Comportamento

"Meu marido me estuprou e eu fiquei grávida"

AtnoYdur/Getty Images/iStockphoto
Imagem: AtnoYdur/Getty Images/iStockphoto

Helena Bertho

do Uol

05/03/2017 04h00

Depois de enfrentar um câncer no ovário, ela conseguiu realizar o sonho de ser mãe. A segunda filha, no entanto, foi concebida no dia em que foi estuprada pelo próprio marido. Em depoimento ao UOL, a personagem dessa história preferiu não revelar seu nome. Confira os detalhes do drama que ela vivenciou:

“A pior decisão que eu tomei na minha vida foi largar minha família em Minas Gerais para viver com meu marido no Rio de Janeiro. Mas eu levei anos para perceber isso. No começo nosso relacionamento era normal, sem crise. Mas ele sofreu um acidente, teve uma perna amputada e ficou em depressão. Foi uma revolução em nossas vidas. Cuidei dele, ao mesmo tempo em que comecei a trabalhar fora como professora estadual. Foram dois anos muito difíceis, mas finalmente ele se reergueu.

Como desgraça nunca é pouca, um ano depois tive um câncer no ovário. E entre quimioterapia e cirurgias, passei três anos em tratamento. Nessa época, nosso casamento estava já desandando. Ele me tratava mal e não me dava apoio nos momentos de maior necessidade. Por isso, quando o tratamento acabou, eu já não tinha mais tanta certeza se queria ficar com ele.

Existia aí um porém: eu sonhava ser mãe e a questão do tumor no ovário me deixou desesperada para fazer isso logo. Então continuei com ele, para realizar esse sonho. Mas logo que engravidei decidi sair de casa. Como ele não me tratava bem, ficaria melhor sozinha.

“Ele me enforcou e abusou, tudo na frente da nossa filha”

Mais uma vez a vida me pregou uma peça: minha gravidez foi uma complicação só e eu precisava de ajuda. Nessas horas, estar longe da família pesava muito. Eu não tinha ninguém a quem recorrer e precisei então voltar para a casa do pai da minha filha, pois não tinha condições de seguir sozinha. Mas voltei somente como mãe da filha e não mais como esposa, até em quartos separados dormíamos.

Minha pequena nasceu em 2006, prematura, mas saudável e eu me recuperei rapidamente também. Então quando ela tinha cinco meses, resolvi sair de casa outra vez. Busquei uma quitinete e comecei a organizar tudo para isso. Até o dia em que a mudança finalmente aconteceria. Eu acordei cedo e fui pegar a menina no berço quando de repente ele me atacou.

Com uma chave de braço, começou a me estrangular. Perdi a consciência por alguns segundos e quando voltei a mim, o pior estava acontecendo. Meu marido estava me estuprando e eu não conseguia ter forças para reagir, só gritar. Tudo isso com nossa filha no berço logo ao lado!

Quando ele parou, eu comecei a bater nele. Totalmente fora de controle, eu gritava e batia, com medo de que algo mais acontecesse. Ele se assustou e recuou, então peguei minha bebê e fui para uma delegacia. Lá, ainda tive de ouvir do delegado que como eu era casado, aquilo não era estupro. Se eu não queria transar com meu marido, devia ter saído de casa antes, ele disse.

“Minha mãe colocou ele para dentro de casa”

Justiça não houve, mas eu não voltei para casa. Um mês depois, porém, descobri que estava grávida. Que desespero! Dentro de mim estava o fruto da maior violência que eu já tinha sofrido na vida. Eu rejeitei no começo. Aquela gravidez era uma segunda violência!

Foi bem difícil, física e psicologicamente, mas com o tempo comecei a aceitar e amar minha menina, que não tinha culpa de nada e nasceu prematura. Minha mãe veio de Minas Gerais para me ajudar dessa vez. Mas enquanto eu estava internada, ela decidiu que eu devia voltar com meu ex e botou o maldito para dentro da minha casa! Na cabeça dela, casamento tem que ser para a vida toda!

E na minha vida, quando algo pode dar errado, dá. Então, para piorar tudo, eu descobri que tenho lúpus e fiquei realmente muito doente. Não tinha nem forças para amamentar.

