médicos e profissionais da saúde. Isso resultou em dois livros, o mais recente chama-se ‘Finanças no Consultório: como maximizar os resultados’ (Editora Doc). Levei cerca de um ano para zerar as minhas dívidas e, depois, mais um ano para recuperar e continuar aumentando o meu patrimônio.

Hoje, minha vida financeira é totalmente equilibrada. Dependo muito pouco do meu trabalho, por conta do que construí. Não esbanjo, porém, viajo pelo menos três vezes no ano com a minha família. Continuo exercendo ativamente a neurocirurgia e faço das finanças um hobbie recompensador. A vida me ensinou que o mais importante não é o quão forte você consegue bater, mas o quanto você consegue apanhar e, ainda assim, continuar lutando. E eu não estou nesse planeta para passar despercebido.”

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