Bichos de estimação

Paixão por bichos ajuda até depressão, mas exagero precisa ser investigado

Arquivo pessoal
Verônica e a cachorra, Bella Imagem: Arquivo pessoal

Melissa Diniz

Do UOL

10/03/2017 04h00

O amor pelos animais é uma marca na vida da jornalista Verônica Rita Zanatta, 50, de São Paulo. Atualmente, ela tem cinco cães e dois gatos em uma casa sem quintal e sem garagem. Todos dormem em seu quarto. Verônica ainda mantém três cachorros em outro lugar e paga mensalmente por isso. “Já cheguei a ter 13 animais de uma só vez. Todos eles foram resgatados da rua e encontrados em condições muito ruins, doentes e subnutridos. Achar um animal abandonado acaba comigo, não consigo cruzar os braços e não fazer nada.”

O amor de Verônica pelos animais começou na infância, mas seus familiares e amigos nem sempre são compreensivos com ela. “Sempre tive muitas desavenças com minha mãe por causa dos meus animais. Hoje moramos juntas e nos desentendemos todos os dias. Na época em que fui casada, meu marido tinha muito ciúmes do nosso gato, o Chuvisco.”

A jornalista conta que já foi chamada de louca por causa dos bichos, mas não se abala. “Quem gosta de mim verdadeiramente tem que entender que esta é a minha essência, amo os animais e sem eles a minha vida perde o sentido. Antigamente, eu ficava triste ao ouvir isso, mas hoje eu simplesmente ignoro.”

“As pessoas que mais amo são meu pai e meu cão”

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Ricardo e seu cão Imagem: Arquivo pessoal

O comerciante Ricardo Mauricio Freire, 44, de Belo Horizonte, também é apaixonado pelos animais desde criança. Solteiro, ele mora com o pai e juntos eles criam pequeno cão da raça yokshire e alguns canários. “Apesar disso, minha grande paixão sempre foram os répteis, principalmente lagartos e crocodilianos. Já tive uma iguana, uma caranguejeira e um escorpião. Os animais peçonhentos me fascinam.”

Ricardo afirma selecionar seus relacionamentos, buscando apenas pessoas que gostem de animais. “Eu não me envolvo ou sequer me misturo com gente que não gosta de bichos. As pessoas que mais amo na vida são meu pai e meu cão, depois vêm familiares e amigos. Meu cachorro é meu maior parceiro.”

A companhia dos bichos, acredita Ricardo, é melhor do que a das pessoas, pois eles são ingênuos e puros. “Os animais não são oportunistas nem vivem de interesses. Apenas seguem seus instintos e são totalmente fiéis ao dono.”

“Quer dar certo comigo? Dê certo com o meu cachorro”

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Fabio e o cão, Titan Imagem: Arquivo pessoal

O corretor de imóveis Fabio Ney Daniel Junior, 32, de Belo Horizonte, herdou da mãe o gosto pelos pets. “Eu levava os bichos para casa dizendo que eram para ela, mas, na verdade, eram para mim. Já tive diversos cachorros, passarinhos, hamster e até um miniporco, que dormia comigo na cama. Hoje, minha paixão é o Titan, um cão da raça american bully.”

Casado e pai de dois filhos, Daniel acredita que o convívio com os animais seja benéfico para as crianças. “Quero criá-los com os animais por perto, mas nem sempre é fácil. Muitas vezes, acontecem discussões em casa e acaba gerando ciúmes, porque quero levar o cachorro a todos os lugares. Se não dá para ele ir, não vamos.”

Para explicar porque ele muitas vezes prefere os animais às pessoas, Fabio responde que bichos têm mais paciência. “Eles nos escutam e sentem o que a gente sente. Quer dar certo comigo? Dê certo com o meu cachorro.”

Benefícios do convívio com animais

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Verônica resgata e cuida de animais abandonados Imagem: Arquivo pessoal

Para Lana Harari, terapeuta de casal e família, a convivência com animais de estimação traz inúmeros benefícios emocionais. “Animais são leais, não traem, amam incondicionalmente e não têm intenção de machucar. Por isso, são uma fonte de confiança. Para uma pessoa que não foi feliz nos relacionamentos ou passou por uma experiência traumática, estabelecer esse tipo de vínculo é extremamente saudável e gratificante”.

Outra vantagem de ter bichos, aponta Lana, é a possibilidade de exercitar o amor. “O amor verdadeiro é vivenciado na doação, na renúncia. É isso que promove o apego. Esse sentimento é o que nos faz realizar algo, mesmo sem vontade, pelo bem do outro. Quem ama o cachorro, por exemplo, levanta para dar comida e leva para passear, mesmo estando cansado.”

É muito comum, explica psicóloga, que os animais venham a preencher lacunas deixadas por relacionamentos, como ausência do filho, do pai ou de amigos. “O animal é sempre dependente e vulnerável. Essa característica tem um efeito positivo em quem cuida, a pessoa se sente importante e tem uma motivação para viver. Por isso, cuidar de um bicho ajuda no tratamento da depressão.”

Para a especialista, quem critica o amor pelos bichos ou afirma que seria mais útil adotar uma criança e não um animal, reduz a dimensão dos sentimentos humanos. “Trata-se de um amor legítimo e verdadeiro. Tanto que quando o animal morre, o dono experimenta um luto real, nem sempre reconhecido pela sociedade.”

Resgatar e cuidar de animais abandonados, afirma, tem um efeito psicológico de busca de reparação. "É comum que o dono se identifique com o animal porque, talvez, tenha vivido uma experiência de abandono também, então, tenta dar ao bicho todo o carinho que não recebeu.”

Sinais de alerta

Segundo a psicóloga Marina Vasconcelos, deixar os animais ocuparem um espaço muito grande na própria vida pode ser sinal de problemas emocionais e de relacionamento. “Faz parte da vida ter relacionamentos com pessoas, pois eles implicam passar por frustrações, rejeições e conflitos. Tudo isso exige de nós investimento e esforço e gera o desenvolvimento de habilidades essenciais para a vida.”

Na opinião de Lana Harari, o amor pelos bichos, quando exacerbado, beira a misantropia. “É ruim quando alguém afirma, como a atriz francesa Brigitte Bardot, que sente vergonha de pertencer à espécie humana, porque algumas pessoas maltratam os animais. É preciso ponderar que embora homens realizem crueldades também são capazes de atos incríveis de solidariedade.”

Para a terapeuta, é um equívoco atribuir sentimentos humanos aos animais. “Esse antropomorfismo que está em voga hoje em dia, de achar que o bicho se magoa ou tem características humanas, muitas vezes prejudica a qualidade de vida das pessoas e até os relacionamentos. Portanto, não é saudável."

A especialista explica porque, muitas vezes, é mais fácil sentir pena de um animal do que de uma pessoa. “A agressividade está sempre presente no ser humano. Já o bicho, quando ataca, é por instinto. É por isso que muita gente se comove mais com o animal ferido do que com alguém caído na rua. O animal sempre desperta o desejo de cuidar." No entanto, exercitar o amor pelos bichos, afirma, pode ser uma maneira de desenvolver, um dia, a empatia também pelo próximo.

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