Lupus é uma doença bem difícil, crônica. Ela ataca as células do próprio corpo e até ser controlada, causa diversos sintomas como dores, fraqueza, manchas e febre. A cada crise, eu acabava sendo internada para controlar. E como eu não tinha nem com quem deixar minhas filhas, acabei deixando o desgraçado ficar em casa, porque pelo menos ele olhava as meninas quando eu estava no hospital.

“Precisei trancá-lo para fora de casa”

Eu sei que não devia ter feito isso. Mas na época eu não tinha energia para lutar. Mal tinha forças para me recuperar. Algo que foi acontecendo bem devagar. Por quatro anos, eu fiquei entre idas e vindas ao hospital. No pouco que estava em casa, ele era grosso comigo, me diminuía e fazia com que me sentisse um lixo.

Mesmo assim, aos poucos fui me recuperando e as crises se tornando cada vez mais distantes. Então comecei a expulsar ele de casa. Pedia para sair, mandava embora, mas nada. Ele ficava. Até que um dia eu saí para trabalhar e levei a chave, quando ele voltou do seu trabalho, não conseguiu entrar.

Fez um escândalo na porta de casa, deu um show que terminou até com polícia, mas eu não abri. Depois ele ainda insistiu, fazendo vexames na porta de casa toda semana, para voltar. Era tanto, que consegui uma medida protetiva. Mas não adiantava de nada, ele nunca deu bola.

Devagar, ele foi diminuindo a frequência, até que parou de aparecer. Hoje, só sei dele por umas mensagens de ameaça que recebo de vez em quando. Crio as meninas completamente sozinha e já até cheguei a interná-las no hospital comigo para não ficarem sozinhas, mas com ele não deixo nunca mais.

Os traumas que trago comigo são enormes. Sei que nunca mais vou conseguir me envolver com outro homem, tenho ânsias só de pensar. Mas minhas forças eu uso para que minhas filhas possam se fortalecer e superar o trauma de toda a violência que me viram passar”.

Apesar de ser crime na lei, estupro de marido ainda é diminuído

O que o delegado falou para a mulher do depoimento acima pode parecer absurdo, mas até pouco tempo atrás era o normal. “A lei não previa expressamente essa questão, mas era entendia que o sexo era uma obrigação contratual do casamento, portanto não haveria estupro dentro do matrimônio”, explica a advogada Livia Magalhães, especialista em direito criminal e da família. Atualmente, a Lei Maria da Penha também define a violência sexual por parte de marido, parceiro, companheiro ou familiar. Mesmo assim, estupros dentro de relações ainda são uma questão difícil.

“Ele é muito subnotificado. Eu participo de um encontro todo mês com mulheres que sofreram violência. Sempre que pergunto se alguma foi estuprada pelo parceiro, ninguém levanta a mão. Se eu mudo a pergunta para ´Alguém já foi submetida a sexo sem consentimento ou contra a vontade?´, várias se manifestam. É muito difícil a mulher dizer que foi estuprada pelo marido, a palavra é muito pesada”, afirma a promotora de justiça do Ministério Público de São Paulo, Silvia Chakian.

Segundo ela, até o atendimento para quem busca ajuda muda quando o estupro aconteceu em um relacionamento. “Ela vai ser julgada, porque ainda existe uma noção cultural de que o casamento pressupõe um dever da mulher de servir sexualmente ao homem”.

O Ministério da Saúde estima que mais de 500 mil mulheres sejam estupradas por ano no Brasil, mas apenas 10% desses casos chegam à polícia. E segundo dados do IPEA, 70% dos estupros são cometidos por pessoas conhecidas da vítima

A psicóloga Daniela Silveira presta assistência a mulheres vítimas de violência no projeto Minha Voz e ela nota que existe grande dificuldade para a mulher entender o que viveu. “Quando o abuso vem de uma pessoa próxima, ela demora muito mais para reconhecer aquilo como uma situação de violência”. Por isso mesmo, ela acredita que lidar com o trauma é mais difícil. “Muitas têm sintomas do trauma, como medo, ansiedade e até dor física, mas não ligam uma coisa a outra”.

Apesar de todas as dificuldades, as especialistas ressaltam que é importante que as mulheres saibam que toda forma de relação sexual sem consentimento é estupro e que, caso aconteça, elas podem e devem buscar ajuda. 

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